“Não é uma exposição. É uma proposta de uma investigação em curso”, afirmou Pedro Fazenda, sublinhando que o trabalho desenvolvido em parceria convida a uma experiência sensorial: “vamos tactear as pedras para que elas nos toquem também”.
As peças, provenientes de blocos extraídos nos anos 60 da pedreira da Fonte Soeiro, em Pardais, Vila Viçosa, guardam as marcas de corte e o peso da história. O projeto permite que o toque do público seja transformado em som através de uma central concebida por Rodrigo Pedreira, oferecendo uma nova dimensão de contacto com a matéria.
Sandra Leandro, diretora do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo, lembra que a iniciativa remete também para a memória da cidade de Évora, que em 1981 acolheu o Simpósio Internacional de Escultura em Pedra. Nessa altura, impulsionado por João Cutileiro, o evento juntou escultores nacionais e estrangeiros, entre os quais o próprio Pedro Fazenda. Várias obras ficaram expostas em espaços da cidade e foram determinantes para a criação do Departamento de Escultura em Pedra, no antigo Matadouro Municipal, origem da atual associação Pó de Vir a Ser.
“Creio que estas pedras estão felizes por se encontrarem tão perto de vestígios do Neolítico, na sala adjacente a esta. Não esperavam estar num Museu, talvez já não esperassem a apreciação e o apreço de que são alvo. Não podendo ser outro é este o abraço que lhe damos”, sublinha Sandra Leandro.
Já para Rodrigo Pedreira, esta proposta artística questiona a própria relação entre som, tempo e matéria: “a matéria da pedra aparenta ser permanente. A aparência não traduz, no entanto, todas as vibrações impermanentes que a desenha”.
“Tocar uma pedra é uma experiência que significa, ao mesmo tempo, muitas coisas: sentir todos os grãos de tempos diferentes numa mesma superfície”, refere Rodrigo Pedreira, acrescentando que, sem procurar uma revelação transcendental, a obra afirma-se como gesto criativo de ruptura: “Não há aqui qualquer revelação mística do som. O som não estava lá antes, nem ficará depois. Trata-se apenas de rasgar — romper, para que algo novo possa emergir”.
Nascido em 1957, em Coimbra, Pedro Fazenda expõe desde 1979 e é presidente da Associação Pó de Vir a Ser – Departamento de Escultura em Pedra do Centro Cultural de Évora, que prossegue objetivos de investigação e produção de escultura em pedra, contando com equipamentos e logística próprios, e proporcionando o cruzamento de saberes e a intervenção na cidade.
Rodrigo Pedreira estabelece a sua prática artística a partir dos princípios intermodais e relacionais das tecnologias audiovisuais com o meio, o espaço e o tempo, desenvolve a sua investigação artística no campo do vídeo e do som experimental.
Texto: Alentejo Ilustrado | Fotografia: D.R.











