“O Alentejo está estupefacto com esta decisão, não só porque somos contrários à utilização de dinheiros públicos para a queima de vinhos sem a componente da promoção”, mas também “porque não podemos aceitar que exista uma situação de discriminação em relação ao resto do país”, argumentou Luís Sequeira, numa reação ao plano de ação para o Douro aprovado em Conselho de Ministros, na passada quinta-feira.
O plano cria um apoio de 50 cêntimos por quilo de uva entregue para destilação e visa evitar a perda de rendimento dos viticultores, segundo anunciou o ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, na conferência de imprensa depois do conselho de ministros.
“O Douro tem uma especificidade que devemos atender, é património da Unesco e, por isso, aprovamos uma resolução de conselho de ministros que tem um efeito imediato no que diz respeito a um apoio de 50 cêntimos por quilo [uva] para todos os viticultores e com o objetivo de destilação”, afirmou.
Apesar de, “evidentemente”, em nome do Alentejo, expressar “total solidariedade” para com o Douro e “com a situação difícil” que os viticultores dessa região estão a viver, Luís Sequeira insistiu que não compreende a decisão tomada em Conselho de Ministros e que significa uma alteração na posição do Governo.
“O que nos chocou, e choca profundamente, é o facto de o Governo ter alterado uma posição que, de resto, contava com o apoio total do Alentejo, nomeadamente no sentido de evitar a utilização de dinheiros públicos para a destilação. É nossa posição há muito tempo que uma das soluções para o sector vitivinícola é, na verdade, apostarmos mais na promoção”, defendeu.
E, por isso, “a utilização de dinheiros públicos deve ser canalizada para esse efeito e não para a queima de vinho”, uma ideia que a CVRA entendia que era partilhada por José Manuel Fernandes.
“O próprio ministro, há relativamente pouco tempo, com toda a razão, dizia não ser possível permitirmos que o Governo esteja a pagar a 45 cêntimos vinhos que, porventura, possam ter sido comprados mais baratos. Aliás, o senhor ministro chegava a fazer a indicação de um valor concreto e nós estávamos de acordo com essa situação”, frisou.
Mas, para “surpresa e choque” da região, surgiu a medida do Conselho de Ministros, “em que o Orçamento do Estado vai suportar na sua totalidade 15 milhões de euros com o objetivo de efetuar a queima dos vinhos”.
“Ora, estamos totalmente contra esta situação, sobretudo porque ela confere uma realidade, para além da que já mencionámos, de discriminação de resto incompreensível. Há situações complicadas também no resto do país e que, naturalmente, merecem uma atenção por parte do Governo português”, adianta Luís Sequeira.
Para o presidente da CVRA, que disse já ter solicitado uma reunião com caráter de urgência ao ministro da Agricultura, Portugal não pode “ter uma situação em que o Governo da República entende que a única região que deve ter apoio é o Douro”.
Trata-se de “um processo absolutamente inaceitável” e a CVRA pretende apresentar ao ministro “a sua perspetiva relativamente à situação atual do sector dos vinhos” e, ao mesmo tempo, “saber qual é a posição do Governo relativamente às restantes regiões”, insistiu.
Texto: Lusa | Fotografia: Arquivo