Abílio Amiguinho: “Turismo e herança cultural”

A opinião de Abílio Amiguinho, professor jubilado do ensino superior.

Decorreu recentemente um congresso internacional promovido pela Escola Superior de Educação e Ciências Sociais – Politécnico de Portalegre sobre turismo criativo. Não sendo um tema recente, vem já do início do século para fazer valer a ideia de que o turismo de massas carece de alternativas. Em particular, por isso mesmo. Enche todos os lugares, mas mexe muito pouco com as comunidades que se visitam ainda que traga proveitos económicos pelo dinheiro que os turistas cá deixam. Alguns dirão ou irão retorquir: mas não é isso que se pretende?

Não apenas, diriam os entendidos nesta temática, pois falta um elemento fundamental – ou seja, o envolvimento e a participação das pessoas e das comunidades visitadas. Exatamente porque não as convocam não há interlocução e, aos locais, apenas se pede para se deixarem visitar. Ou mostrem o que os turistas querem ver.

De facto, o turismo criativo remete para herança cultural, modos de vida, usos e costumes dos visitados, por eles dados a conhecer, promovendo por essa via a experiência e a criação de quem visita, nomeadamente em modos de fazer característicos dos locais que se visitam, seja na confeção de cestaria, na olaria, nos bordados ou na gastronomia, entre muitas outras possibilidades. Dito de outra forma, tomando contacto ou partilhando a herança cultural, quer material, quer imaterial das comunidades.

Defende-se que é deste modo que o turismo pode reabilitar a identidade e a memória coletiva dos povos, o empoderamento das pessoas, o orgulho e a estima naquilo que é seu. Garantir-se-ia, por outro lado, a sustentabilidade ambiental e social das comunidades visitadas, ‘turistando’, ao mesmo tempo para reconhecer o património ambiental e assim o ajudar a preservar.

Foi para exemplificar os recursos que na região podem ser apoio para projetos turísticos com esta grande finalidade que participei no evento, a convite dos organizadores. Aludi a modalidades de intervenção que deem protagonismo aos mais velhos, como portadores de uma cultura, e às crianças, para que a escriturem e ajudem a preservar, ao tomar dela consciência.

Há também aqui um propósito educativo e social que ajude os próprios e quem nos visita. Por exemplo, desconstruindo uma visão idílica e idealizada da ruralidade e das pessoas que a fizeram e suportaram em tempos ainda recentes, mais dada a muitas necessidades, sofrimento resiliente e bem menos ao desfrute. Sucede com determinadas formas de turismo rural, sem desvalorizar o que se tem feito.

Significaria inserir esta finalidade de fruição turística num processo mais abrangente de inovação social que visa, em grande medida, a participação social dos mais velhos para que prossigam, dando sentido às suas vidas, esclarecendo e enriquecendo as nossas, com os seus saberes e competências sobre o que é e onde paira a nossa identidade. É que, como dizia um dos conferencistas, Fábio Carbone, de seu nome, reabilitar turisticamente a herança cultural de um povo pelo turismo comunitário, como alternativa, é uma questão de esperança e de dignidade, não de nostalgia.

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