Os dados são do Instituto Nacional de Estatística: a esperança de vida à nascença em Portugal aumentou 14 meses na última década, o que resultou sobretudo da redução da mortalidade em idades iguais ou superiores a 60 anos, para homens e mulheres. Aos 65 anos, a esperança de vida aumentou 11,5 meses no mesmo período.
Vivemos mais, portanto. Mas estaremos a viver com qualidade? O que pode cada um fazer nesse sentido? A resposta, segundo a gerontóloga Ana Rodrigues, está na promoção do envelhecimento ativo, que envolve várias estratégias em pilares como a saúde física, cognitiva, social e emocional.
É ela a fundadora do projeto Raízes Seguras, destinado a “preparar” a população sénior para esta etapa da vida, e evitar a institucionalização. “Cada vez mais as diretrizes apontam para [a necessidade de] se envelhecer no lugar onde estamos habituados a viver, onde temos as nossas memórias, a nossa casa. Isto é possível, com um planeamento da velhice”, garante.
Trata-se de promover o bem-estar e a autonomia das pessoas idosas. E, simultaneamente, oferecer suporte às famílias, pois mesmo nas situações em que o utente já necessita de apoio “é sempre possível otimizar” o auxílio prestado, nomeadamente através de cuidadores profissionais.
O Raízes Seguras inicia-se com a criação de uma rede de cuidadores que, ao efetuarem o registo numa plataforma online, expressam disponibilidade para prestar o serviço e a distância a que o podem fazer. Efetuado o registo, é identificado o cuidador que melhor se adequa ao perfil de cada caso.
“Fazemos a avaliação à pessoa idosa”, explica Ana Rodrigues, referindo-se à consulta de gerontologia, onde avalia, orienta e acompanha de forma personalizada cada utente, olhado de forma “integral”.
Dito de outra forma, a consulta destina-se a uma avaliação multidimensional – que implica a dimensão física, psicológica, sociocultural e espiritual – para a criação de um plano de cuidados personalizados e eficazes que promovam a qualidade de vida e a autonomia dos idosos. Pode ser feita presencialmente e no domicílio, por enquanto apenas nas proximidades do Centro Histórico de Évora, ou através da internet.
As visitas ao domicílio não são um pequeno pormenor. “As quedas em casa” – lembra – “são um dos principais fatores de institucionalização dos idosos. Observar como cada pessoa vive permite-nos tornar a casa mais segura, e até assegurar uma maior autonomia da pessoa idosa”.
Outra aposta do projeto chama-se “Mentes em Ação 65+”. Trata-se de um programa de estimulação cognitiva em grupo para “manter a mente ativa” e, dessa forma, “prevenir o declínio”, mas também “partilhar bons momentos” – dando importância à dimensão social. De acordo com Ana Rodrigues, são atividades “direcionadas para trabalhar as áreas do cálculo, da linguagem, da atenção e do foco”, estando gizadas de forma a “que as pessoas não se sintam julgadas se não conseguirem” executar os desafios propostos.
Antes de fundar as Raízes Seguras, Ana Rodrigues já avaliava e criava planos para familiares, amigos e conhecidos que, sabendo que era gerontóloga, lhe pediam conselhos. E todos a incentivavam a trabalhar na área, dando-se a conhecer. “Foi aí que surgiu a Fundação Eugénio da Almeida (FEA), que me permitiu pegar na ideia. O projeto foi premiado pelo Centro de Inovação Social da FEA e, a partir daí, consolidou-se com toda a mentoria e apoio da Fundação”.
Um ano após ser lançado chega a mais de 50 pessoas. Cresce na oferta de serviços e lançou recentemente uma página de internet. Até aqui, a visibilidade resultava das partilhas nas redes sociais, mas principalmente da transmissão boca a boca. A fundadora diz que o projeto quer ser “um sítio onde as pessoas possam chegar e ver uma solução para o seu problema”, estando apostada em criar respostas à medida das necessidades que vão surgindo.
Nascida no concelho de Vagos, distrito de Aveiro, Ana Rodrigues criou o gosto “por estar na presença e aprender com as pessoas de mais idade” através da relação “muito próxima” que teve com os avós, o que orientou a sua formação académica e escolha profissional. “Eles tinham um propósito, uma agenda, tinham projetos. Envelhecimento ativo é isso, é estar vivo e ter projetos. Aquilo que eu sentia é que os meus avós eram pessoas felizes. Portanto, nunca encarei a velhice como sendo uma coisa má”.
Em 2011 muda-se para a Évora, terra natal do marido. “Acho que não saio de cá. Já sou raiz de dois filhos que nasceram na cidade”. Ao contrário do que era a sua expectativa, quando chegou ao Alentejo não conseguiu encontrar trabalho na área de formação. “Talvez porque as equipas já estavam formadas; ou porque as pessoas não estavam familiarizadas com as tarefas do gerontólogo”.
Trabalhou na área administrativa e teve uma breve passagem por uma instituição, que terminou em maio do ano passado, sendo que na altura já tinha Raízes Seguras no CIS da Fundação Eugénio de Almeida.












Uma resposta
É lindo e muito agradável aprende se e convive se , aprendendo tantas coisas, porque todos os dias se aprende
Obrigada Ana por esta oportunidade, e sempre que puder eu estarei presente 😘