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Almada Conteiras, o militar alentejano que fez de Grândola a música de Abril

Nasceu no concelho de Aljustrel o capitão-de-mar-e- -guerra que escolheu “Grândola Vila Morena” para segunda senha da Revolução de Abril, a música que se tornou num dos símbolos da liberdade. Foi há 50 anos. Júlia Serrão (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

Portugal, meados de 1970. O capitão-de-mar-e-guerra Carlos de Almada Contreiras regressa a Lisboa, concluída uma segunda comissão em África ao comando de uma patrulha nas águas de Angola e de São Tomé. Pouco depois, com um grupo de “camaradas oficiais”, irá criar uma organização na Marinha, que “se iria desenvolver com muitas atividades, algumas delas levadas a cabo no Clube Militar Naval, e outras com particular interesse”, essencialmente no âmbito cultural.

No verão de 1973, os oficias tiveram conhecimento que estava a nascer um movimento, o dos Capitães de Abril. Carlos Contreiras explica que os primeiros contactos do Exército com a Marinha foram feitos de forma individual, mas gradualmente ganharam carácter institucional. “A partir de outubro, o Movimento começou a ter uma dinâmica muito grande: muitas reuniões, muitos comunicados, e nós começámos a entrar nessa movimentação e a participar por direito próprio através da nossa organização”, recorda. Enquanto isso, a consciencialização política intensificava-se e crescia “a necessidade de uma operação capaz de alterar a situação” a que o país tinha chegado.

O ano seguinte seria decisivo, com “a elaboração de um documento importante”, numa reunião restrita em que Almada Contreiras participou e na qual estiveram representados os três ramos das Forças Armadas. “O Movimento, as Forças Armadas e a Nação”, assim se intitulava esse documento, integrava os fundamentos em que o futuro programa do Movimento das Forças Armadas se iria apoiar.

“É um documento muito importante porque é o primeiro em que se escreve a palavra democracia, de forma clara”, observa. Seria discutido e oficialmente aprovado a 5 de março de 1974, numa reunião em Cascais. Nascia o Movimento das Forças Armadas, que sucedia ao Movimento dos Capitães e incluía, além do Exército, a Força Aérea e a Marinha. “O movimento deixa de ser corporativo para ter uma ideia política. Estão cerca de 200 oficiais nesta reunião clandestina, e mais de 100 assinam, dando o seu acordo”.

A transferência repentina de quatro oficiais obrigara o Movimento a juntar-se numa reunião, onde foram “criadas uma comissão política, outra militar e uma delegação”, para começaram a trabalhar no golpe militar que no mês seguinte haveria de pôr fim a 48 anos de ditadura. Conclui-se que “tinha de ser feito um programa político que definisse o que o Movimento das Forças Armadas pretendia fazer, o que iria ser o seu programa, e uma operação militar para alterar a situação que existia em Portugal”, frisa Almada Contreiras.

Esta em marcha o plano para derrubar a ditadura assente numa operação militar. Mas a prisão dos oficiais do Regimento de Infantaria 5 das Caldas da Rainha, na tentativa de derrubar o Governo a 16 de março, alertou para a necessidade de não se cometerem erros do passado. Para isso, “era preciso criar um sistema que quase em cima da hora confirmasse que a operação marcada, e cujas missões tinham sido distribuídas, era mesmo para fazer”.

A Marinha tinha excelentes emissores que chegavam a qualquer parte do mundo, mas o Exército não conseguia sintonizá-los, pelo que ficou excluída a transmissão por meios militares. Estavam neste impasse quando, inspirado por um livro trazido do Chile onde tinha acontecido o golpe de Estado de 1973, o capitão-de-mar-e-guerra teve a ideia de dar o sinal através de uma rádio pública. Foi escolhida a Radio Renascença, explica, por ser aquela que tinha um programa que transmitia para todo o país a partir da meia-noite. Esse programa chamava-se “Limite”.

