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A Santa Cruz de Fronteira. Uma festividade popular com origem pagã

Sem subsídios, sem que nenhuma instituição (igreja, autarquia...) a organize, todos os anos acontece, em Fronteira, a Festa da Santa Cruz. José Pinheiro* (texto) e Bruno Lino Vassalo (fotografia)

Era assim, há umas gerações atrás: juntavam flores que pediam nas hortas e que colhiam no campo, as mondadeiras. Era tarefa delas. No trabalho, ficavam duas ou três de cada rancho a fazer as “capelas” de flores. As outras continuavam a mondar. Ao fim da tarde do dia 2 de maio, regressavam à vila com as capelas enfiadas numa vara, cujo destino era serem colocadas nos braços da cruz, de onde eram retiradas as que lá tinham ficado um ano inteiro. Acendia-se a fogueira junto ao cruzeiro, cantava-se e dançava-se pela noite fora.

“A ti Maria Rola cantava e tocava adufe”, contaram-me. Havia também comes-e-bebes. As raparigas usavam saia de tecido “gabardine” e aventais bordados; chapéu com penas de pavão e um laço igual ao da capela. Às vezes diziam aos rapazes :“Ai, a gente tem as penas tão ruins para o Dia da Santa Cruz!”. Então eles, mulateiros (os que trabalhavam com as parelhas) ou ganhões (os que trabalhavam com os bois), dormiam nos montes, corriam atrás dos pavões, com risco de serem despedidos, para lhes roubar as penas e agradarem às moças.

Já uns dias antes, como sempre tem acontecido, alguém se encarregara de lavar o mármore dos degraus e caiar os respetivos espelhos, que formam a base do cruzeiro.

As peneiras eram muito usadas porque se amassava o pão em casa. Das peneiras que se iam estragando aproveitavam-se os aros para fazer as capelas, em que a decoração poderia ser rosmaninho, rosas albardeiras e outras flores, laços de papel e “letreiros com quadras”. Mudam-se os tempos e teve que se improvisar as capelas sem os aros das peneiras; e as próprias capelas, não havendo mondadeiras, passaram a fazer-se em casa.

Trata-se muito provavelmente de uma festa de origem pagã, anterior à difusão do cristianismo por estas bandas. Festas de veneração da natureza, da Mãe-Natureza, na tradição das Maias. Compreende-se assim o alheamento da Igreja por esta “santa cruz”. Se interpreto bem, como em muitos outros casos conhecidos, pretendeu-se cristianizar uma festividade já existente.

Parece que os poderes constituídos nunca viram com bons olhos esta festa popular, sobretudo em alguns períodos. Um pretexto surgiu com a edificação do tribunal, no início dos anos 60. A cruz foi então demolida, pois estava precisamente no local previsto para essa construção, mais ou menos onde está o muro do tribunal, do lado da casa dos magistrados. Como me disse uma testemunha desses acontecimentos, Rosa Patrício, “queriam tirar a cruz e já não a queriam pôr”.

Mestre Zacarias, alfaiate, encabeça o sentimento popular e lá se conseguiu a reposição do cruzeiro no Largo de S. Braz, nas proximidades da localização original. É esse mesmo sentimento que ainda hoje mantém acesas as “lumenérias” (luminárias) da noite de 2 para 3 de maio. Por quanto tempo mais? Estamos perante uma festividade relevante e genuinamente popular – doutro modo não teria permanecido ao longo dos tempos.

Assinala Moisés Espírito Santo que “é digna de nota a importância que em Portugal se atribui ao 3 de maio (dia de Santa Cruz), em que têm lugar as Festas das Cruzes”. Refere este autor que a Santa Cruz é titular de muitas paróquias e, inclusive, feriado municipal em muitos concelhos, “caso único na Europa, onde há poucos ou nenhuns vestígios desta festa”. Contudo, segundo Leite de Vasconcelos, “a citada festa das Maias celebra-se em Espanha a 3 de maio, dia da Cruz”.

