«A memória do meu pai estará presente em todas as Festas do Povo»

Onze anos depois da última edição, Campo Maior reviveu as Festas do Povo. O presidente da Associação das Festas do Povo, João Manuel Nabeiro, fala da organização, do papel das mulheres e dos jovens, do despovoamento que obriga a contratar mão de obra e da memória do pai, o empresário Rui Nabeiro, falecido em 2023.

Ana Luísa Delgado (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

A rua de Badajoz, em Campo Maior, é o ponto de partida desta conversa: foi ali que a mãe do atual presidente da Associação das Festas do Povo foi, durante anos, cabeça de rua, e foi ali que João Manuel Nabeiro, ainda criança, fez as suas primeiras florinhas de papel. 

Décadas depois, é esse mesmo fio de memória — entre gerações, entre vizinhos, entre o segredo guardado em cada rua até à noite da enramação — que sustenta a resposta a uma pergunta que Campo Maior fez a si própria em 2025: «o povo quer Festas?». O povo quis. As Festas começam a 8 de agosto, com a presença do Presidente da República, António José Seguro.

Qual é a sua primeira memória das Festas do Povo? Recorda-se da rua, das pessoas ou de alguma decoração em particular?

Olhe, recordo-me da minha rua. A minha rua de sempre foi a rua de Badajoz, onde nasci, onde comecei a dar os primeiros passos e onde a minha querida mãe foi quase sempre, durante as festas que se realizaram nessa época que estou a recordar, a cabeça de rua. E, sendo cabeça de rua, ela fazia o modelo das decorações da rua, como compete a todos os cabeças de rua, incentivava os vizinhos a começarem a fazer as suas respetivas subscrições, que seriam sempre semanais… e iam fazendo as decorações. A rua de Badajoz estava muito junto da Torrefação Camelo, nessa mesma fase.

Em que período?

Estou a falar-lhe, possivelmente, de finais dos anos 50, princípios dos anos 60. Lembro-me de um célebre carrossel que foi feito com um motor de uma máquina da Torrefação Camelo, com cavalinhos, girafas e outros objetos, e lá girei.

Quando era criança ou jovem, também participava nas suas preparações? Que tarefas lhe eram conferidas?

Eram-me conferidas as tarefas que normalmente são sempre dadas às crianças, que são muito mais simples do que aquelas que são elaboradas pelos mais velhos, mas lá produzia algumas florinhas, e lá ia ajudando na medida do possível.

O que sente alguém de Campo Maior, quando entra numa rua completamente enramada, sabendo que aquelas flores nasceram das mãos dos seus vizinhos?

Olhe, sente a alma de um povo. A recriação, todos os anos, cada vez que fazem as festas, dessa mesma alma e dessa mesma arte popular, que nasce com os campomaiorenses e que, oxalá, se torne sempre eterna. Eterna e terna, as duas coisas. Porque não há eternidade que não seja vinda do fundo do coração e que mantenha as gerações futuras sempre com esse mesmo espírito de renovar e de ir caminhando com essa tradição no seu coração.

As últimas Festas do Povo realizaram-se em 2015. Em que momento percebeu que Campo Maior estava novamente preparado para fazer as Festas?

Há 11 anos que não se realizavam as festas — obviamente que é muito tempo — e aquela situação muito triste em que toda a gente sofreu, com a pandemia de covid-19, foi também um impeditivo para se retomar esta tradição tão enraizada neste povo. Havia uma frase que em Campo Maior se repetia muito, e essa frase era sobre o meu pai: «se o senhor Rui [Nabeiro, falecido em 2023] cá estivesse, as festas faziam-se». Essa frase, esse sentimento impactou-me muito. E desse impacto nasceu uma ligação com um grupo de amigos das Festas do Povo de Campo Maior, com quem conseguimos, por intermédio das redes sociais, chamar as agentes de Campo Maior, juntámo-nos e fizemos a pergunta: o povo quer Festas? O povo respondeu, num grito do fundo da alma, dizendo que sim, queremos as Festas. E daí, olhe, foi em agosto de 2025 e, neste agosto de 2026, cá temos as nossas queridas Festas do Povo a emergirem de novo.

O que a levou a aceitar ser presidente da Associação das Festas do Povo, numa altura particularmente exigente? Foi uma decisão racional ou sobretudo emocional?

