Alentejo ganha população e ultrapassa barreira dos 500 mil habitantes

Entre 2021 e 2025 a população do Alentejo cresceu cerca de 7,5%, invertendo décadas de despovoamento e envelhecimento, muito à custa da chegada de imigrantes — que no mesmo período duplicaram no território, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. O fenómeno fez também com que Odemira ultrapassasse Beja como concelho mais populoso do distrito, e o segundo com mais habitantes em todo o Alentejo, um efeito diretamente ligado ao peso da população estrangeira, que ali representa já 52% dos residentes.

Aníbal Fernandes (texto)

Longe vai o tempo em que Portugal era a origem de um processo migratório com destino à Europa, mas também, ainda antes, ao Brasil e à América do Norte. Apesar da emigração dos portugueses mais jovens continuar a ser uma realidade, o paradigma mudou nas últimas décadas, registando-se mais entradas do que saídas do território nacional e, particularmente, no Alentejo.

Entre 2021 e 2025 a população total do Alentejo cresceu cerca de 7,5%, de 485.647 para 524.386 habitantes, muito à custa da chegada de estrangeiros, já que entre os residentes se registou uma quebra de 1,7%, de 450.612 para 443.077, revelou recentemente o Instituto Nacional de Estatística (INE). As comunidades imigrantes duplicaram a sua presença no território, passando de 35.035 pessoas para 71.309.

No entanto, o aumento da população não foi igual em toda a região: enquanto no Alto Alentejo a subida foi de apenas 1,9%, no Alentejo Central foi de 3,7% e no Baixo Alentejo de 5,8%. No Alentejo Litoral esta percentagem sobe para 11,5%. 

Também nos cinco concelhos banhados pelo Atlântico as subidas são díspares, variando entre os 3,4%, em Alcácer do Sal, e os 18% em Odemira. Pelo meio aparecem Sines, com um crescimento assinalável (11,3%), Grândola (9,9%) e Santiago do Cacém (6,3%).

Já no distrito de Beja há a assinalar o facto de a capital — apesar de uma subida populacional entre 2021 e 2025 (passou de 35.465 residentes para 39.627) — ter deixado de ser o concelho mais populoso, lugar agora ocupado por Odemira, com 44.043 habitantes, e que contabilizava «apenas» 36.157 em 2021.

Para isso contribuiu o facto de a imigração ter crescido exponencialmente naquele concelho do Litoral ao longo dos cinco anos avaliados pelo INE. Em termos absolutos, em Odemira foram recenseados mais 8.121 pessoas, num total de 22.915, o que significa que, ainda que ligeiramente, os residentes estrangeiros são, neste momento, a maioria da população residente. 

Em Beja o aumento de imigrantes foi cerca de metade, sendo o saldo positivo de 4.486 para um total de 7.447 estrangeiros recenseados na capital do distrito.

Em termos comparativos, no concelho menos populoso de todo o Alentejo, Barrancos, as variações são mínimas: em 2021 residiam ali 1.461 pessoas, 23 das quais estrangeiras; quatro anos depois os residentes eram 1.413 e os estrangeiros 32.

Hélder Guerreiro não escamoteia a complexidade da situação, mas diz que os números divulgados pelo INE podem pecar por excesso: «Tenho reservas relativamente aos números apresentados pelo Instituto Nacional de Estatística. Sinceramente, não me parece que ir ao encontro daquilo que eram as estimativas da Agência para a Integração Migrações e Asilo tenha sido o melhor caminho», afirma.

As dúvidas do presidente da Câmara Municipal de Odemira residem no facto de «o fluxo migratório e a pendularidade destes movimentos» ser muito grande, o que pode originar distorções a nível estatístico. Ou seja, há muitos imigrantes que chegam e se instalam, mas que acabar por voltar a partir, sobretudo no caso dos trabalhos sazonais. «É uma pendularidade muito, muito grande. Portanto, estes 52 por cento podem estar exagerados. Penso que estarão». No entanto, o autarca admite não ter «forma de contrariar» estes números. «Vamos aceitar esse valor como certo, e não vamos fazer disso nenhum drama».

