«EXIMUS: É preciso avisar toda a gente» é o título do projeto que envolve três centros de investigação da Universidade Nova de Lisboa e várias linhas de estudo para colmatar informação e preservar a memória sobre o exílio de músicos portugueses entre 1933 e 1974, como explica o coordenador, Manuel Deniz Silva.
«Identificámos a ausência de um trabalho mais sistemático em arquivo sobre este tema e este período», de um exílio que foi «uma experiência traumática, nostálgica, de um certo isolamento», mas também «de descoberta de uma liberdade criativa» que aqueles músicos não tinham no seu país, em ditadura.
O projeto tem como objetivo recuperar documentação musical e partituras, e saber mais sobre o percurso individual destes músicos, a relação com as organizações e associações que existiam no exílio e igualmente com músicos exilados de outros países, nomeadamente da América do Sul.
«O que nos apercebemos é que a vida musical era muito intensa, no contexto das festas de associações, e ainda há muita coisa para descobrir. (…) Nos arquivos em França encontram-se muitas referências em arquivos de polícia, administrativos, arquivos pessoais», exemplifica.
Com financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia para o período 2023-2026, o projeto científico tem esta semana um dos seus pontos centrais, com a realização de um congresso internacional que termina no sábado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Manuel Deniz Silva avisa, no entanto, que o trabalho de investigação vai ter continuidade, ramificando-se por outros estudos, nomeadamente para fazer um mapeamento «mais apurado» sobre quantos músicos e compositores estiveram no exílio em França naquele período, para que não se limite à identificação dos já falados Luís Cília, José Mário Branco, Sérgio Godinho e Francisco Fanhais.
«Neste momento ainda é difícil, porque ainda falta ver muita documentação nesses arquivos para podermos ter uma ideia quantitativa», diz.
Uma das linhas de investigação do EXIMUS debruçou-se sobre o maestro e compositor Fernando Lopes-Graça (1906-1994) e sobre o bailado «A Febre do Tempo», que escreveu no exílio em Paris e que teve apenas uma apresentação na capital francesa, em 1938. Está a ser feita uma reconstrução da partitura e planeada a apresentação do bailado em 2027, na Culturgest, em Lisboa.
A recuperação da composição de Lopes-Graça está a ser trabalhada com o coreógrafo João dos Santos Martins e o objetivo é que envolva bailarinos migrantes ou deslocados, até porque «tem ressonâncias com os dias de hoje».
«É uma obra que Lopes-Graça escreveu para uma companhia de bailado internacional que reunia bailarinos exilados, que vinham da Alemanha, Hungria, da Rússia. (…) Acaba por simbolizar a condição do músico exilado confrontado muitas vezes com dificuldades de realização das suas próprias obras», descreve o investigador.
No âmbito do EXIMUS, já foi criada uma página oficial (eximus.pt) e produzida uma exposição em itinerância em França, mas os investigadores querem ainda produzir materiais pedagógicos para partilhar em contexto escolar, preparar um documentário com depoimentos e editar temas inéditos de alguns dos artistas identificados.
O projeto «mostra a importância das artes e da cultura na resistência à ditadura, mostra também a inventividade de todos estes artistas para tentarem contornar a censura quando ainda estavam em Portugal, e depois a forma como refletiram a importância da canção e da música como arma de resistência», sublinha Manuel Deniz Silva.
A investigação contraria ainda uma «ideia monolítica» sobre o tema do exílio e revela divisões de opinião sobre «a melhor forma de mobilizar as artes para a resistência à ditadura». Havia os que consideravam que a função principal deste repertório feito no exílio era mobilizar ou alertar para a situação política do país; outros insistiam num trabalho mais aprofundado sobre a música, mesmo que se identificasse o engajamento ideológico.
O congresso internacional, que junta investigadores de países como Espanha, França, Estados Unidos, Polónia e Canadá, permite ainda perceber que existe interesse científico noutros países em estudar o passado sobre exílio e ditadura no universo artístico.
«Estes temas não têm sido muito investigados nos outros países e há um interesse muito grande neste momento por todas estas questões. A temática do exílio infelizmente continua atual e temos ainda muitos músicos forçados a saírem dos seus países para fugirem à censura ou à repressão política», considera Manuel Deniz Silva, segundo o qual «a expectativa é que o projeto EXIMUS possa continuar por outras formas», até porque o risco de dispersão dos arquivos destes artistas «é muito forte».
«Muitos podem achar que têm velhos papéis que não interessam, mas são relevantes para a investigação», afirma.
O EXIMUS é um projeto científico conjunto do Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança, do Instituto de História Contemporânea e do Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.