É tudo junto, é tudo junto. Aquilo que me levou a assumir esta posição foi essa decisão de avançarmos de novo para as festas. Esse mesmo grupo de amigos fez uma lista que, dentro dos estatutos da Associação das Festas do Povo, foi a votação, fomos eleitos pelos associados, pelos sócios, e metemos mãos à obra.

Costuma dizer-se que as festas se fazem quando o povo quer. Como se lidera uma organização cuja verdadeira decisão pertence à população?

Lidera-se dentro do definido nos estatutos da associação. Todos sabemos que as Festas do Povo não partem de uma decisão camarária, nem de uma decisão empresarial, ou mesmo de uma decisão turística. Elas são uma manifestação única de uma identidade coletiva, onde uma vila inteira decide unir-se para criar, com as próprias mãos, um dos maiores cenários floridos do mundo.

Qual foi o momento mais difícil desde que assumiu esta responsabilidade? Houve alguma altura em que pensou que as Festas não se realizariam?

Nunca pensámos que estas Festas não se realizassem, porque, logo no primeiro dia, houve uma grande ligação entre todos os membros da associação e surgiu logo a parte da estrutura organizativa das Festas. Posso falar-lhe de situações mais diversas, como toda a parte da criação de grupos de trabalho. Nesses grupos de trabalho fizemos toda a organização do plano logístico, financeiro, cultural, de segurança, do plano de acompanhamento às ruas — que é extremamente importante. E em cada uma destas áreas foram atribuídas aos respetivos membros todas as tarefas, muitos deles já sabiam quais eram, e estivemos sempre com grande vontade de fazer, grande vontade de realizar as Festas e de acolher depois os visitantes que vierem a Campo Maior no período de 8 a 16 de agosto.

Mas houve alguma situação mais difícil desde que assumiu esta responsabilidade, ou não?

O trabalho coletivo não custa. E, como houve um trabalho coletivo em que todos sabíamos quais eram os nossos propósitos, a partir daí foi sempre extremamente fácil a união entre esse grupo de trabalho e a união com as cabeças de rua, para suprir todas as suas necessidades, fornecendo os materiais necessários para a realização das Festas.

Como se coordenam dezenas de ruas, os respetivos cabeças de rua, milhares de voluntários, entidades públicas, patrocinadores, segurança e logística, sem retirar a espontaneidade à festa?

Jamais se poderia retirar a espontaneidade à Festa. Essa coordenação dos membros da Associação das Festas é uma situação perfeitamente natural, e a nossa ligação permitiu superar as dificuldades e realizar as tarefas que íamos perspetivando e executando. Portanto, digamos que a facilidade está logo ali ao virar da esquina, e ficamos, de certeza absoluta, com o contentamento sempre muito elevado em resultado do dever cumprido.

A classificação da Unesco trouxe conhecimento internacional, mas também trouxe responsabilidade. Esse selo da Unesco representa mais orgulho ou mais pressão?

O pedido para essa classificação partiu da Associação das Festas do Povo e contou também com a participação da Câmara de Campo Maior. Ver a candidatura ser aprovada pela Unesco foi, para nós, motivo de orgulho e, obviamente, dá-nos mais responsabilidade na organização das Festas. A classificação como Património Imaterial da Humanidade ocorreu em 2021 e esta será a primeira vez que, orgulhosamente, realizamos as Festas com esse título.

Apesar de novas exigências, ao nível da segurança ou da sustentabilidade, nada disso altera as características principais do evento?

Essas características jamais serão alteradas, porque é o nosso modelo de fazer as Festas do Povo, e esse modelo tem vindo, ao longo de gerações, a sofrer ligeiras mudanças. Isso tem a ver, possivelmente, com a visão de cada cabeça de rua — a elaboração de todo aquele jardim florido, mais elaborado ou menos elaborado, é aquilo que surge de cada rua. Por isso, cada rua é diferente da seguinte, e a vontade da associação foi a de servir todos os cabeças de rua, o que fizemos.

Campo Maior, tal como outras zonas do Alentejo, tem perdido habitantes. Tem uma população mais envelhecida e há ruas com poucos moradores. Como se garante a continuidade da festa nestas circunstâncias?