Francisco Martins Ramos detetou o mesmo tipo de festividade, também em zona raiana: “Porque foi uma tradição que se manteve contra as mudanças galopantes, interessa referir a manutenção de uma ou outra Festa da Santa Cruz (antigamente realizada no dia 3 de maio) que ainda tem lugar no concelho do Alandroal, nomeadamente no ‘país dos sacaios’, área cultural que ainda não foi devidamente investigada sob o ponto de vista antropológico. De facto, está por fazer o percurso genético, social e cultural desta gente, marcada pela singularidade ao nível da tradição oral, da toponímia e onomástica, da endogamia, do estilo de vida, da identidade e da poesia popular”.

A cristianização serve igualmente para caucionar a prática, pois “muitas cerimónias camponesas poderiam de facto cair sob a alçada dos inquisidores”. Mas por vezes o conflito irrompe e a coexistência entre o sistema religioso popular e o sistema católico torna-se impossível. Moisés Espírito Santo narra vários casos, alguns curiosíssimos, que – segundo refere – os aldeões chamam de “greve da religião”. Conduz geralmente à autogestão das práticas religiosas.

Situação com algumas afinidades, embora a participação da Igreja não seja evidente, foi a que se viveu aquando do desmantelamento deste cruzeiro de Fronteira para que se construísse o Palácio da Justiça (tribunal). Com a perspetiva da sua não recolocação ou da deslocalização para “local impróprio”, o conflito verificou-se e gerou movimentações. Conseguiu-se a sua reposição num local próximo do original. Há registo de tentativas de interdição destes ritos pelo menos desde 1385, em que surge essa proibição numa postura da Câmara de Lisboa.

Corresponde naturalmente esta festividade a crenças profundas enraizadas no povo. Isso explica a sua permanência ao longo dos tempos. Francisco Martins Ramos cita o Almanach de Lembranças, de 1862, para recordar que o início de maio era assim comemorado no Alentejo: “‘”Aqui, juntam-se as crianças de ambos os sexos, especialmente do feminino; enfeitam uma rapariguinha mais pequena, vestida de branco, colocavam-lhe flores na cabeça e no peito, assentam-na numa cadeirinha, que colocam sobre uma mesa igualmente ornada e deixam estar ali a pobre pequena toda a tarde, enquanto outras sentadas em redor da mesa cantam e tocam adufes… e andam pedindo para a Maia”.

À Santa Cruz do 3 de maio, e aos rituais que lhe estão associados, costumam atribuir-se várias explicações. Por um lado, o culto da cruz começou no tempo do imperador Constantino (séc. IV), sendo que nos primeiros tempos o cristianismo recorria a outros símbolos (como o peixe).

Indo a mãe do imperador Constantino, Santa Helena, à Terra Santa descobriu que os habitantes da Palestina veneravam “a verdadeira cruz”, ou “vera cruz”, descoberta fundamentada no milagre num paralítico provocado por uma cruz, que estava enterrada com outras cruzes.

Na tradição ortodoxa, conta-se a seguinte versão: Quando foram descobertas nas escavações três cruzes, para distinguir a de Jesus Cristo das dos ladrões, foi colocado o cadáver de um homem e, ao simples contato com o madeiro da “vera cruz”, ele foi milagrosamente ressuscitado. Diz-se também que uma cruz de fogo apareceu ao imperador Constantino no ano de 312 antes da batalha de Ponte Milvius, acompanhada da frase In hoc signo vinces (“Com este sinal vencerás”), fazendo lembrar a aparição de Cristo a Afonso Henriques, tão rebatida por Herculano!

As Maias nalgumas regiões do país, como no Minho, são assinaladas pelas mães se levantarem cedo na noite de 1 de maio para colocarem uma grinalda de flores nos umbrais das portas ou um ramo de giesta nos buracos das portas ou das paredes. Há ainda registos da prática, ancestral, de “matar o burro”, antes de nascer o dia 1 de maio.

Em Fronteira, como noutros locais, a mãe levantava-se cedo, ainda noite, e dava a beber ao pessoal da casa, crianças incluídas, uma “‘”bebida fina”, um licor ou um pouco de aguardente com açúcar, “para não deixar entrar o burro”. Um ritual que seria interessante aprofundar e esclarecer um pouco mais.

* Historiador

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