Aliás, a elevada percentagem da população migrante em Odemira não é de hoje, não é uma novidade. Hélder Guerreiro diz que a autarquia tem trabalhado, nos últimos anos, sempre com 40% como referência para o número de estrangeiros residentes no concelho e, por isso, «foram sendo implementados processos de mitigação, por exemplo, dos processos de sobrelotação de casas e encontradas soluções de alojamento temporário».

«Mas também a criação de melhores condições nas escolas, como tradutores para facilitar a comunicação entre os alunos e os professores, e nos serviços públicos como, por exemplo, no centro de saúde. O trabalho tem vindo a ser feito. No entanto, gostaria de sublinhar que a natureza, o tipo de população migrante, mudou ao longo dos últimos quatro ou cinco anos», esclarece, acrescentando que se tem assistido «à vinda de mais crianças, mais jovens e mais mulheres, numa lógica de reagrupamento familiar”. 

Segundo Hélder Guerreiro, «não mudou integralmente a natureza da imigração para o concelho, mas mudou o facto de a maioria serem homens. Hoje há mais crianças e mais jovens, o que nos obrigou, todos os anos, a ampliar a resposta em termos educativos com mais salas de aula».

Com a subida do número de famílias aumentaram também as necessidades quer na habitação, quer no acesso à saúde: «Na saúde há uma alteração significativa, porque homens entre os 24 e os 35 anos não recorrem, por norma, a esse serviço, são saudáveis. No entanto, quando chegam mulheres, grávidas, crianças e jovens, as necessidades mudam. Aquilo que não mudou, na verdade, foi o declínio, digamos assim, dos serviços públicos. Ou seja, as necessidades aumentaram e mudaram, mas a resposta na saúde, nas finanças ou na segurança social veio-se deteriorando cada vez mais. Ou seja, o Estado não conseguiu evitar este declínio na resposta dos serviços públicos».

Saldo natural negativo

O sociólogo Pedro Góis debruça-se sobre este tema num artigo publicado no jornal «Público», onde questiona «para que serve a imigração numa sociedade democrática, envelhecida, aberta ao mundo e confrontada com transformações demográficas, económicas e culturais profundas e persistentes?»

O também professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra diz que é necessário reconhecer que este é um «fenómeno humano, facto social, recurso económico, desafio institucional e questão política de longo prazo», e que nas comunidades de acolhimento tem implicações na «demografia, mercado de trabalho, sustentabilidade dos sistemas de segurança social, coesão territorial, identidade coletiva e capacidade das instituições».

Pedro Góis recorda que, apesar do aumento da população, em 2025 o saldo natural continuou negativo, apesar do saldo migratório positivo registado, o que levanta a questão de se saber «se as instituições, serviços públicos, empresas, autarquias e sociedade civil estão preparados para governar esta transformação com dados, planeamento, justiça e confiança», concluindo que é fundamental serem capazes de «integrar, regular, proteger direitos, exigir deveres, prevenir desigualdades e construir confiança».

E avisa que «uma pessoa sem habitação digna, documentos em ordem, acesso à língua, reconhecimento de qualificações ou proteção contra a exploração laboral dificilmente permanece, progride ou cria pertença, mesmo quando trabalha. A sua vulnerabilidade fragiliza toda a sociedade porque cria precaridade, baixa padrões laborais para todos, alimenta ressentimentos e compromete a confiança nas instituições».

No Alentejo, a perda populacional e o envelhecimento têm sido avassaladores nas últimas décadas, embora nos últimos anos essa tendência tenha sido, de alguma forma, invertida em consequência do fenómeno migratório.

Ainda de acordo com dados do INE, em 2000 a região contava com cerca de 2,6 pessoas em idade ativa por cada idoso — o rácio nacional era de quatro — um valor que caiu para 2,1 em 2024.

Vejamos a evolução destes indicadores em três concelhos pouco populosos – Alvito, Mourão e Avis – no período entre 1981 e 2024. No caso do concelho de Alvito, foram recenseados 2.959 habitantes em 1981 e 2.303 em 2024, o que traduz uma perda de 22,2% na população residente. O número de pessoas em idade ativa por idoso manteve-se nos 2,2 e o número de jovens por cada 100 pessoas em idade ativa teve uma ligeira quebra, de 22 para 21,7.

