Há histórias que parecem saídas de um livro de contos de fadas. E, ao contrário do que é habitual, esta não nasceu de uma epifania de autor, mas de muito trabalho e, acima de tudo, de um acaso (para quem acredita neles).
Hugo Bentes, em 1997, já era técnico de som. Antes, porém, tentara o estrelato no futebol do Sport Lisboa e Benfica, mas foi na Companhia Nacional de Teatro, nos estúdios Musibéria, na Academia de Cinema e, nos últimos anos, no Teatro Pax Júlia, em Beja, que se foi apaixonando pelas luzes e pela sonoplastia.
E foi num dia normal da sua plena atividade que o realizador brasileiro Sérgio Tréfaut desafiou Hugo Bentes com uma proposta bizarra: tornar-se ator. «Conheci-o na produção de um filme que ele estava a fazer em Serpa. Eu fazia a ligação entre a produção e o município, e ele convidou-me a fazer uma pequena participação. A seguir, foi o Alentejo, Alentejo, película que acompanhou a candidatura do cante alentejano a Património Imaterial da Humanidade».
Mas para Tréfaut soube a pouco. O realizador queria mais do técnico de som serpense, cuja propensão para a sétima arte era, segundo o brasileiro, indeclinável: «Veio ter comigo e dá-me um guião para ler. Eu comecei-me a rir. Como assim? Eu nunca tinha tido nenhuma experiência, a não ser aquele apontamento, e fiquei estupefacto. ‘Estás louco?’, disse-lhe. Queria que eu fosse o protagonista do filme Raiva, ainda que não tenha sido a primeira escolha para o papel. Perguntei-lhe quem era, e ele respondeu: Javier Bardem. E eu pensei: pronto, vou substituir o Bardem».
Hugo Bentes aceitou, pesou os riscos — mínimos — de falhar, e a verdade é que o filme revelou-se impactante: «Deu-me um gozo enorme porque retrata os anos passados dos alentejanos, como foram tratados, a pobreza e a miséria em que viviam. Mexeu muito comigo porque tenho as histórias da minha família, do meu avô, que foi obrigado, como muitos outros portugueses, a ir para França. A estreia mundial foi no Festival de Moscovo. Em Portugal fizemos umas 20 antestreias em todo o Alentejo. As pessoas sentiam aquilo, choravam. Estive recentemente num festival de cinema em Paris — eu não via o filme já há sete anos — e foi uma nostalgia enorme».
Nascido quase por geração espontânea num meio que lhe era estranho e exigente, Hugo Bentes nunca duvidou do que levou Sérgio Tréfaut a olhar para ele e decidiu aproveitar a oportunidade, desfrutando da viagem: «Fui atirado aos ‘cães’, fui aprendendo em tempo real, conforme ia gravando, e fui muito bem recebido no seio de toda a equipa e do elenco. Aprendi com todos, era muito verdinho quando cheguei. Estamos a falar de atores como Isabel Ruth, Leonor Silveira ou Lia Gama».
Depois veio o prémio de Melhor Ator (2019), a reforçar-lhe a crença: «Fui apelidado pela imprensa como o ‘não-ator’, imagina. ‘Tu chegas aqui e com o primeiro filme ganhas o prémio para melhor ator; a gente anda aqui há um par de anos e não conseguimos ganhar nada’, disseram-me. Quando recebi o prémio Sophia, ao subir ao palco, senti alguns olhares a disparar, mas a grande parte dos atores e atrizes com quem tenho trabalhado, incluindo produtoras, têm consideração por mim e pelo meu trabalho».
Sérgio Tréfaut não hesitou um momento, nem antes nem depois do filme, e Hugo Bentes não esquece o que o realizador lhe disse a dada altura: «O que diz o meu aspeto, a minha fisionomia, é que sou uma pessoa rija, dura, e isso é inevitável porque a vida, os empurrões e as quedas que vamos tendo transformam-nos, criam calo. Nos Globos de Ouro, o Sérgio disse-me que o filme era eu; se não fosse eu a fazê-lo, não tinha alcançado os prémios e o reconhecimento que teve. É bom, e é uma responsabilidade grande transmitir, principalmente aos mais novos, tudo o que aquele filme representa».
Por falar nos mais novos, ele é também um dos nomes mais respeitados na arte de interpretar o cante alentejano. Foi a quinta geração da sua família a integrar o Grupo Etnográfico da Casa do Povo de Serpa e não deixa nunca de cantar, assume. Mas o que acha da realidade do cante? «Existe trabalho bem feito, mas está a acontecer com o cante o mesmo que aconteceu com o fado: outro tipo de letras e novas experiências, novas dinâmicas — no caso do cante — de dois, três, quatro ou cinco indivíduos. E isso passa a ser outra coisa. O cante é cantado com um grupo coral, seja instrumental ou não. Cantado por uma só pessoa, é fado. Tem de se agarrar à raiz para se ensinar, é como construir uma casa. Quando não se percebe a essência, não há nada para ensinar. Aqui em Beja há, felizmente, um grupo coral infantil. Depois, tal como o fado, é preciso tempo. O cante é alma e identidade, não é cristalino e não caiu do céu».
Para um homem de 48 anos, nascido em Serpa, não há lugar a deslumbramentos, defende, e o seu olhar profundo continua a ser uma das suas imagens de marca: «Tenho cerca de 15 filmes feitos. Estão a sair agora três: O Som e a Fúria, O Barqueiro e Projeto Global, que estreia em Portugal no dia 23 de abril. Sempre tive os pés bem assentes na terra, não me convenço com estrelatos. Daí a parte do técnico de som, profissão que amo muito e na qual comecei a trabalhar há 30 anos. Nunca optei, nem opto. Acumulo».
Thriller político passado nos anos 80 e centrado no universo das FP 25 de Abril, Projeto Global é um dos filmes mais aguardados do ano. Hugo Bentes está entusiasmado com o argumento e com o que ele significa para quem se lembra de um período crítico da sociedade portuguesa. Mas quer mais: quer que quem não assistiu aprenda a história e as estórias: «Vai dar que falar, faz parte da história recente do nosso país, uma época de altos e baixos, prós e contras; era importante que os mais novos vissem e percebessem. É realista, verdadeiro, tem — claro — a política, e acho que tem condições para arrecadar alguns prémios. É um projeto e um sonho do realizador Ivo M. Ferreira, megalómano, quase impensável de fazer em Portugal, por causa de tudo o que está ligado à gigantesca produção que exige, mas ele conseguiu. Ainda só vi o trailer; a estreia internacional foi no festival de Amesterdão, no fim de janeiro».
Quando lhe pergunto acerca do futuro, o cinema perde protagonismo para os seus dois filhos: «O Alentejo tem a problemática do esquecimento. Ele não acaba em Évora. O Baixo Alentejo continua estagnado, e isso é um problema político. Quero que os meus filhos cresçam aqui, mas receio que partam. O mais velho tem 22 anos, é militar, e de vez em quando lá começa a cantar com os camaradas no quartel ou nas tertúlias que conseguem fora dele. O mais novo tem 11 anos e também canta; teve a oportunidade de participar comigo, como figurante, no Projeto Global: uma cena gravada no cemitério dos Anjos, em Lisboa, a cantar ‘Fui colher uma romã’, à boca do buraco, no enterro do meu personagem».
Hugo Bentes tem, de facto, a expressão seca e fechada, o olhar penetrante, a quietude misteriosa e uma eloquência incontornável quando fala. Talvez assim se justifique a admiração por uma das suas maiores referências, Clint Eastwood: «Quando o Raiva estreou no Brasil, fui logo apelidado de Clint Eastwood lusitano».












