O júri “decidiu atribuir, por unanimidade, o Prémio José Afonso 2026 ao álbum ‘Mulheres de Abril’, de Cristina Branco”, afirma a Câmara da Amadora, entidade organizadora.
Presidido pelo compositor Sérgio Azevedo, em representação da autarquia, o júri integrou também o compositor Pedro Teixeira da Silva, em representação do Teatro Nacional de São Carlos, e Emmy Curl, vencedora, no ano passado, deste galardão.
“Mulheres de Abril” e “O Rapaz da Montanha”, de Rodrigo Leão, foram os álbuns finalistas. Segundo o júri, “a recriação da artista dos temas de José Afonso resultou numa homenagem ímpar, que não só não desvirtua os originais como lhes imprime uma camada de originalidade e frescura que transporta José Afonso para os dias de hoje de forma exemplar”.
Ainda de acordo com os jurados, “quase 40 anos após a morte de José Afonso, esta é uma das provas mais evidentes de como a sua música e exemplo continuam a inspirar as novas gerações de artistas, vindos das mais variadas áreas musicais e adeptos das mais diversas correntes estéticas”.
Em outubro do ano passado, em entrevista, a propósito deste álbum, Cristina Branco afirmou que gravar canções de José Afonso (1929-1987) “é quase um dever cívico”, tendo escolhido “temas fraturantes com mulheres dentro”. E acrescentou: “Não sendo eu compositora, nem autora de letras, senti necessidade de dizer que alguma coisa está mal” nos tempos que correm.
A prioridade foi a necessidade de “civicamente dizer alguma coisa”: “E eu faço-o através da música do Zeca [Afonso]. De alguma forma, é a minha voz”, garantiu a cantora.
O álbum “Mulheres de Abril” é constituído por oito canções, todas compostas por José Afonso, seis delas também com letras da sua autoria e duas sobre poemas de Luís de Camões (1524-1580), “Endechas a Bárbara Escrava” e “Verdes São os Campos”, que a cantora já tinha gravado no seu primeiro álbum, “Cristina Branco in Holland” (1997).
Do alinhamento fazem igualmente parte “Canção do Desterro”, “Mulher da Erva”, “Teresa Torga”, “Verdade e Mentira”, “Canção da Paciência” e “De Não Saber o que me Espera”.
A cantora sublinhou, nessa entrevista, o “preocupante estado atual da nação” e o dever de o artista alertar para esses problemas. “Se temos uma voz, um palco, um público, por que não? Aliás, seria quase estranho não o fazer, digo eu. Acho que esse é o papel da cultura, o papel do músico”, argumentou.
“Mulheres, por favor acordem”, exortou a cantora, referindo que “há um acordar”, nomeadamente entre as gerações mais novas, e citando a sua filha: “Já são mulheres muito mais capazes de dizer não e de ter uma voz ativa”, afirmou, reconhecendo que a sua geração “ainda pensa como a dos [seus] pais”.
Texto: Alentejo Ilustrado/Lusa | Fotografia: D.R.












