Trata-se de uma conferência «sobre o tempo, a reflexão, a linguagem e os diferentes significados do silêncio», refere fonte da organização, enquadrando a conferência numa premissa que enuncia assim: «Há palavras que pedem tempo. E há silêncios que dizem mais do que aquilo que pode ser dito.» É a partir dessa relação «entre a palavra, o silêncio e o tempo» que o autor constrói a sua intervenção.
De acordo com a mesma fonte, o escritor parte «do significado da palavra devagar para os romanos, enquanto modo de vida que se opunha ao negotium, os afazeres apressados». O otium, para os romanos, «não era acídia, preguiça, mas o contrário: um estado deliberadamente lento de reflexão, de pensamento contemplativo».
A reflexão passa ainda pelas irmãs de Lázaro, «que acolheram Jesus na sua casa, e personificam estas duas formas de viver», explica Évora_27. «Se o negotium é o afazer de Marta, então o otium é o de Maria, que Jesus proclama ser o melhor dos dois», sublinha o texto de apresentação da conferência, que distingue as duas atitudes: «Marta expressa as suas preocupações em palavras; Maria permanece em silêncio, mas o seu silêncio não é o da ignorância ou da mansidão.»
Do argumento faz parte a ideia de que o silêncio «pode ser uma arma poderosa e eloquente». A organização recorda a declaração de Wittgenstein — «Sobre o que não podemos falar, devemos permanecer em silêncio» — e indica que pode ser interpretada «de pelo menos duas maneiras: como o uso da linguagem para descrever apenas a experiência empírica, ou como a recusa em usar a linguagem em situações em que uma resposta possa parecer cúmplice, num gesto mudo que rejeita a intimidade de atos atrozes».
A literatura ocupa a última parte da conferência. «A literatura, que prospera no poder das palavras por mais fraco que seja, também pode explorar lentamente o mundo da ausência das palavras», refere o texto, que enumera exemplos: «A literatura revela ao leitor o silêncio da vitimização, como o de Filomela, o silêncio da resistência obstinada, como o de Bartleby, o silêncio do desprezo, como o das Sereias de Kafka.»
De acordo com Évora_27, estas são «apenas algumas das reflexões» que Alberto Manguel trará à Academia do Vagar, programa que decorre até dezembro de 2027, com curadoria de Jacinto Lageira, da Universidade de Paris I – Sorbonne.
A Academia do Vagar tem como objetivo «promover o pensamento crítico e a criação coletiva, colocando o conceito do Vagar no centro de uma nova proposta para a Europa e o mundo».
Além de conferências internacionais, a programação conta com encontros, conversas e workshops «com a participação de filósofos, sociólogos, antropólogos, artistas e outros pensadores que, a partir de diferentes disciplinas, contribuirão para a construção de novas perspetivas sobre o tempo, a cultura, a existência humana e a comunhão com tudo o que nos rodeia». Todas as atividades são de entrada livre.
Nascido em Buenos Aires em 1948, Alberto Manguel publicou ficção e não-ficção, incluindo «Curiosità», sobre as suas leituras de Dante, «Com Borges», «Uma História da Leitura», «A Biblioteca de Noite» e, com Gianni Guadalupi, «O Dicionário de Lugares Imaginários».
Foi distinguido, entre outros, com o Guggenheim, o grau de Comandante da Ordem das Artes e Letras, em França, o Prémio Formentor, o Prémio Alfonso Reyes, o Prémio Gutenberg, o Prémio Nonino e o grau de Oficial da Ordem do Canadá.
É doutor honoris causa pelas universidades de Ottawa e York, no Canadá, de Liège, na Bélgica, de Poitiers, em França, e Anglia Ruskin, em Cambridge, no Reino Unido. Dirigiu a Biblioteca Nacional da Argentina até agosto de 2018 e é atualmente diretor do Espaço Atlântida, Centro de Estudos da História da Leitura, em Lisboa.










