Aldo Passarinho – Uma nova liderança para “travar a degradação” do IPBeja

Doutorado em Artes e Educação pela Universidade de Barcelona e professor no Instituto Politécnico de Beja (IPBeja) desde 1997, Aldo Passarinho é candidato à presidência da instituição, a quem promete devolver o protagonismo perdido. Critica a atual liderança por “falta de estratégia” e “conflitualidade interna” e defende uma presidência dialogante, ligada à região e centrada na valorização da comunidade académica. Francisca Lapa (entrevista)

Porque decidiu candidatar-se a presidente do IPBeja?

Decidi candidatar-me a presidente do IPBeja por diversas razões, relacionadas tanto com a minha trajetória profissional como pela visão para o futuro da instituição partilhada com colegas. Conheço o Instituto como docente desde 1997. Ao longo dos anos acumulei responsabilidades como dirigente na área da imagem e comunicação. Uma área que nos obriga a ter uma visão global e profunda da organização e das suas dinâmicas de relação, tanto no contexto interno como externo. Motiva-me a oportunidade de poder vir a implementar projetos inovadores e de fortalecer a ligação do IPBeja à comunidade. Move-me a vontade de promover melhorias organizacionais e nas infraestruturas académicas e de investigação, tal como no reforço do bem-estar da comunidade académica e no incentivo à dinamização de atividades de extensão cultural, entrelaçadas com a matriz identitária da região.

Qual o papel que uma instituição de ensino superior deve ter no desenvolvimento de regiões como o Baixo Alentejo?

O IPBeja deve desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento do Baixo Alentejo, não apenas como uma instituição de ensino superior focada na educação e formação, mas também como catalisador da transformação social e económica baseada na investigação e transferência de conhecimento. Deve ser um pilar essencial para o crescimento e a modernização do território, por exemplo na promoção da inovação e da transferência de tecnologia em áreas como as tecnologias da informação ou no domínio da gestão agrícola sustentável; até no desenvolvimento da economia regional através da criação de um ambiente propício ao empreendedorismo e à fixação de empresas, na promoção da cultura e da identidade local, através de projetos culturais de valorização das tradições do Baixo Alentejo, entre muitas outras áreas.

Um agente ativo no território?

O IPBeja deve ser um ator pró-ativo e “com voz sempre presente” em defesa dos interesses do Baixo Alentejo, num trabalho conjunto com a comunidade, em defesa de melhores acessibilidades, no aproveitamento social e económico de infraestruturas como o Aeroporto de Beja, na defesa de valores patrimoniais, culturais e de sustentabilidade ambiental e paisagística.

Acha que o IPBeja cumpriu essa missão no mandato da atual presidência?

Ao nível da sua missão enquanto instituição de ensino superior “concentrada em formações vocacionais e em formações técnicas avançadas”, eu diria que sim! Com o esforço de professores, dos estudantes, do pessoal técnico que assegura diariamente o funcionamento do Instituto, continuámos a oferecer uma formação de qualidade. Contudo, no mandato da atual presidência atravessámos graves problemas de governança. A gestão interna do Instituto foi um fator crucial. As dificuldades de liderança e gestão administrativa afetaram diretamente a execução da nossa missão. A falta de uma estratégia clara, aliada a problemas da gestão e administração, levou a uma falta de coesão e a uma gestão ineficaz de recursos humanos, associada a uma certa conflitualidade, que prejudicou o desenvolvimento da instituição.

Que impactos resultaram daí?

Na minha opinião, os problemas de gestão interna impactaram a nossa capacidade de ligação à sociedade e de difusão e transferência de conhecimento, bem como a valorização económica desse conhecimento. Isto faz parte da nossa missão institucional! E, neste período, não fomos capazes de posicionar o Instituto, no seu todo… e reforço, “no seu todo”, como uma instituição ao serviço da sociedade. Salvaguardo, com grande reconhecimento, que muitos professores-investigadores acabaram por fazer essa ligação, fruto de um grande esforço individual.

Fica por vezes a sensação do IPBeja estar de costas viradas para a região, e vice-versa…

Olhe, na sequência da resposta anterior, não posso deixar de referir que, neste período, cerca de duas dezenas de técnicos, muitos da- queles que ajudaram a fundar o Instituto como o conhecemos, deixaram a instituição. Assistimos ao delapidar do conhecimento e da cultura institucional associada à ausência da preocupação em criar um ambiente de desenvolvimento pessoal e profissional promotor do bem-estar, da colaboração e da participação em atividades de ligação à sociedade. Da mesma forma, por opções de gestão suscetíveis de critica e em desconformidade com os pareceres dos órgãos estatutários, não promovemos concursos internacionais para docentes/investigadores das diferentes áreas do Instituto terem a oportunidade de integrar o quadro do pessoal docente. Estamos a falar de colegas que garantem necessidades permanentes identificadas há vários anos, e que continuam numa situação de precariedade sem a possibilidade de se perspetivarem em termos de carreira. Como pedir a estes colegas disponibilidade para atividades de extensão ou ligação à comunidade? Não obstante, muitos fazem-no com esforço individual. A esta realidade acresce o facto de que, entre os que se reformam e os que optam por outras instituições de ensino superior em busca de maior estabilidade e de melhores condições para a progressão na carreira docente, a carência de docentes de carreira atinge níveis preocupantes, com impacto significativo na avaliação internacional dos ciclos de estudo.

Partilha então essa opinião?