Olhe, trabalhando muito mais. E, obviamente, temos pessoas assalariadas que suprem as necessidades em cada rua. Essas pessoas assalariadas vão trabalhando também ao longo dos muitos meses necessários para a execução dos trabalhos. Essa ausência de população, e o envelhecimento, acabam por ser compensados com a mão de obra que requisitamos e que se junta a nós.

Isso é uma novidade desta edição?

Não, não. Em 2011 e em 2015 já houve essa necessidade. A contratação de pessoas assalariadas já aconteceu em ocasiões anteriores. São pessoas em situação de desemprego, algumas de populações vizinhas, que também se juntam aqui para ajudar a fazer as Festas.

Os jovens estão verdadeiramente envolvidos, ou ainda é necessário convencê-los de que esta herança também lhes pertence?

Obviamente que, desde o nascimento, sendo campomaiorenses, sendo gente de Campo Maior, todos eles recebem esse testemunho das famílias, dos amigos, de toda uma população que celebra estas grandiosas Festas do Povo de uma maneira única. E, portanto, esse testemunho é passado de geração em geração.

As mulheres sempre tiveram um papel muito decisivo na confeção das flores e na transmissão das técnicas. Acha que esse contributo tem recebido o reconhecimento público que merece?

Acredito bem que sim, porque elas sabem que são um eixo central da realização das Festas. Os homens têm um papel a desempenhar, e as senhoras têm também, que é esse: mãos que têm sempre trabalho, mas mãos que também fazem flores. Os homens têm normalmente outras tarefas, todo o trabalho com o arame, fisicamente mais exigente. Além disso, no dia da enramação, compete-lhes serem os autores da finalização desse trabalho.

O senhor dirige a Delta, um grupo empresarial de dimensão internacional, mas continua profundamente ligado a Campo Maior. Onde termina a responsabilidade do empresário e começa o dever pessoal para com a terra onde nasceu?

Creio que, quando começamos um projeto, ele não é só um projeto da terra para outras localidades — neste nosso caso, foi para o nosso país, começámos a exportar para o país vizinho nos anos 40 e 50 do século passado, e temos feito, creio eu, um trabalho de muita força, muita determinação e muita objetividade em relação ao produto que trabalhamos, o café.

Que ensinamentos de gestão empresarial trouxe para a organização das Festas?

Olhe que as Festas do Povo ensinam-nos também muito, sempre nos ensinaram imenso devido à necessidade de uma organização exigente, como temos neste momento, em todas aquelas áreas de que lhe falei. Nas empresas é exatamente a mesma coisa. Portanto, não é uma aprendizagem que passe só num sentido.

Quando as luzes se apagarem e as flores de papel começarem a desaparecer, o que gostaria que permanecesse na memória de quem participou e de quem visitou Campo Maior nestes dias?

Que a satisfação esteja alta, que haja uma vontade de, dentro dos próximos quatro anos, voltar a fazer outra vez as Festas, e que fique uma mensagem de amor, uma mensagem de carinho e, acima de tudo, uma mensagem de esperança.

Permita-me uma pergunta mais pessoal: é possível viver estas primeiras Festas sem a presença do seu pai, e sem sentir, em cada uma delas, simultaneamente a ausência e o legado dele?

A vida é feita de estarmos e é feita de partirmos. Aquilo que pedimos são as boas memórias. E essas boas memórias, durante todas as Festas do Povo que vivi, são sempre do meu saudoso pai. Ele fazia, ele sorria para as pessoas, dava abraços a quem, efetivamente, se aproximasse dele. Essa memória, de certeza absoluta, vai aparecer durante a realização das próximas Festas e das outras que virão no futuro.

4 Responses

  1. O SENHOR JOÃO NABEIRO ESTÁ DE PARABÉNS, CUMPRIU O SEU DEVER E O SENHOR COMENDADOR RUI NABEIRO ESTÁ MUITO ORGULHO,2030 VOLTAMOS.

  2. ISTO SIM SÃO FESTAS DO POVO. Estão de Parabéns todos os Habitantes e não só do Concelho de Campo Maior. Um Orgulho para Todos os Campomaiorenses e para Todos os Portugueses. BEM HAJAM. UM ABRAÇO FRATERNO a toda a ORGANIZAÇÃO. 16/8/2026.

  3. Sr. João Nabeiro ⚘️
    Trabalhador e amigo .
    Aprendeu e ensinou,
    Com café se faz amigos.
    Vai um Café Delta ☕️?

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