
No início do ano formulei o desejo de que este ano fosse de combate ao negacionismo. Negacionismo que se desdobra noutros, uns mais e outros menos atrevidos, mas todos eles capazes de mexer nas nossas vidas, pelas atitudes que gera, nos comportamentos em que se concretiza, nas relações sociais em que interfere. A este respeito há um estudo, exatamente em Espanha, que conclui claramente pelo modo como um desses negacionismos afeta as relações sociais mais genericamente, assim como no trabalho e na família.
Reporta-se ao negacionismo político, que ouso assim denominar, depois de o ter feito a propósito das vacinas e das alterações climáticas, dado que tudo se interliga, na desinformação, distorção e manipulação dos factos.
Negacionismo político que basicamente desdiz, para descrer, a democracia, sob invocações repetidas, de uma total liberdade de expressão, que supostamente a democracia vigente censurou. Mas usam-na para aceder ao poder apresentando-se como figuras messiânicas e propósitos salvíficos.
Como propapalam, dado que o tempo maior de democracia que já levamos de nada valeu. Daí se resvala, mais ou menos explicitamente, para a exaltação do tempo anterior, endeusando quem conduziu esse tempo, num caso numa forma tripla politeísta. Havia quem negasse mais a política, no tempo em que até se receava que as paredes tivessem ouvidos?
O argumentário tenta não ser tão simplista ou centrado num único fator, acenando com o papão dos imigrantes e da perigosidade social das minorias étnicas, mas continua especialmente centrado na corrupção.
Dantes, não havia e então é que era bom e então é que se vivia com honestidade. Pacheco Pereira já evocou à exaustão, e repetidamente, como a censura – essa, sim, existindo nesse tempo, institucionalmente estabelecida e enraizada na vida social – impedia implacavelmente que algo transparecesse do monte de mentiras que nesse plano campeava, para iludir e manipular o Zé Povinho. Povo que tem memória desse tempo e que o pode testemunhar e sobre ele depor.
Ora, um dos âmbitos onde a democracia se fez efetiva e trouxe benefícios ao povo é justamente o Poder Local democrático, ao longo dos 50 anos que se estão agora a comemorar. Como membro da Assembleia Municipal de Marvão saúdo a proposta para que durante este ano se comemorem os 50 anos do poder autárquico democrático através da Assembleia Jovem e da Assembleia Sénior de que faço parte. Visa-se, assim, envolver os mais novos e os mais velhos numa discussão participada de formação para a cidadania, precisamente para combater a desinformação e os populismos.
Aí sugeri também que fossem os mais velhos a falar aos mais novos do tempo sem democracia que viveram, por comparação com o que entretanto se viveu com ela. Passos que a Alemanha, depois da Finlândia, acaba de dar, para levar logo aos Jardins de Infância o combate à desinformação. Lembrei-me também do alentejano Fialho de Almeida que em plena I República reclamava para as primeiras etapas educativas os primeiros passos para a formação de uma opinião pública esclarecida e vigilante dos poderes instituídos.












