
Parece que vamos ter mesmo um Campo de Tiro em Alter do Chão, mas que afetará igualmente os concelhos de Monforte e do Crato. Assim o dizem aqueles que fazem parte do movimento cívico, recentemente criado, para o contestar. Entre outras coisas, alega-se que muitas propriedades rurais irão ser afetadas e com isso a criação de animais, particularmente de gado vacum ou ovino.
Dizem ter feito o levantamento que outros não fizeram e, por isso, falam em 7500 hectares onde existirá perturbação, abrangendo entre 50 a 80 explorações, pondo em causa cerca de 200 empregos, como li na edição em linha da nossa revista.
Há quem contraponha que o campo de tiro também trará gente, nomeadamente militares e famílias, numa espécie de compensação. Parece ser grandemente disso que agora se trata. Se algo nos afeta, há muitos que logo pensam no que pode ser feito para compensar. Se se prejudicam espécies arbóreas autóctones, logo se alvitra plantá-las noutro lado. Se há gente que trabalha no campo, outros poderão vir com o campo… de tiro. Seja como for, nunca será a mesma coisa: os do campo de agora estão cá e são desta terra; os do campo que virá, logo se verá se virão ou não, ou se ficarão por cá, como os que já cá estão, ou se se ficam entre o vir e o ir.
Bem sei que a agricultura cedeu lugar à pecuária — tendência que as políticas agrícolas comuns avolumaram — e por isso muitos se queixam da descaracterização que o Alentejo veio sofrendo por essa via. Em grande medida por isso, os campos empregam cada vez menos gente e, paradoxalmente, a grande exploração é cada vez mais familiar.
A pouca agricultura há muito que não se articula, na configuração do espaço rural, com a desproporcionada pecuária. Ora, uma e outra faziam do Alentejo aquilo que era. Agora, cada lado está mesmo para o seu lado, e são mesmo incompatíveis, na maior parte dos casos.
Seja como for, quando vemos e ouvimos certas coisas, o Alentejo parece servir cada vez mais para vazar algo: depois dos intentos serôdios da agricultura superintensiva, com promotores já limitados nessa voragem no seu próprio país, e das centrais fotovoltaicas em qualquer lado, para que outros têm limites e nós não, chega agora a «plantação de balas» de «chumbo grosso», lançadas de avião, suponho eu.
Já quase ninguém se lembra de outras referências que as diatribes de um Estado Novo também ajudaram a desbaratar, com a famigerada Campanha do Trigo, mas correndo o risco de mais uma vez me apelidarem de ecológico-romântico, gostava de recordar, como o fizeram muitos, da história à etnografia, que o Alentejo ainda é terra de semeadura, algo que modelou em muito a sua paisagem. E que, se temos bastante que ainda nos identifica, é o montado.
Não só lavrar, semear e colher garantia o equilíbrio da nossa ecologia, como serviu de tampão para processos de desertificação que, se não fora ele, em breve atingiria Lisboa, como muito bem invocava Eugénio Sequeira da Liga para a Proteção da Natureza.










