Aníbal Coutinho: Perfil dos vinhos do Alentejo «continua a ser um caso de estudo»

No arranque da Vinipax, de que é diretor técnico, Aníbal Coutinho olha para o vinho alentejano com a distância de quem prova às cegas há décadas. O crítico, enólogo e produtor fala da liderança nacional do Alentejo e do risco de conformismo, das vindimas antecipadas para julho, do regresso da talha e da diferenciação das sub-regiões como caminho.

Ana Luísa Delgado (texto)

A sua formação inicial é em engenharia civil. Como é que os vinhos entraram na sua vida, ainda por cima sendo algarvio?

O meu pai, originário do Bombarral, era enófilo, consumidor regular e, para além de muitas outras influências na minha vida, o vinho foi-me apresentado por ele. Em Lisboa fiz a universidade com o vinho por testemunha; os meus amigos delegavam em mim a eleição das garrafas durante os convívios. Durante a profissão de engenheiro civil e de gestor, reencontrei-me profissionalmente com o vinho, tendo avaliado e elaborado projetos de novas adegas e modernização de adegas antigas. Quando mudei de vida profissional, optei por estudar o vinho na vertente académica e científica, tornando-me enólogo.

Quando começou a escrever e a provar vinhos profissionalmente, que realidade encontrou em Portugal? E quanto mudou o setor desde então?

Qualquer atividade agrícola teve, nas últimas décadas, alterações ciclópicas; entrei numa fileira regida de modo feudal, com pouco pensamento crítico, quase paroquial: poucos mandavam em muitos. Hoje, as novas gerações, a sustentabilidade e as tecnologias mudaram o paradigma: o profissionalismo dos técnicos, a gestão integrada dos investimentos e a distribuição moderna transformaram a economia e o mercado do vinho. Ainda temos um caminho longo a percorrer para atingirmos a procura e crédito internacionais alcançados pelos vinhos franceses ou italianos ou por algumas castas internacionais que usamos, mas com as quais ninguém nos identifica. Valha-nos o crédito internacional do vinho do Porto e vinho da Madeira.

Ao longo do seu percurso foi crítico, jornalista, provador, enólogo e produtor. Alguma vez estas diferentes funções entram em conflito?

Sim. Quando se tocam tantos instrumentos, o som de conjunto pode ter desafinações. Desde muito cedo optei pela prova cega como método de avaliação intocável e equidistante. Não fala o pequeno ou grande produtor, a marca mais ou menos conhecida; apenas as sensações que aquele vinho, servido em total anonimato, me proporcionam. Sou livre de exercer mais funções, ao provar em prova cega, sob o risco de avaliar de modo sofrível um vinho que eu mesmo ajudei a elaborar. Ainda assim, a crítica acerca do conflito de interesses existe e defendo todos aqueles que divergem no contraditório, desde que a elevação intelectual esteja garantida.

Como diz, a prova cega tem um peso importante no seu trabalho. Até que ponto é possível separar verdadeiramente a qualidade de um vinho da reputação do produtor, da região ou do preço da garrafa?

Não só é possível como é muito desejável. Não faria metade do trabalho que faço se a minha prova avaliativa fosse à vista. A todos os que se iniciam no vinho, fica o incentivo para que obedeçam à humildade da prova cega. Muitos produtores menos conhecidos foram por mim descobertos e associados a vinhos de grande qualidade porque numa prova cega para uma das minhas publicações tiveram as mesmas chances dos produtores consagrados.

Qual a importância dos guias de vinhos, que ainda publica?

Hoje em dia a edição de um guia de vinhos é uma empresa quixotesca: não tem retorno económico e a concorrência da informação virtual, assinada ou não, verdadeira ou falsa, é real e instantânea. Continuo a assinar dois guias anuais de vinho: «Guia Popular de Vinhos» (Editorial Presença) e «Guia de Melhores Vinhos» (www.w-anibal.com) porque sou e serei sempre devedor à fileira do vinho, que alimenta a minha qualidade de vida familiar.

Depois de milhares de vinhos provados e de décadas de contacto com produtores, ainda há vinhos capazes de o surpreender?

Sim. As surpresas é que são diferentes. Junto à grande garrafa exclusiva com uma evolução extraordinária, a surpresa de um vinho que avalio como tendo uma enorme qualidade para o preço abordável, ou algo criativo e inovador, quer na vinificação como na imagem de um novo projeto.

O que procura hoje num vinho que talvez não procurasse há 20 anos?

