Como apresentas este trabalho?
É 100% alentejano, feito por Évora. Todos os intervenientes, desde o escritor, ao autor das ilustrações (Eduardo Miranda) e à designer da capa (Vera Matos), são alentejanos. E é importante sublinhar que foi impresso na Gráfica Eborense. Resumindo em poucas palavras: qual é a relação entre a maldição das bruxas queimadas na fogueira da Inquisição de Évora e uma série ficcionada de sádicos homicídios ocorridos na cidade, nos dias de hoje? Porém é muito mais. É uma viagem de Évora a vários pontos do mundo. O nosso guia é Estanislau Arnaud, Marquês de Évora, que está prestes a desvendar os crimes em série ocorridos na cidade, mas cujas origens e vidas entrelaçadas constituem um mistério que remonta ao século XVI, quando o Cardeal D. Henrique veio para Évora erguer a Universidade do Espírito Santo e organizar o mais temível Tribunal da Santa Inquisição de Portugal.
E quem é o Marquês de Évora?
É o meu protagonista, criado há muito tempo. O Marquês de Évora é o Estanislau Arnaud, um eborense de gema que usa bengala por estilo e fuma cachimbo por ansiedade. Nesta história vai descobrir os mistérios, com a ajuda de Leonor, uma enigmática e sensual jornalista ruiva, surgida do nada de Lisboa. Coincidência? Depois a trama complica-se e os caminhos libertinos por onde a jovem mulher o leva podem, ou não, estar ligados ao homicida. A real questão é: estará o presente de Évora, agrilhoado a ocorrências do passado?
A ação do livro desenrola-se maioritariamente em Évora, num paralelismo entre duas épocas diferentes, no século XXI e no século XVI. Foi difícil equilibrar estas duas épocas diferentes?
Não. Talvez porque na minha vida sempre tenha andado desfasado, fora dos tempos. É curioso, cresci sem pais, porque me abandonaram aos meus avós. Sem avós porque fizeram, e bem, o papel de pais. Filho único, sem tios, ou padrinhos, sabendo da existência de irmãos do segundo casamento do meu pai, que muito raramente via. Joguei râguebi no campo de pedras e terra lavrada da Mitra, quando ainda não havia condições para criar clubes como o Clube de Râguebi de Évora e cheguei a jogar no Racing de Paris. Justamente, quando os meus amigos seguiram os estudos superiores em Lisboa ou Coimbra, eu vejo-me a ir para o estrangeiro (naquela época não era moda) e perco o contacto com muitos deles, nessa importante fase da jovem vida. Não faço o serviço militar obrigatório, sendo declarado refratário, até que decido suspender os estudos lá fora, para vir cumprir esse dever.
Porquê?
Porque o meu pai faleceu em 1983 e eu não podia vir ao enterro. Vim, claro que vim…. vim às escondidas. Quando nas décadas de 60 e 70 os portugueses atravessavam a fronteira na clandestinidade para fugirem, eu regressei clandestino nos anos 80, para enterrar o meu pai, que me deixara aos dois anos de idade. E voltei a sair clandestino, pois claro. Porém, passados poucos meses, achei que tinha de resolver essa situação e apresentei-me no quartel da Trafaria. Dois anos depois, cumprido o dever e livre da tropa, regressei ao estrangeiro, para terminar os estudos. Recordo que, nessa altura, os meus amigos casavam, constituindo famílias.
Tinhas noção dessa opção de vida alternativa?
Não. Quando se vive em enormes cidades, como Paris, estamos imersos num meio cosmopolita, inócuos ao mundo. Um parisiense, um nova-iorquino, um londrino, são cidadãos do mundo. São realidades quotidianas com características peculiares. É preciso viver numa metrópole de dez milhões de pessoas, para entender isso. Não se é melhor nem pior, é-se diferente. Trabalhava para poder estudar lá, nunca recebi um centavo para tal. Cansado de empregos temporários, enveredei pelo jornalismo de investigação e tornei-me repórter de guerra, em vez de casar e ter filhos. Vivi por Paris, Nova Iorque, Cannes e depois em Lisboa. Transpus o cerco dos sérvios em Sarajevo, fotografei pontos nevrálgicos na República Sérvia de Krajina, em solo croata pejado de minas armadilhadas, acossei o fervor islâmico de Argel sacrificada por bombas e reféns europeus. Até que compreendi que andava a arriscar a minha vida, quando na realidade, na Europa ninguém se preocupava com a verdade dos factos.
E daí?
Mais tarde, regressei a Évora casando-me com a namorada francesa que veio comigo. Tive dois filhos lindos, quando os meus amigos viam nascer os netos. Foi o melhor que fiz na vida, os meus filhos. Um casalinho de filhos maravilhosos. Costumo brincar, quando dizem que fui pai tarde, respondendo que treinei muito antes de os fazer, para saírem lindos e perfeitos. E não é que resultou?
Porque é que só agora decidiste ser escritor?
