Em três décadas, a produtividade do trabalho agrícola em Portugal aumentou 277%. Os salários cresceram mais de 50% na última década, acima da média da economia nacional. O complexo agroflorestal gerou, em 2023, 9,4 mil milhões de euros de Valor Acrescentado Bruto — 5,1% do PIB —, assegurou 456 mil postos de trabalho e exportações de 15,2 mil milhões de euros, equivalentes a cerca de 12% das exportações nacionais. Os números são inequívocos: a agricultura portuguesa transformou-se.
Mas por detrás deste desempenho acumula-se uma pressão silenciosa. A idade média da mão-de-obra familiar agrícola passou de 46 para 59 anos em cerca de 30 anos. O número de trabalhadores familiares caiu mais de 50%. Na União Europeia, apenas 12% dos gestores agrícolas têm menos de 40 anos.
«Durante décadas, a agricultura portuguesa resolveu o desafio da produtividade. Hoje, o desafio é outro: garantir quem vai liderar, investir e produzir no futuro. O maior risco para o setor deixou de ser tecnológico ou económico e passou a ser humano», afirma Pedro Santos, diretor-geral da Consulai, consultora especializada em negócios agrícolas, com sede em Beja.
Para este responsável, «a renovação geracional é uma condição essencial para a competitividade da agricultura portuguesa e para a capacidade de o país responder aos desafios alimentares, ambientais e territoriais das próximas décadas».
Os dados sobre a nova geração são, ainda assim, encorajadores. Entre 2007 e 2022, instalaram-se em Portugal 10.513 jovens agricultores, responsáveis por mais de 1,5 mil milhões de euros de investimento e pela gestão de mais de 252 mil hectares de superfície agrícola.
A idade média destes novos agricultores é de 33 anos, a maioria possui formação superior ou técnico-profissional especializada, e o perfil é marcadamente mais empreendedor e aberto à inovação do que nas gerações anteriores. Ainda assim, quase um terço iniciou atividade sem experiência prévia no setor.
Os obstáculos permanecem essencialmente estruturais: acesso à terra, financiamento, escala económica das explorações e integração em mercados organizados.
«A experiência mostra que o sucesso da renovação geracional depende menos da motivação dos jovens e mais da capacidade de criar condições para que os seus projetos sejam sustentáveis e competitivos», sublinha Pedro Santos, acrescentando que «existe ainda um desfasamento significativo entre a perceção pública e a realidade do setor», e que «atrair talento exige mostrar que estamos perante um setor com futuro, capacidade de inovação e oportunidades de carreira qualificadas».
A dimensão do problema ultrapassa o setor. Rui Almeida, diretor da Consulai, é direto na avaliação: «Quando falamos de renovação geracional estamos a falar da capacidade de Portugal assegurar produção alimentar, criar emprego, valorizar os territórios rurais e manter uma economia mais resiliente. O desafio é nacional e exige uma visão de longo prazo.»
É precisamente para construir essa visão que a empresa organiza o B-Rural Summit, marcado para o dia 23 de junho, a partir das 14h00, no Hotel Hyatt Regency Lisboa. Sob o mote «Do Exemplo à Ação», o encontro pretende ir além do diagnóstico e centrar-se em soluções concretas, reunindo líderes empresariais, jovens empreendedores, especialistas em inovação e agentes de mudança.
A estrutura do programa organiza-se em torno de três eixos temáticos — «Novas Gerações, Novas Ideias: Casos que Inspiram», «Da Inspiração à Transformação» e «Construir Pontes Entre Gerações» —, procurando demonstrar que o futuro do setor «dependerá não apenas de tecnologia, investimento ou produtividade, mas sobretudo da capacidade de atrair, desenvolver e reter uma nova geração de líderes, gestores e empreendedores».
Segundo Rui Almeida, «Portugal dispõe de um setor moderno, dinâmico e competitivo» e «o próximo passo passa por garantir a renovação geracional e reforçar a ligação entre o mundo rural e urbano». «O B-Rural nasce precisamente para construir essa ponte», conclui.










