Abílio Amiguinho: «Quando o país real resiste ao abandono»

Há dias, ouvi alguém desabafar que um país com pouco mais de 200 quilómetros de largura não deveria ter litoral e interior. Verdadeiramente, as distâncias são quase irrisórias e, aparentemente, seria fácil percorrê-las e estender eventuais vantagens a todo ele.

Abílio Amiguinho, professor jubilado do Ensino Superior (texto)

Ao que parece, esse terá sido o propósito confesso dos que pugnaram pelo chamado modelo de desenvolvimento a partir de polos, capazes de o irradiar primeiro às regiões limítrofes e, progressivamente, dizia-se, a todo o território. Tem muitas décadas esta crença e não deixou de o ser, apesar de, no tempo da sua defesa mais convicta, já estar à vista o que poderia suceder, mesmo com tímidas políticas públicas que aparentavam já tomar esse modelo como bom, ainda que intuitivamente.

Tenham-se como exemplos, há mais de meio século, quando se pensou que o país tinha de se industrializar com grandes concentrações fabris ou, daí até cá, à volta das zonas industriais das cidades de média importância.
O que se assistiu em consequência está mais do que à vista, a olho nu, e abundantemente documentado. E é assim que permanentemente se propala a necessidade da coesão territorial para, supostamente, dar voz e vida ao chamado interior. Donde a repetida jura de que desta é que se vai fazer pelo interior.

As palavras valem o que valem, mas, em vez de interior, prefiro reportar-me às regiões de baixa densidade. E, assim, deixo para trás a designação interior, com toda a carga negativa que acarreta, que de tão badalada se banalizou, escondendo sem esclarecer e, como tal, parecendo resolver o que jamais se resolverá apenas falando. Mais positivamente, prefiro o conceito à palavra.

A baixa densidade territorial, demográfica e social, basicamente assim tripla — mas que pode elucidar mais — pode também infletir-se. Com os que tenazmente ficaram e não deixaram de acreditar, sem sucumbir, sentindo, embora também, o duro e mesmo penoso, como os que partiram, mas que permaneceram e se tornaram resilientes.

Há dias, nas minhas deambulações aqui pela Serra de São Mamede, encontrei um rapaz da minha idade, também com 70 anos, que, em tom quase de arrelia, contrariava o abandono dos seus montarecos, mais do Montinho, do outro lado da ribeira de Arronches. E concretizou: não só não sai gente, como retorna quem daqui saiu, e ainda há mais nacionais ou estrangeiros que chegam para residir. Acrescentou: quem é que consegue viver com as rendas e o custo da habitação nas cidades, das maiores às mais pequenas? Assim, simplesmente.

Como também venho constatando, já não é só o ar puro e a dita qualidade de vida que atraem no que antes repelia. Mas, principalmente, quando as políticas públicas, mesmo poucas, dão em quase nada, o povo faz por si. Cada um ou família à vez, mas também em espírito de comunidade. E assim se produz já quase 20% do que se consome, sustentavelmente.

Procuro não perder dois programas que a RTP1 tem vindo a emitir: Entre a Terra e o Mar e Os Repovoadores, mais recente. Não sei se o meu interlocutor na serra os vê, mas dão-lhe razão, num verdadeiro serviço público a que se devia estar mais atento.

Fotografia: D.R.

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