Quando surgiu no ecrã uma imagem do futebolista Cristiano Ronaldo com uma bandeira da Palestina tatuada nas costas, as reações na sala foram rápidas. Entre comentários e algumas gargalhadas, a maioria dos alunos levantou a mão para dizer o mesmo: era falsa.
Minutos depois, um novo desafio deixou a plateia menos segura. Uma fotografia da ativista Greta Thunberg num barco, aparentemente a segurar uma bebida, pareceu convincente e enganou muitos dos estudantes do 10.º ano reunidos no auditório da escola.
Durante cerca de duas horas, 56 alunos participaram numa sessão dedicada a perceber como identificar e travar a desinformação que circula nas redes sociais. A iniciativa integra o roadshow educativo da segunda edição do projeto “Pinóquio na Escola”, desenvolvido pelo Polígrafo em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian.
No início da sessão, o diretor de operações do Polígrafo, Filipe Pardal, lançou uma pergunta simples à sala: “O que é desinformação?” Da plateia vieram respostas cautelosas: “não estar informado” e “informação falsa”. As duas ideias ajudam a chegar à definição. A desinformação, explicou o responsável do Polígrafo, refere-se à disseminação intencional de informação falsa ou enganadora, visando manipular a opinião pública.
A partir do conceito, os alunos foram desafiados a colocar em prática o olhar crítico. Numa sequência de exercícios, tiveram de distinguir imagens verdadeiras de conteúdos manipulados. Depois, passaram a analisar afirmações virais e a discutir como poderiam verificar a sua veracidade.
Num dos exemplos apresentados, questionou-se se um castelo renovado em França e uma quinta a precisar de obras em Évora poderiam estar à venda pelo mesmo preço. Da plateia surgiu uma resposta que revelou método: pesquisar os preços nos sites das promotoras imobiliárias, comparar características e, se necessário, contactar os vendedores.
Entre as estratégias sugeridas pelo responsável do Polígrafo inclui-se verificar se a página que publica a informação é credível, procurar confirmação em meios de comunicação social, analisar a data da publicação e desconfiar de erros ortográficos.
Entre os alunos, o contacto diário com as redes sociais torna o tema da desinformação particularmente próximo. Filipa Carvalho tem 15 anos, está no 10.º ano, na área socioeconómica, e começou por dizer estar exposta a muita desinformação, pois “passa muitas horas a consultar feeds no TikTok, Instagram e nas outras aplicações, onde nem sempre consegue perceber se a informação é verdadeira ou falsa”. E acrescentou “Muitas das vezes consumimos informação demasiado falsa, o que leva a acreditar em coisas que são completamente falsas”.
Nesta perspetiva, a aluna, amante de futebol, mencionou a desinformação em torno das contratações e transferências de jogadores, pelo que tenta procurar informação através de várias fontes.
Filipa Carvalho salientou a importância da sessão, sobretudo no Alentejo, onde considera não existir tanta perceção de que circulam muitas notícias falsas. “Como muitas das informações não se passam no Alentejo, não temos a perceção se realmente são verdadeiras ou falsas, porque não temos como ir verificar ao local”, esclareceu.
Afonso Martins, estudante do 10.º ano na área das humanidades, também participou na sessão e considerou-a “muito importante para informar os jovens, porque, hoje em dia, nas redes sociais são bombardeados com informações falsas”, refletindo que as estratégias deixadas pela equipa do Polígrafo ajudam a não partilhar informação errada.
O estudante de 16 anos explicou como tenta identificar fake news: “Vejo uma informação errada na internet, vou consultar várias fontes de informação verídicas, porque se for só a uma fico preso a acreditar apenas nessa. É sempre bom ver diversas opiniões”.
Afonso Martins referiu ainda que pertence à geração mais apta para perceber a desinformação, pelo que considera importante saber lidar com o fenómeno e superar as gerações anteriores.
Por sua vez, a aluna do 10.º ano, na área socioeconómica, Alice Ascensão, com 15 anos, destacou o papel que a sessão teve “para que as pessoas reconheçam mais os problemas” que existem e a importância de saber combatê-los.
O diretor do Polígrafo explicou que “hoje em dia um jovem que estuda no ensino secundário ou no terceiro ciclo está muito mais exposto à desinformação, numa idade precoce”, face às gerações anteriores que consumiam informação sobretudo pela televisão e pelos jornais. Neste sentido, Filipe Pardal defendeu que o trabalho de literacia mediática feito nas escolas é insuficiente, porque existe um desfasamento temporal entre os desafios atuais e os currículos escolares.
Já a diretora do Agrupamento de Escolas André de Gouveia, Maria Peres, considerou que a literacia mediática é transversal a todas as disciplinas, embora considere necessário um esforço conjunto entre família, escola, comunidade e meios de comunicação social para que os jovens possam desenvolver pensamento crítico.
Uma perspetiva partilhada pela professora Isabel Gameiro, organizadora da sessão, que afirmou ser “fundamental para ajudar os alunos a desenvolver o pensamento crítico”.
No final da sessão, entre exemplos virais, debates improvisados e algumas respostas falhadas, os alunos saíram com uma regra simples: antes de acreditar ou partilhar é preciso verificar.