O passo seguinte foi “convencer” o jornalista Álvaro Guerra, ficando acordado passar o “sinal” nesse horário. Seria o tema “Venham Mais Cinco” de Zeca Afonso, escolhido por um oficial que também estava “nesta ligação” entre o Movimento e o jornalista. Acontece que quando Carlos Contreiras se encontrou com Álvaro Guerra para lhe “dar as últimas instruções”, e este lhe disse que a passagem do “Venham Mais Cinco” estava proibida na rádio, teve de eleger outra canção. Escolheu “Grândola, Vila Morena”, a música que seria transmitida aos 25 minutos do dia 25 de abril de 1974 a confirmar que a Revolução estava na rua.

À escuta, os militares espalhados por diversos quartéis estavam prontos para tomar posições. Tinham sintonizado os Emissores Associados de Lisboa, onde uma hora e meia antes tinha sido emitida a primeira senha, a canção “E depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho. A segunda, “Grândola Vila Morena”, constituía o sinal definitivo de que era mesmo para avançar, tornando-se na música que, ainda hoje, mais se identifica com o 25 de Abril. O capitão-de-mar-e-guerra não descarta a hipótese do seu coração alentejano ter falado mais alto na escolha do tema. “Talvez… Mas foi sobretudo porque conhecia a canção, que já dizia alguma coisa, ouvia muitos discos do Zeca Afonso e também o conhecia bem. Foi uma boa escolha”, resume.

DA CEIFA AO MAR

Carlos de Almeida Contreiras nasceu em 1941 no Monte do Gavião, no concelho de Aljustrel. Penúltimo de nove irmãos, até à ida para a escola, e depois durante as férias, viveu “no meio dos trabalhadores rurais” que se multiplicavam no tempo da ceifa e da monda. “Sabia o que cada um fazia e como fazia, porque os acompanhava desde o nascer ao pôr-do-sol”. E viu a pobreza manifestar-se de muitas formas. Até aos oito, nove anos, “obviamente não tinha uma leitura política do que via, mas essa vivência marca qualquer pessoa”, frisa.

Fez os três primeiros anos do ensino primário em Aljustrel, onde também havia “alguma movimentação em torno das minas, pois já havia sindicato”, e o último em Setúbal, onde continuou os estudos. “No liceu e na própria cidade havia um ambiente muito aberto e, portanto, a minha geração foi abrindo os olhos naturalmente, tendo sempre como pontos de referência tudo aquilo que fomos vivendo ao longo daqueles anos todos. Depois começou a guerra e nós começámo-nos a interrogar sobre ela”, aponta. Para esclarecer que já em África tinha acesso a informação preciosa que a censura não deixava passar: assinalava o “Le Monde”, através do qual chegavam notícias do Maio de 68, e o “Comércio do Funchal”, coordenado por Vicente Jorge Silva e um dos principais de jornais de “oposição” ao regime.

Sonhou com Engenharia, mas acabou por entrar na Escola Naval, “por uma razão socioeconómica importante, que era ajudar no orçamento familiar”. A escolha da Marinha traduz a sua “atração” e o apelo do mar: “Estava muito ligado ao porto [Setúbal], andava sempre lá metido nos barcos”.

A reforma trouxe-o de novo ao Alentejo, desta vez a Longueira/Almograve onde passa boa parte do tempo a escrever sobre a guerra e as memórias da Revolução. Entre outros cargos, foi Conselheiro de Estado e Conselheiro da Revolução, tendo sido agraciado com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

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“GRÂNDOLA, VILA MORENA”

A música-símbolo da Revolução de Abril foi composta por Zeca Afonso depois de uma passagem pela Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, coletividade conhecida localmente como “Música Velha”, fundada em 1921 por um grupo de operários da indústria corticeira e ponto de encontro de quem se opunha à ditadura de Salazar. Zeca passou por lá em maio de 1964. Mas só sete anos depois é que a música seria gravada, em França, com arranjos e direção musical de José Mário Branco.

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