Limpei escritórios, fui encenador e professor de teatro, empresário em diversos sectores, segurança, empregado de mesa, militar, chefe na restauração, distribuidor automóvel de correio, fotógrafo, vendi gelados, fui agricultor, mediador imobiliário, formador, coach desportivo de alta competição, instrutor de mergulho autónomo, jornalista… sempre mantive a veia de jornalista em diversos jornais, ou enquanto freelancer, locutor de rádio, professor de artes marciais, realizador de cinema, sei lá mais o quê. Tirei uma licenciatura, uma pós-graduação e um mestrado que nunca me serviram para nada, porque sou teimoso e vivo fora do meu tempo.
Certo, mas o que te fez, finalmente, escrever este livro?
Sofri um AVC em finais de 2024, decidindo meses depois escrever os livros todos que sonhei ao longo da vida. Aos 20 anos já queria ser escritor, fui tudo, fiz tudo menos sentar-me sossegado a uma mesa e escrever. O AVC veio para isso, estou perfeitamente convencido. Uma vida desfasada dos timings e oportunidades normais, que me enriqueceu de experiências e encontros profissionais e pessoais, mas há um preço caro a pagar, garanto-vos. Dito isto, não seria quem sou hoje, por certo.

Ainda assim, deve ter havido aí alguma constância, algo que sempre fizeste?O desporto, com o râguebi e as artes marciais. Comecei o judo com seis anos, experimentei inúmeras discipli-nas. Adorei os três anos que fui pugilista de boxe inglês num clube profissional em Paris. Sou cinto negro em quatro artes marciais diferentes, com destaque para o aikido onde sou 6.º Dan. E a leitura. Tenho uma biblioteca imensa. Ler é um ato de introspeção, de partilha, e aceitação dos outros , incrível. Se um dia o ser humano cessar de escrever e de ler a sua estrutura espiritual, social e familiar ruirá. A nossa faceta necrófaga vencerá sobre a iluminista.
Voltemos ao livro. “As Bruxas de Évora” podem definir-se como um thriller psicológico?
Então… Não é um livro sobre a pacata vida numa cidade da província. Não se trata de uma história em torno dos habitantes pitorescos ilustrando o interior português, atrasado nas mentalidades e hábitos. Como os raros escritores que nos concedem umas linhas, gostam de nos descrever. É um livro para colocar Évora no mapa do mundo. Um livro sem complexos, onde a vida exulta na cidade de hoje e do passado histórico, e onde ambas se conjugam com a voracidade de pessoas que amam, se enfrentam, morrem ou sobrevivem. Uma história de ficção que faz de Évora aquilo que a Capital Europeia da Cultura deveria fazer, e não fará: elevar o nível de Évora a Avignon, Sevilha, Bilbau, ou qualquer cidade média europeia. Um livro escrito para ser lido além-fronteiras, e por isso também por cá. “Um murro no estômago” foi a expressão, no sentido positivo, de uma professora da Universidade de Évora ao ler alguns capítulos.
Uma narrativa histórica?
Não verdadeiramente. É uma ficção reinventada sobre os despojos da história de Évora e de Portugal. Histórias de destinos, cujos atores são semelhantes, independentemente da época em que vivemos. Das crenças no amor, em Deus, nas almas penadas, e descrenças nos vizinhos, na utilidade e na salvação. Não me prendi a factos históricos, porque a história não passa de perspetivas dos que a escrevem. É uma narrativa liberta, libertina por vezes, descomplexada. Não serve os intelectuais, mas sim os leitores comuns. A cidade de Évora merece ter trabalhos literários, além da documentação histórica e recolha sociológica. Merecemos sonhar, imaginar, alargar os horizontes. Merecemos assumir, de uma vez por todas, quem somos. Fomos e somos mais que bebedores de vinho, amantes de comezainas, prostrados diante da mediocridade de um vasto interior abandonado. Somos mais que o cante, que um recetáculo de turistas, somos gente com alma, sonhos e segredos. Chama-se vida! Os eborenses e alentejanos têm direito a ela. A trincar a vida, com os dentes todos.
É uma trilogia?
Este é o primeiro volume de uma trilogia sim, pese embora cada livro seja uma história independente, com um começo e um fim. No entanto, o meu próximo livro, a sair em março, tratará de outro tema e um mundo bem diferente deste. Não será um thriller, mas um trabalho de reflexão sobre a condição humana. Mais tarde, em novembro, então sim, sairá o segundo volume do Marquês de Évora, que já está em processo de escrita. São processos longos, de investigação, dúvidas, escritas diárias. Comecei a escrever “As Bruxas de Évora” em janeiro de 2025, dando por terminado em fins de novembro.
O segundo volume manterá a ação nas mesmas épocas?
Não. O Marquês de Évora será sempre o protagonista e nosso contemporâneo, contudo viajaremos a uma Évora de outro século, igualmente rica em acontecimentos e marcas da nossa história, eborense e nacional. E não digo mais, senão é spoiler.