Emociono-me com a criatividade e diferenciação de um vinho, sobretudo quando me é transmitida pelos seus artesãos. Procuro a emoção do vinho, em contexto familiar ou social. Já completei a minha coleção individual de prova de grandes vinhos há muitos anos e desinteressei-me de procurar esse enriquecimento.

Está ligado à Vinipax desde os primeiros tempos. Como surgiu essa ligação e qual a ambição inicial do certame?

A edição 2026 vai ser muito emocional porque retomo a colaboração e cumplicidade com o outro fundador — o meu amigo José Lameira. Quando começámos, há 20 anos, fomos «empurrados», no bom sentido, pelos produtores pioneiros do concelho de Beja. Todos tínhamos a ambição de chegarmos onde chegámos, sempre com o apoio de todos os quadrantes políticos no comando autárquico, a quem sou muito grato pela confiança. Pensando nas mais recentes edições, deixo uma palavra de agradecimento ao meu colega e amigo Manuel Baiôa, grande conhecedor e entusiasta do vinho.

Olhando para quase duas décadas de Vinipax, o certame tornou-se aquilo que imaginavam no início ou seguiu um caminho diferente?

A maior ambição da Vinipax sempre foi o encontro esclarecido da sociedade bejense com o vinho: como apreciar, como servir, como escolher, como partilhar, como socializar, como comparar com vinhos de outras regiões e países. Este evento contribuiu para que os bejenses tivessem uma relação familiar e consciente com o vinho e se possam orgulhar dos produtores do seu concelho.

Que importância tem hoje a Vinipax para Beja e para a afirmação dos vinhos do Alentejo?

Para além do objetivo principal já expresso e atingido, creio eu, como efeito secundário, estes 20 anos de Vinipax contribuíram para a visibilidade nacional e internacional de Beja como cidade do vinho.

Num calendário nacional cada vez mais preenchido de feiras, provas e eventos, o que distingue a Vinipax e o que precisa ainda de fazer para continuar relevante?

A Vinipax responde, sobretudo, a uma aspiração dos bejenses, embora atraia público de várias paragens. Estamos satisfeitos com o modelo mas sempre com a ambição de fazermos mais pelo conhecimento do vinho.

Que balanço faz da relação entre a Vinipax e os produtores?

É um ponto de encontro já consagrado, ocorrendo numa altura de lançamentos de vinhos novos, antecipando um momento alto de consumo que é o último trimestre do ano, sobretudo pensando nas festividades do Natal. É também um espaço de prova das criações de outras paragens, nacionais e internacionais, algo que os produtores e o público valorizam positivamente.

O Alentejo é uma das marcas vínicas mais fortes de Portugal. Esse sucesso é uma vantagem ou começa também a criar algum conformismo?

O Alentejo é a região preferida dos consumidores nacionais de vinho e o mesmo acontece em alguns mercados externos importantes para a fileira, sobretudo o Brasil. Ser líder é sempre positivo; olhar para a frente, para a envolvente e ter uma visão desimpedida é um privilégio e uma responsabilidade; manter-se líder dá muito trabalho; o conformismo é sinónimo de ultrapassagem por outros.

Durante muito tempo falou-se num «estilo Alentejo»: vinhos maduros, generosos, fáceis de compreender e de beber. Essa definição ainda faz sentido ou o Alentejo vínico é hoje demasiado diverso para caber nesse retrato?

Continua a ser um «caso de estudo» o perfil alentejano de vinhos; ainda há muitos consumidores que escolhem sempre vinho alentejano, por se tratar de um selo de garantia para o seu gosto e um critério positivo de seleção em contexto social. É certo que os vinhos do Alentejo saberão responder à maior diversidade que o mercado começa a procurar, com perfis mais diferenciados. Desde a costa Vicentina até à Amareleja, de Beja a Portalegre, a aposta na comunicação da diversidade alentejana é um caminho incontornável de futuro.

Há quem considere que alguns vinhos alentejanos foram, durante anos, excessivamente alcoólicos, maduros e marcados pela madeira. Essa crítica continua a ser justa?

Ao contrário de um passado recente, as vindimas — que marcam a maturação e o potencial alcoólico — estão a ser antecipadas para julho e agosto. Este ano, em particular, estou convencido que a Vinipax será ponto de celebração de final de vindimas para a maioria dos produtores do Baixo Alentejo. O mercado está sensível ao álcool excessivo e os produtores alentejanos são os líderes de mercado, estando muito atentos a essa dimensão.

Portalegre e Redondo, por exemplo, produzem vinhos muito diferentes. O consumidor percebe suficientemente essa diversidade ou a marca «Alentejo» acaba por esconder os diferentes terroirs?