Em Mourão, em 1981, viviam 3.092 pessoas, número que desceu para 2.432 em 2024, uma quebra de 21,4%; já o número de pessoas em idade ativa por idoso desceu de 2,6 para 2,2 e o número de jovens baixou de 27,5 para 24,2 por cada 100 habitantes em idade ativa.

No Alto Alentejo, Avis foi o concelho que perdeu mais população neste período, passando de 5.865 residentes para 3.759, um resultado negativo de 36%. O número de indivíduos em idade ativa passou de 2,1 para 1,7 e o peso dos jovens baixou de 22 para 20,8 por cada 100 ativos.

São território pouco marcados pelos fenómenos migratórios. Relatórios da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) e dados do INE referem que «a imigração tem sido o principal motor de rejuvenescimento e de travagem do colapso demográfico do Alentejo», uma vez que a maioria dos cidadãos estrangeiros entretanto radicados na região vieram para Portugal em idade ativa, entre os 18 e 45 anos, acabando por ter um impacto direto no aumento de ativos por cada idoso.

Odemira será, porventura o caso mais paradigmático. Até 1981 a tendência era de forte perda populacional, registando o Censos menos de 30 mil habitantes. No entanto, em consequência do crescimento da agricultura intensiva, sobretudo das estufas de frutos vermelhos, e do turismo, esse número subiu exponencialmente nas décadas seguintes. Na altura, o número de indivíduos em idade ativa por idoso era de 2,9; em 2025 (os últimos números disponíveis) tinha subido para 4,6. Entre 2021 e 2024, a população do maior município de Portugal aumentou mais de 10%, um salto demográfico muito acima da média nacional no mesmo período.

Carta a Montenegro

Em julho, o presidente da Câmara de Odemira escreveu ao primeiro-ministro, Luís Montenegro, a exigir medidas do Governo para fazer face ao crescimento da população do concelho. «O senhor primeiro-ministro remeteu-nos para o ministro das Infraestruturas, para podermos ver como podem ser as respostas ao território de forma integrada. E é isso que vamos propor ao ministro, que sejam envolvidos outros ministérios», sublinha o autarca.

Hélder Guerreiro diz que, à semelhança de um contrato-programa estabelecido com o Ministério do Ambiente, a autarquia defende que essa solução possa ser alargada a outras áreas, uma vez que se trata do «único concelho do país que tem uma proporção de população maioritariamente migrante». O apelo ao Governo é para que se possa olhar de forma diferenciada para o território e encontrar uma proposta que possa servir de manutenção e melhoria da qualidade de vida existente.

Imigrantes representam 14% da população residente na região

Há quase 1,6 milhões de cidadãos estrangeiros a residir em Portugal, representando aproximadamente 14% da população total de 11,4 milhões de habitantes. Entre 2021 e 2025, o número de imigrantes duplicou a nível nacional, mas seguiu-se uma forte desaceleração no ritmo de novas entradas na sequência do fim do regime de manifestações de interesse. Entre 2021 e 2025 entravam em Portugal 581 novos imigrantes por dia, o que promoveu o crescimento demográfico face ao envelhecimento da população portuguesa.

O Algarve é a região do país onde as comunidades imigrantes têm percentualmente mais significado, com 27,9%, seguida pela Grande Lisboa (22,6%) e a Península de Setúbal (18,3%).

 No Alentejo a percentagem de imigrantes é de 14% e entre as comunidades mais representadas encontram-se as originárias da Índia, Nepal e Bangladesh, laborando essencialmente nas explorações agrícolas de agricultura intensiva e nas estufas do litoral. A comunidade brasileira também tem um peso relevante, mas a sua atividade é desenvolvida sobretudo no comércio local, na construção civil e na prestação de serviços nas principais cidades alentejanas.

A nível dos municípios, Odemira — onde os imigrantes representam 52% da população residente — destaca-se largamente à frente de Ferreira do Alentejo. Seguem-se Vila do Bispo, Aljezur, Albufeira e Lagos, no Algarve, todos com cerca de 30% da população imigrantes, Amadora (27,65%) e Odivelas (27,13%).

Fotografias: Nuno Veiga/Lusa/Arquivo

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