«A data da vindima varia bastante entre regiões, castas e parcelas […]. Ainda assim, temos observado uma tendência de antecipação em várias regiões, associada, sobretudo, ao aumento das temperaturas e à maior frequência de períodos de calor intenso, que aceleram a maturação da uva», refere o presidente da ViniPortugal, Frederico Falcão.
No Douro, verificou-se uma antecipação das vindimas na ordem de uma a duas semanas. Já nas regiões mais quentes, como o Tejo e o Alentejo, a colheita começou durante as últimas semanas de julho. Contudo, a associação lembra que, mais do que manter a data da colheita, é importante colher cada parcela quando «existe o equilíbrio adequado entre maturação, acidez, açúcar e perfil aromático».
Frederico Falcão diz que as alterações climáticas obrigam a uma monitorização cada vez mais rigorosa da vinha, bem como a decisões mais rápidas. Por outro lado, é necessário fazer uma utilização mais eficiente da água, uma gestão criteriosa do solo e ter uma maior precisão na escolha da data da vindima e de práticas que permitam proteger os cachos.
«Se há uns anos era prática comum deixar os cachos mais expostos para que a maturação fosse mais rápida, hoje faz-se o contrário, deixando os cachos protegidos pela folhagem das videiras. As soluções dependem de cada região e de cada exploração», explica.
Segundo dados da ViniPortugal, o país conta com mais de 250 castas autóctones identificadas, com comportamentos diferentes face ao calor, à seca e ao stress hídrico. Assim, em algumas regiões poderá fazer sentido aumentar progressivamente a utilização de castas mais tardias ou mais resistentes ao calor e à falta de água.
Por sua vez, o secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Luís Mira, diz que, «nos últimos 15 anos», as vindimas têm lugar cada vez mais cedo devido às alterações climáticas, o que também levou à adaptação da tecnologia e do conhecimento agronómico e enológico. «Apesar de as vindimas terem, em média, recuado no calendário, não recuaram na qualidade do produto, aliás, antes pelo contrário».
Luís Mira sublinha que os métodos de produção e de vinificação permitem hoje controlar melhor a evolução da fruta, ter melhores cuidados durante o período de produção e, assim, evitar pragas e doenças.
«A tecnologia hoje é transversal, da vinha até ao copo do consumidor. A procura por vinhos menos alcoólicos, a inversão do consumo de vinhos brancos e rosés, que tem aumentado, a menor procura por vinhos licorosos e fortificados são mais resultado das escolhas dos consumidores do que das alterações climáticas», acrescenta.
Do lado das empresas, a Quinta de Lemos, que produz vinhos do Dão, confirma esta nova realidade, com a vindima a ser antecipada entre duas e três semanas face à média dos últimos anos. Com isto, segundo o enólogo da Quinta de Lemos, Hugo Chaves, é preciso reorganizar a mão-de-obra, sobretudo numa altura em que são necessários mais trabalhadores.
A falta de mão-de-obra tem sido também sentida pela Vicentino Wines, na Costa Vicentina, e pela d’A Cooperativa, na Ilha do Pico. «Através de empresas de trabalho temporário conseguimos, mas a capacidade e qualidade de trabalho é cada vez menor», aponta o enólogo das duas empresas, Bernardo Cabral.
Já no que se refere à vindima na Vicentino Wines e na d’A Cooperativa, está a decorrer em linha com a média dos anos anteriores. «O ano vitícola 2025/2026 está a acontecer sem sobressaltos. A pluviosidade registada levou a uma boa disponibilidade de água, muito importante para o desenvolvimento da planta. A primavera e o verão estão a ser relativamente amenos permitindo um ótimo ritmo de maturação da uva. No entanto, temos vindo a adaptar algumas práticas culturais como enrelvamentos na entrelinha para reter humidade no solo, gestão de rega através de equipamentos e programas que nos dão informação precisa sobre as necessidades da planta», revela.
Também nas uvas de mesa, a colheita está a decorrer dentro do habitual calendário e sem sobressaltos.
Na Frutalmente, que detém a Dona Uva, espera-se uma «colheita normal, com produções ideais para a cultura», perspetivando-se uma campanha superior à do ano passado, com cerca de três milhões de quilogramas.
Ainda assim, o diretor executivo da Frutalmente, Mário Rodrigues, disse à Lusa que tem sido necessário adaptar as condições de produção devido às alterações climáticas, destacando-se, por exemplo, a gestão fitossanitária, que «é cada vez mais exigente pela instabilidade climática e pela maior pressão de doenças».
Para mitigar este contexto, a empresa tem cerca de 40% da produção feita em sequeiro, reduzindo a dependência da água, e dispõe de um sistema de cachos em troncos mais altos, aumentando a produção e a rastreabilidade da colheita.
Já a escassez de mão-de-obra é também um problema para a Frutalmente, que, nos meses de campanha, recorre à subcontratação de empresas de trabalho temporário e de prestação de serviços, de modo a satisfazer as necessidades de colheita e a garantir o fornecimento dos clientes.