A marca «Alentejo» vale mais do que as suas sub-regiões. Como já referi, a diferenciação sub-regional é um caminho de futuro que pode, e deve, ser trilhado, com valor económico acrescentado.

Já agora, como é que olha para este boom nos vinhos produzidos em altitude, na serra de São Mamede?

Está em linha com o estilo mais elegante, mais fresco e menos alcoólico que tem procura crescente. E que bom estarmos a falar nesse novo estilo, sem termos que sair do Alentejo… Poderíamos dizer o mesmo da frescura da Vidigueira ou da costa Vicentina.

Também há na região uma aposta em castas antigas, vinhas velhas, talha e métodos com menos intervenção. Estamos perante uma verdadeira transformação da região ou também existe alguma componente de moda?

Os vinhos de talha estão no Alentejo desde a ocupação romana; encontram-se talhas milenares em vários pontos do território. O que ocorre atualmente é a redescoberta deste processo tradicional de vinificação por parte de novas gerações de enólogos (e de oleiros) que se orgulham e bem comunicam esta herança alentejana. Quanto às vinhas velhas e a redescoberta de castas como Moreto, faz parte desta relação simbiótica do enólogo com a vinha e com a sua sustentabilidade.

As alterações climáticas são um dos maiores desafios. Que mudanças já são visíveis na vinha e no perfil dos vinhos?

A barragem do Alqueva e o sistema hidráulico que continua a sua expansão no Baixo Alentejo mudaram estruturalmente a agricultura, em geral; a vinha também beneficia desta disponibilidade hídrica. As alterações climáticas são contrariadas com planos de sustentabilidade ambiental que já estão em marcha numa grande parte da produção alentejana: vindimas mais precoces e noturnas, o estudo de castas tradicionais mais aclimatadas ao território, a refundação das vinificações artesanais sinalizam a resposta proativa da fileira que assumiu a adoção da certificação formal de todos estes processos.

Num território sujeito a temperaturas extremas e escassez de água, é sustentável continuar a aumentar a área de vinha?

Creio que Portugal, em linha com os restantes países vitícolas tradicionais, já atingiu o limite das suas áreas de vinha. O desafio dos próximos anos é a reformatação das respetivas vinhas com vista à sua adaptação às alterações climáticas e a uma nova tipologia de consumidor de vinho cada vez mais consciente do impacto do álcool na sua saúde mas com vontade de vivenciar localmente a cultura do vinho.

O Alentejo foi, pioneiro na certificação da sustentabilidade. O consumidor está preparado para pagar essa diferenciação?

Somos todos consumidores dos recursos do planeta; o consumo desregrado e a tecnologia dos produtos baratos deixaram o planeta a um pequeno passo do ponto de não-retorno para a sobrevivência da espécie humana. Talvez não sintamos o perigo real no Alentejo, onde a excelente qualidade de vida nos coloca numa redoma, mas os eventos climáticos extremos no centro de Portugal, na Venezuela ou no Nepal, são sintomas de que o planeta está muito doente. O termómetro da temperatura da água dos oceanos, sobretudo no mar Mediterrâneo, não para de subir. A certificação da sustentabilidade ambiental é a sinalização de que os produtores alentejanos estão a fazer o que lhes cabe e atentos ao mundo exterior. E sim, os consumidores estão, cada vez mais, a escolher produtos com certificação ambiental e com baixa pegada de carbono.

Portugal produz vinho de grande qualidade, mas continua frequentemente a vendê-lo a preços relativamente baixos nos mercados internacionais. O Alentejo sofre do mesmo problema? O que falta para criar mais valor?

O preço médio dos vinhos portugueses no exterior continua a subir; Portugal continua a bater recordes de turismo, ultimamente com um tipo de turista que sai das praias e que busca o património, a gastronomia e o enoturismo. Ainda não temos uma estrutura administrativa que potencie o turismo cultural e de património: falta sinalização, comunicação, recursos especializados, limpeza e conforto nos locais de visita. Como disse anteriormente, o caminho que a fileira do vinho está a seguir é o correto; outros países, como Itália e França, levam-nos muitos anos de avanço.

Quais os grandes desafios para os vinhos do Alentejo nos próximos dez anos?

Continuar a olhar para a frente, na liderança do mercado nacional, e saber interpretar a envolvente, antecipando as tendências, criando novidade, diminuindo a perigosidade climática, atraindo pela segurança e qualidade de vida, investindo na autenticidade, no património gastronómico e no enoturismo.

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