Cerca de 50 agricultores do concelho de Serpa protestaram hoje contra as «condições impraticáveis» do setor, devido ao elevado preço dos combustíveis.
«É uma coisa alarmante, é impossível trabalhar nos campos, o custo de produção é superelevado», argumenta Bruno Jacob, que tem cerca de 600 hectares agrícolas neste concelho alentejano, onde semeia cereais como trigo e aveia.
O agricultor, que tem igualmente gado — possui mil ovelhas, 400 cabras e 300 vacas —, afiança que, perante o atual preço dos combustíveis e dos fatores de produção, está a equacionar reduzir a área de cultivo, explicando: «Este ano, estou a pensar fazer, se calhar, 25 a 30% da área que costumo fazer, porque é impossível conseguir levar estes preços até ao final da campanha.»
Também o agricultor António Morgado, que detém perto de 600 hectares agrícolas, uma parte com olival, avisa que «estes aumentos sucessivos» do preço dos combustíveis e dos fatores de produção estão «a jogar à falência o pessoal».
Este ano, alerta, «vai ficar com certeza muita azeitona por apanhar», porque não compensa face ao atual preço do azeite: «O azeite subiu hoje para 3,38 euros», um preço que «não vai dar nem 50 cêntimos o quilo» de azeitona, pelo que, com as prestações de serviço «a 30 e a 35 euros, é melhor deixá-la lá», na árvore.
Estes foram alguns dos lamentos dos agricultores da Aproserpa – Associação de Produtores do Concelho de Serpa, que se reuniram de manhã numa herdade perto de Vila Nova de São Bento, em protesto contra o preço dos combustíveis, sobretudo do gasóleo agrícola, que está acima de 1,80 euros por litro.
A agricultura no concelho enfrenta, atualmente, «condições impraticáveis, especialmente a de sequeiro», diz aos jornalistas o presidente da Aproserpa, João Revez, durante a concentração no campo, rodeado por quase 30 tratores. Os apoios do Governo «são insuficientes», afiança o dirigente, explicando que, «neste momento, é completamente impossível» aos agricultores avançarem «para as sementeiras de outono/inverno».
«Já sabemos que vamos trabalhar com prejuízo», porque, mesmo que as condições climatéricas ajudem e «o ano venha a favor», não vão «conseguir refletir [o aumento dos custos de produção] na venda dos produtos no final do ano», assegura.
Em relação ao preço dos combustíveis, João Revez ilustra que, por dia, com o uso de dois tratores para preparar as terras, um agricultor gasta 320 litros de gasóleo em oito horas de trabalho: «Agora multiplique isso por uma semana», desafia.
Os apoios que o Governo já anunciou para os agricultores traduzem-se num acumulado de 36 euros para cada um, acrescenta, sublinhando que «esses 36 euros não dão para comprar 20 litros de gasóleo, que é o que uma máquina de potência média, com 100 cavalos, gasta numa hora de trabalho pesado. Se tivermos duas máquinas dessas a trabalhar num hectare, chegamos ao fim do dia e gastamos» o mesmo que «um carro a gasóleo pode gastar para percorrer 6 mil quilómetros». Além disso, «tudo encareceu», refere, aludindo aos adubos, fertilizantes ou ferragens, entre outros fatores de produção.
A Aproserpa, que quer a descida do preço do gasóleo agrícola, reclama a deslocação ao terreno do ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, para falar com os agricultores e ver «a tragédia» que enfrentam, caso contrário os «homens da terra» ameaçam avançar com outras formas de luta.
Texto: Alentejo Ilustrado/Lusa
Fotografia: protesto dos agricultores em Serpa. © Nuno Veiga/Lusa










