Armando Alves (1935/2026), o pintor que reinventou a paisagem

O pintor Armando Alves, que morreu aos 90 anos, fez parte do grupo de artistas «Os Quatro Vintes», apaixonou-se pelo design e foi pioneiro na construção de uma memória gráfica da vida cultural da cidade do Porto. 

Além da obra na pintura, o seu percurso ficou marcado, a partir do final da década de 1960, pela valorização e renovação das artes gráficas, introduzindo-as no ensino a nível académico, na edição literária e na publicidade.

Em 2006, Armando Alves foi agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito e, em 2009, recebeu o Prémio de Artes Casino da Póvoa.

Nascido a 7 de novembro de 1935, em Estremoz, Armando José Ruivo Alves estudou na Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, e na Escola Superior de Belas-Artes do Porto (ESBAP), onde concluiu o curso de Pintura com 20 valores, integrando, em 1968, o grupo «Os Quatro Vintes», com Ângelo de Sousa, Jorge Pinheiro e José Rodrigues.

Ainda estudante na ESBAP, começou a dividir o seu trabalho com a área gráfica, vindo a destacar-se na direção de obras literárias, produção de cartazes comemorativos e publicitários, catálogos de exposições, programas de concertos e atividades desportivas.

Com Ângelo de Sousa (1938-2011), José Rodrigues (1936-2016) e Jorge Pinheiro (1931), todos formados com a nota máxima, apresentou várias exposições no final da década de 1960, nomeadamente na Galeria Domingues Alvarez, no Porto (1968), na Galeria Zen, no Porto (1969), na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa (1970), e na Galeria Jacques Desbrière, em Paris (1970).

Entre 1962 e 1973, foi professor assistente na ESBAP, onde introduziu o estudo das artes gráficas — hoje design gráfico — área que desde cedo lhe despertou interesse e da qual se tornou pioneiro na cidade.

Enquanto em Lisboa já se destacavam vários designers, como Vítor Palla e Sebastião Rodrigues, no Porto Armando Alves foi considerado o primeiro a construir uma memória gráfica da vida cultural da cidade, onde desenvolveu a sua atividade profissional.

Apesar desse percurso, o artista afirmou sempre, em entrevistas, que a sua identidade era essencialmente a de pintor, considerando as artes gráficas «uma continuidade» da pintura.

Na «Autobiografia», publicada no “Jornal de Letras Artes e Ideias” (JL), em maio de 2009, Armando Alves sublinha a importância do Porto, onde se fixou.

«O Porto significou o conhecimento de novos amigos, a descoberta de uma cidade onde acabaria por me radicar», escreveu. «Significou ainda a experiência da arte que, nos ateliers de cada um, se punha em prática e que nos cafés se debatia, sobretudo no Majestic, à noite».

No mesmo texto, recorda os espaços de encontro cultural e o ambiente vivido durante a ditadura, referindo-se à vigilância da polícia política.

A Cooperativa Árvore, de que fez parte, é também destacada na sua «Autobiografia»: «Na vida cultural e artística da cidade, o aparecimento da Árvore foi um acontecimento de importância capital para o Porto».

Armando Alves dirigiu graficamente a obra “Cartas Portuguesas”»”, atribuídas a Mariana Alcoforado, traduzidas por Eugénio de Andrade, com desenhos de José Rodrigues, numa edição comemorativa dos 300 anos da publicação do texto original.

Dirigiu igualmente “Variações sobre um Corpo”»”, antologia de poesia erótica contemporânea organizada por Eugénio de Andrade, e “Versos e alguma prosa de Luis de Camões”, assinalando os 450 anos do nascimento do poeta. Participou ainda na coleção «Biblioteca Camiliana», dirigida por Alexandre Cabral.

Esteve ligado a três editoras: Editorial Inova (1968), Editorial Limiar (1975) e Editorial Oiro do Dia (1980).

Na pintura, começou pela figuração, aproximando-se do neorrealismo, evoluindo depois para um «informalismo matérico», caracterizado por uma rudeza textural e cromatismo assente em ocres e tons quentes. A partir da década de 1970, a sua obra refletiu influências da arte pop britânica, explorando a conjugação de formas bidimensionais e tridimensionais.

Desde a década de 1980, retomou a paisagem, reformulando-a à luz de um abstracionismo lírico que marcou o restante percurso.

O artista destacou frequentemente a influência da sua origem alentejana — as cores, a terra, a seara, a linha do horizonte e a luz — região pela qual dizia ter «um amor especial».

Na «Autobiografia» de 2009, Estremoz surge como referência central na sua vida após o 25 de Abril: «O 25 de Abril implicou a transformação da sociedade em que vivemos», escreveu. «Os dias que se seguiram à Revolução foram inesquecíveis».

Recorda ainda a participação em iniciativas ligadas ao design gráfico e ações públicas, acrescentando: «Mas, passada a euforia, veio a realidade e a necessidade de voltar à terra».

«Entretanto vou vivendo com a minha família em Matosinhos e Estremoz, com a preocupação de o fazer tranquilamente e de acordo com os valores em que acredito», concluiu.

Armando Alves realizou exposições em Portugal e no estrangeiro desde 1958, nomeadamente em Madrid, Antuérpia, Paris, Bagdade e, mais tarde, em feiras internacionais como a ARCOmadrid e a Feira de Arte de Paris.

A sua obra integra coleções do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, do Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, e da Câmara Municipal de Matosinhos, entre outras.

Segundo a Universidade do Porto, ao longo da carreira «alcançou importantes prémios e distinções», entre os quais o primeiro prémio na Mostra de Artes Gráficas Grafiporto 83, no Museu Nacional Soares dos Reis, e o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito, atribuído em 2006.

Texto: Alentejo Ilustrado/Lusa | Fotografia: D.R.

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