Não é uma questão de ter saudades, chamemos-lhe um banho de realidade distante que hoje seria simplesmente impensável. A televisão, grande e funda, a imagem a preto e branco; o botão rotativo dava o clique para a direita e, pronto, estava ligada. Ligava os cabos, puxava o gravador de cassetes e esperava pelo êxtase do pequeno Timex, que havia de me dar os videojogos a duas cores. Depois veio a ITT, multicolor, e um Spectrum 128K, mas, quando o pai ou a mãe entendiam que já era tempo a mais diante do ecrã, os jogos davam lugar à emissão a dois canais da RTP até ao clímax do hino nacional.
Nesse tempo ainda não havia traumas nem afrontas à liberdade da criança, apenas um amuo mais ou menos espalhafatoso a que o Pipas ou a Béita tratavam de pôr cobro em segundos. Não havia influencers, tik-toks nem redes sociais para nos conectarem ao mundo; tínhamos mesmo de esperar pelo amanhecer e — pasme-se — pediam-se as miúdas em namoro sem lhes pedir o «insta». Dessa forma, muito menos havia o que ouvi esta semana no rádio do carro: nomofobia ou, no português escorreito da Porto Editora, o «receio inexplicável de ficar incontactável por não se ter um telemóvel ou dispositivos semelhantes para contactar».
Pois bem, achando eu que pouca coisa já me surpreende, imagino que seja preciso um psicólogo para as crianças que padecem da dita fobia e, já agora, um psiquiatra para que os pais tenham real noção do que andam por cá a fazer neste mundo triste, em que quase se tem de arrancar das mãos dos gaiatos o oxigénio em forma de smartphone. Com sorte, eles não se enervam nem dão um sopapo à professora na escola.
A falta de interesse pela realidade é colocada no pacote das fake news, ainda que não saibam diferenciar o trigo do joio. O problema desta consequente histeria silenciosa, que nos responsabiliza a todos, alastra ainda mais com o flagelo de comentadores imberbes que, armados de trejeitos «Rogeiros», de tudo falam com aparente propriedade: vão do Farioli ao Irão, do défice à Fanny, com o mesmo ar académico ainda por confirmar. Estão em todos os canais. Só os militares têm cabelos brancos de experiência para falar com acerto, julgo eu, mas esses casos deixam-me uma pergunta inquietante: ainda há majores, tenentes e generais nos quartéis ou estão todos na caixinha mágica com os seus apontadores?
Entre as «narrativas» e o «dizer que», chego à conclusão de que este tempo acaba por ser o do Spectrum que cada um procura no deleite da visibilidade e de um papel pseudoartístico de rede social. Tudo me soa, de facto, a brincadeira, mais ainda quando, nos intervalos da programação, a publicidade é por conta das casas de apostas virtuais. Ainda me lembro de quando uma bebida alcoólica só podia ser anunciada depois das 22h30, por causa do impacto sobre os jovens. Ao que parece, quanto ao jogo online, a televisão é, eufemizando, mais eclética. Ao menos os putos não se embebedam. Fica assim, que eu não me posso rir por causa do cieiro.
Os jovens não querem a televisão, dizem que as notícias são más, a preto e branco como as cores da minha antiga TV; basta-lhes a consagração das tendências da Netflix. E não são eles que estão mal, mas todos nós: pais ou não, mais ou menos desligados, professores e, claro, políticos que andam a tratar da rama para a Europa ver que ensinamos como os finlandeses e que o nosso único Nobel literário não tem lugar na primeira fila. Descansemos, que não é por razões políticas.
Feitas as contas, a sibilina nomofobia começa nos graúdos; talvez os gaiatos andem à procura do seu Timex ou do seu Spectrum para brincarem mais, em vez dos tutoriais e afins, que não os levam mais longe do que ao fim da rua. E assim os iluminados comentadores desta televisão jovem, onde não cabem decanos, avançarão, por certo, com a solução para gaiatos e graúdos — e, já agora, para eles também, não vá alguém arranjar nova fobia para quem não é chamado a estúdio televisivo.
Quanto a mim, só tenho perguntas, cabelos brancos, amor e um Alentejo que me anda a querer roubar o telemóvel. E muito bem.











Uma resposta
Outros tempos, em que os educadores têm que estar presentes e responsáveis, para que responsabilidade seja reconhecida e exercida pelos jovens.
A brincadeira na rua, a bicicleta e não só, é insubstituível para a felicidade física e mental das crianças!!!