Partilho da opinião que podemos fazer mais e melhor! Tenho de salvaguardar e reforçar a ideia de que em várias áreas do saber do Ins- tituto, tanto ao nível da formação como da inves- tigação e transferência do conhecimento existe uma relação forte com a comunidade. Uma relação fruto das atuais áreas de educação e formação existentes no Instituto – muito associadas aos cursos que temos em funcionamento. O que eu penso que há a fazer? Penso que é necessário termos uma presidência que saiba congregar esforços, fomentar o diálogo e conduzir um processo que coloque os nossos órgãos em contacto com o tecido social, económico e cultural da região. Reforçar os nossos órgãos e as nossas estruturas internas e dar-lhes apoio para fazerem esse trabalho. A presidência deve concentrar-se em garantir as condições Institucionais para que os seus diferentes órgãos, como as escolas, os departamentos (com as suas áreas do conhecimento) e as suas unidades de gestão de centros de investigação (com os seus laboratórios e capacidade científica), possam fazer o seu trabalho de relação com a comunidade.

Quais as prioridades para os próximos anos?

Neste momento ainda me é difícil definir as prioridades para os próximos anos, em resultado do desconhecimento da atual situação financeira do Instituto. E digo isto com uma grande preocupação! De acordo com o n.º 2 do Artigo 16.º – Controlo Financeiro dos Estatutos do IPBeja, devem realizar-se “auditorias externas de dois em dois anos, devendo uma reportar-se à primeira metade do mandato do Presidente e a seguinte preceder em três meses o final do mandato correspondente”. Ora, neste momento não tivemos ainda acesso ao resultado da auditoria externa referente aos primeiros dois anos do mandato. Naturalmente a situação financeira ondicionará as prioridades.

Ainda assim?

Há dossiês aos quais daremos atenção desde a primeira hora, tais como a garantia da renovação da acreditação institucional por parte da A3ES, a valorização das pessoas e a auscultação dos técnicos acerca das condições de funcionamento dos serviços, a identificação de necessidade de manutenção e reabilitação dos edifícios das escolas e das residências; o apoio social aos estudantes e o acompanhamento das possíveis alterações aos apoios sociais, que acreditamos serem no sentido do reforço dos apoios ou a consolidação e a valorização das unidades orgânicas de apoio à formação, integrando e melhorando o suporte a estruturas existentes no Instituo de apoio às atividades agrícolas, que desde a criação da formação agrícola na região se encontram ao serviço do instituto e da região. Mas também estaremos apostados no desenvolvimento das unidades de investigação, com polos de gestão, sediados no IPBeja, criando assim condições mais robustas para o desenvolvimento da investigação que se faz no Instituto, com condições para contratar/manter recursos humanos altamente qualificados e criar e desenvolver pro- gramas de doutoramento no IPBeja e de projetos internacionais integrados em redes cientificas.

Os últimos anos têm sido marcados por grande conflitualidade interna. Como tem acompanhado os diversos casos, e o que é que isso traduz?

É verdade, não podemos escamotear essa questão. Eu próprio pedi exoneração, como pró-presidente para a imagem e comunicação, em março de 2024, por não me rever no modelo de liderança da atual presidente. Fui o 11.º dirigente a fazê-lo, de um total dos 14 que tomámos posse com esta presidente. A liderança de uma instituição de Educação Superior como o IPBeja deve pugnar-se pelo respeito pelos normativos legais, plasmados no quadro jurídico e estatutário que suporta a nossa autonomia. Estou a falar do respeito pelos órgãos estatutários, pelas suas competências e pelas pessoas que os compõem. Só assim nos é possível garantir a legitimidade democrática das decisões e evitar situações de conflitualidade. E, quando refiro a necessidade de respeito pelas competências dos órgãos estatutários, de forma a garantir a legitimidade democrática das decisões, isto é, à defesa do interesse geral contra interesses individuais.

E isso não sucedeu?

Transversal a várias situações de conflito, esteve sempre presente essa tensão ou até mesmo o que considero um desvalorizar das competências dos órgãos. Poderia referir vários exemplos de como os pareceres dos departamentos ou das escolas foram ignorados, quando propuseram abertura de concursos para professores ou adequação de professores às coordenações de cursos, respetivamente. Mas vou circunscrever-me aos últimos exemplos que implicam o Conselho Geral e que diretamente e de forma transversal estão associados a essa conflitualidade. De acordo com o Artigo 26.º – Competências do Conselho Geral, entre outras coisas, compete a este órgão “apreciar os actos do Presidente e do Conselho de Gestão” e “propor iniciativas que considere necessárias ao bom funcionamento do Instituto”. Da mesma forma, compete ao Conselho Geral, sob proposta da presidente “aprovar a proposta de orçamento” e “aprovar as contas anuais consolidadas, acompanhadas do parecer do fiscal único”.

Ou seja?

Com base na informação de que dispomos, encontramo-nos perante uma situação em que a presidente, tendo participado numa reunião deste órgão, já com a sua atual constituição, na qual foram aprovados documentos fundamentais tais como a fixação das propinas e a adesão ao consórcio da Universidade Europeia, colocou em causa a plenitude de funções do órgão sendo que por esse motivo se recusou a responder a um conjunto de questões que lhe foram dirigidas, precisamente sobre a situação atual do Instituto.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Partilhar artigo:

ASSINE AQUI A SUA REVISTA

Opinião

CARLOS LEITÃO
Crónicas

BRUNO HORTA SOARES
É p'ra hoje ou p'ra amanhã

Caro? O azeite?

PUBLICIDADE

© 2026 Alentejo Ilustrado. Todos os direitos reservados.

Desenvolvido por WebTech.

Assinar revista

Apoie o jornalismo independente. Assine a Alentejo Ilustrado durante um ano, por 30,00 euros (IVA e portes incluídos)

Pesquisar artigo

Procurar