A crítica surge sem rodeios logo na introdução da obra. A autora recorda a inscrição do cante alentejano, da arte chocalheira de Alcáçovas e das cidades de Elvas e de Évora na lista do Património da Humanidade e conclui que as distinções foram obtidas «sem que estas classificações tenham servido, e muito menos esgotado, como deveriam!, de forma visível e efetiva, o desenvolvimento regional e local».
Para Ana Paula Fitas, investigadora com um percurso académico focado nas áreas da Filosofia e da Antropologia Social, o problema está a montante, na forma como as autarquias têm encarado o património que gerem. Reconhecendo que os municípios do distrito de Évora «denotam alguma sensibilização para as suas potencialidades», a investigadora considera que o investimento tem mantido o seu «enfoque» na «representação política da atividade turística», que «até agora, mais não fez do que promover o investimento em estruturas hoteleiras e de restauração nos meios urbanos».
O resultado, escreve, é um turismo que passa ao lado do território. O aumento do número de visitantes «assenta na promoção de visitas guiadas de excursionistas, organizadas por agências de viagens» que, na ausência de condições no terreno, «optam por “uma passagem pela cidade” como exemplo do Alentejo, por não disporem de programas regionais culturais e turísticos, capazes de justificar a estadia».
A autora identifica as carências que sustentam essa opção: «vias de acesso, sinalização, informação documental, parques de estacionamento e de lazer nas áreas rurais onde se localiza a maioria dos testemunhos desse património». Sem elas, defende, a atividade turística não contribui «para a dinamização das vivências em meio rural» e mantém-se «alheia» a um território que «poderia constituir-se como boa oportunidade de desenvolvimento e investimento».
O caso mais evidente dessa desarticulação é, segundo a investigadora, o conjunto megalítico do distrito. Disseminado pelos concelhos de Évora, Montemor-o-Novo, Mora, Redondo, Alandroal, Reguengos de Monsaraz e Viana do Alentejo, constitui «a maior área peninsular de concentração deste espólio patrimonial». Ainda assim, e apesar de integrar a informação turística sobre a região, essa área encontra-se «destituída de uma orgânica sistemática integrada, capaz de permitir às populações e aos visitantes a fruição das vantagens e riqueza» dessa manifestação cultural.
Ana Paula Fitas sublinha que se trata de um património com uso social documentado. Menires, cromeleques e antas foram sempre «reconhecidos e utilizados pelas populações camponesas da sociedade local e regional como complexo de referências espaciais, capazes de orientarem a mobilidade social local e regional» — uma função que a atual oferta turística não recupera.
O texto introdutório desloca depois a responsabilidade para o plano das políticas públicas, por não integrarem na sua abordagem «a execução de estratégias regionais de desenvolvimento cultural». O planeamento fica dificultado e a coordenação inviabilizada, argumenta, «na medida em que não é considerado uma intervenção estrutural prioritária, do ponto de vista do desenvolvimento regional e cultural».
Por outro lado, as autarquias são as entidades «com maiores taxas de empregabilidade» do distrito, mas as suas carências de financiamento estão, escreve, «em nítido contrassenso relativamente à quantidade e dimensão do progressivo aumento das respetivas competências de gestão e responsabilidades sociais», que a autora classifica como «pilares de consolidação de todo o desenvolvimento regional».
Contra este quadro, o livro propõe a sociomuseologia, «enquanto estratégia de promoção de um modelo de desenvolvimento regional sustentável, numa filosofia de intervenção cívica constante», aplicada a um território cujo património cultural deverá ser entendido como «visão integrada do património histórico-arqueológico edificado, do património etnológico e da memória coletiva».
O que está em causa, esclarece, é «uma intervenção social integrada e interativa com a cultura tradicional e o seu património etnológico, histórico, arqueológico e cultural, numa perspetiva de desenvolvimento e redinamização económica e social local e regional».

«Cultura e Desenvolvimento Regional Sustentável no Alentejo»
Ana Paula Fitas
Edições Colibri
204 páginas
PVP: 16,00 euros
Fotografia: Cromeleque dos Almendres, em Évora










