Alterações climáticas podem aumentar em 27,5% as necessidades de rega

As alterações climáticas podem aumentar até 27,5% as necessidades de água para rega no final do século, um desafio que estará no centro do XI Congresso Nacional de Rega e Drenagem, que decorrerá de 30 de setembro a 2 de outubro, no auditório do Núcleo Empresarial da Região de Beja (Nerbe).

Organizado pelo Centro Operativo e de Tecnologia de Regadio (COTR), o encontro decorre sob o tema «Água para Produzir o Futuro: Resiliência, Eficiência e Inteligência nos Recursos Hídricos» e reúne responsáveis políticos, agricultores, empresas, investigadores e especialistas em água, tecnologia e ambiente.

Segundo a organização, o congresso coloca «a eficiência na aplicação da água, a digitalização e a inteligência artificial no centro da resposta às alterações climáticas».

A projeção dos 27,5% foi divulgada pela Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural no âmbito do projeto «Conhecer para Prever o Futuro», desenvolvido em parceria com o COTR e com colaboração do Instituto Superior de Agronomia. Refere-se ao período 2071-2100, no cenário climático mais desfavorável e mantendo-se a atual situação agronómica.

«Um possível aumento de quase 30% nas necessidades de rega não significa que Portugal tenha simplesmente de encontrar mais 30% de água. Significa que temos de acelerar a eficiência, modernizar as infraestruturas e utilizar tecnologia e inteligência artificial para aplicar melhor cada metro cúbico disponível», afirma Gonçalo Morais Tristão, presidente do COTR.

Entre 1999 e 2023, os sistemas de rega em Portugal registaram um aumento de eficiência de 18%. A área equipada para regadio totaliza 633,1 mil hectares e representa cerca de 17% dos aproximadamente 3,86 milhões de hectares de superfície agrícola utilizada (SAU) do país, sendo já responsável por cerca de 30% da produção agrícola nacional.

Para o COTR, estes indicadores demonstram «a capacidade do regadio para aumentar a produtividade, estabilizar a produção e reduzir a exposição da agricultura nacional à irregularidade da precipitação», evidenciando em simultâneo «o valor económico de continuar a investir na utilização eficiente da água».

«Em apenas 17% da superfície agrícola, o regadio gera cerca de 30% da produção nacional. Este resultado mostra que a água, quando aplicada com conhecimento e precisão, é um fator de produtividade, rendimento e segurança alimentar. O desafio é continuar a aumentar o valor produzido por cada metro cúbico, respeitando a disponibilidade de cada território», salienta Gonçalo Morais Tristão.

O programa substitui a tradicional sucessão de intervenções por painéis com diferentes perspetivas. Depois da sessão de abertura, o ministro da Agricultura e Mar será entrevistado em palco sobre a estratégia e as prioridades políticas para a água e a agricultura.

O painel «Quem decide o futuro da água em Portugal?» reunirá representantes da agricultura, do abastecimento e do ambiente para discutir prioridades, responsabilidades e modelos de governação, enquanto o frente a frente «Água, ambiente e agricultura» colocará em diálogo o GEOTA e a Confederação dos Agricultores de Portugal, num formato que a organização diz ter sido concebido «para explicitar divergências e encontrar pontos de convergência». Integram ainda o programa os debates «Nova geração, novo regadio», «Da gota ao dado: como a IA está a transformar o regadio» e «A grande estratégia da água para Portugal».

Sensores no solo e nas culturas, estações meteorológicas, drones, imagens de satélite, telemetria e modelos de previsão já permitem decidir com maior precisão quando, onde e quanto regar, sublinha o COTR, que aponta a inteligência artificial como a ferramenta capaz de transformar estes dados em recomendações mais rápidas e ajustadas a cada cultura e parcela.

«A agricultura já demonstrou que consegue aumentar a eficiência. A próxima etapa é combinar a experiência do agricultor, a ciência agronómica e a inteligência artificial. A tecnologia não cria água, mas permite antecipar necessidades, evitar aplicações desnecessárias, obter poupanças, reduzir custos de água, energia e fertilizantes, aumentando os níveis de eficiência e promovendo níveis mais elevados de sustentabilidade», acrescenta Gonçalo Morais Tristão.

Outro dos momentos centrais será a apresentação, a 1 de outubro, do Barómetro Nacional do Uso Eficiente da Água na Agricultura, desenvolvido pelo COTR em parceria com a Consulai, que revela que as áreas sujeitas a uso eficiente já abrangiam mais de 118 mil hectares em 2025. O instrumento pretende avaliar a evolução das práticas de rega, o grau de adoção de tecnologia e os obstáculos que ainda condicionam o investimento em eficiência hídrica.

O congresso contará também com uma intervenção do professor Emílio Camacho Poyato, da Universidade de Córdova, dedicada à inteligência artificial e à digitalização aplicadas à gestão da água, e com uma apresentação de Joan Girona, descrito pela organização como «investigador de renome mundial e especialista em uso eficiente da água».

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