Andorinhas, capelas e a Fonte das Bicas: Borba nos passos de Saramago

Há 45 anos, na sua «Viagem a Portugal», José Saramago passava por Borba reparando na inscrição que proibia destruir os ninhos das andorinhas sob pena de multa, entrou em igrejas e capelas e prendeu o olhar na Fonte das Bicas e no «jogo de grades» que a antecede.

Luís Godinho (texto) e Cabrita Nascimento (fotografia)

E o viajante chegou a Borba. Há 45 anos, José Saramago publicava no Círculo de Leitores a sua «Viagem a Portugal». Fê-la entre outubro de 1979 e julho de 1980, escrevendo depois um livro que é um misto de crónica, narrativa e recordações. «O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite… É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos», escreveu Saramago, que incluiu Borba no roteiro de «peregrinação».

Um dos motivos que lhe prendeu a atenção foi a inscrição sob um beiral — «a mais extraordinária declaração de amor» — que dizia simplesmente: «É proibido destruir os ninhos. Multa 100$00 [cerca de sete euros, tendo em conta a evolução dos preços]».

Na altura, Borba ainda era uma vila. «Convenha-se que merece todos os louvores uma vila onde publicamente se declara que o rigor da lei cairá sobre as más cabeças que deitem abaixo as moradas dos pássaros. Das andorinhas, para ser mais rigoroso».

Como o letreiro se encontrava colocado por baixo de um beiral onde as andorinhas haviam feito ninho, conclui o escritor que a proteção legal «só a elas cobre». Ou seja: «A outra passarada, ribaldeira e menos dada a confianças humanas, faz os seus ninhos nas árvores, por fora da vila, e sujeita-se aos azares da guerra. Mas já é excelente que uma tribo do povo alado tenha a lei por si».

A conclusão parece óbvia. «Indo assim aos poucos, acabarão as leis por defender as aves todas e os homens todos, exceto, claro está, ou então não mereceriam o nome de leis, os nocivos de um lado e de outro». Prossegue o texto com advertência de que o dia é de temperaturas elevadas e que, «provavelmente pelo efeito do calor», talvez o viajante não esteja «nos seus dias de maior clareza», embora espere «que o entendam».

À entrada em Borba, atravessados «cerrados olivais», deparou-se José Saramago com uma «simples capela». Ou talvez nem tanto. «Se pelas dimensões não avulta, avulta pela monumentalidade: a porta sobe até à cúpula que assenta diretamente sobre o entabalamento». Ladeou o portão, admirou «duas belas imagens sentadas, que deixam pender os pés para o vazio» e que eventualmente manteriam um diálogo entre si, ainda que imperceptível por quem as observa. «A umas mulheres que ali estavam, conversando à sombra, perguntou o viajante que capela era aquela. Nenhuma soube dizer. Seria de passos? Talvez».

Mais à frente, entra o escritor na igreja de São Bartolomeu, fundada em 1560, como capela sujeita à Matriz, e totalmente reconstruída em 1609. «Sem extremos aparatos por fora, a igreja é, no interior, sumptuosa de mármores». Saramago assinala como «beleza maior» as pinturas no teto, «com medalhões e paisagens, género de decoração raramente encontrada».

Não fala, e bem o poderia ter feito, do retábulo em talha dourada, da autoria do mestre entalhador Manuel Nunes da Silva, um dos mais importantes escultores do barroco alentejano. Ou da capela do Santíssimo Sacramento, datada de finais do século XVIII, no interior da qual certamente observou o «Triunfo do Santíssimo Sacramento», notável tela do pintor borbense José de Sousa de Carvalho. Tampouco refere o órgão, encomendado em 1808 ao mestre organeiro António Xavier Machado Cerveira.

A visita à terra enche-lhe a alma. «O viajante» — escreve — «está a gostar de Borba. Será do sol, desta luz ainda matinal, será da brancura das casas (quem foi que disse que o branco não é cor, mas a ausência dela?), será de tudo isto e do mais mais que é o traçado das ruas, a gente que nelas anda». De rua em rua, eis a fonte das Bicas, classificada como Monumento Nacional desde 1910.

Construída entre 1781 e 1785 por ordem da Câmara Municipal de Borba, mediante projeto do engenheiro militar José Álvares de Barros, a fonte assinala a visita de D. Maria I ao concelho. Construída em mármore, é composta por três tanques, um central e de maiores dimensões e dois laterais, sobre as quais pontificam os bustos de D. Maria e do seu marido, D. Pedro. «Concebida como um templete com os vãos cheios, tempera o neoclassicismo do estilo com a maciez particular do mármore branco da região».

Foi um longo caminho até aqui chegar. O primeiro passo «foi um pedido da Câmara da vila de Borba ao Rei pedindo a autorização para construir o monumento», escreve João Miguel Simões («A Fonte das Bicas», Edições Colibri), notando que, à época, ainda reinava D. José I. O monarca mandou então que a nobreza e o povo fossem ouvidos sobre o tema em assembleia convocada pela Câmara. A reunião realizou-se a 6 de agosto de 1775 «e por todos uniformememte foi dito que esta obra hé munto util pella decencia em que se axão as fontes desta villa», resume o livro de ata do município, numa frase citada por João Miguel Simões, acrescentando que a obra acabaria por transcender «o seu carácter utilitário» e assumir-se «como um monumento modelador da Praça Nova constituindo uma peça fundamental no plano de urbanização da zona oriental da vila».

O que José Saramago não conheceu, ou não valorizou, foi a crendice popular, segundo a qual cada uma das bicas é destinada a um estado civil (aos solteiros, aos casados e aos viúvos) e que quem delas beber sempre regressará a Borba. Nem tampouco refere o lago artificial, construído por detrás da fonte, no local onde muitos acreditam ter sido encontrado o grande barbo que deu o nome à vila de Borba.

O seu interesse foi outro. «O que o viajante mais estimou ver, ou, com outro rigor, o que o divertiu, foi a espécie de labirinto que antecede a fonte, o jogo de grades que sucessivamente abrem e fecham o caminho. O forasteiro, à primeira entrada, perturba-se. Calcula o viajante que haverá sempre, postos de largo, bem-humorados habitantes de Borba a rir das atrapalhações».

O jornalista Luís Godinho e o fotógrafo Cabrita Nascimento percorrem os roteiros de José Saramago no Alentejo, 45 anos depois da publicação de «Viagem a Portugal». Citações retiradas da 28.ª edição, Porto Editora, dezembro de 2022.

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