António Costa Santos. Confissões de um alentejano por afinidade

Escritor e jornalista, o seu humor consegue transformar o 25 de Abril num romance de aventuras. Mas a sua maior aventura foi «adotar» um monte alentejano e tornar-se, como ele próprio afirma, «candidato a jovem agricultor».

Catarina Fonseca (texto)

Conheci-o «de nome», como se costuma dizer, toda a minha vida, mas só começámos a falar quando ficámos amigos com aspas no Facebook. Havíamos de ficar amigos sem aspas quando descobrimos que éramos vizinhos no Alentejo. Desde então, tentei tirar-lhe uma fotografia em que ele aparecesse na sua nova condição de «jovem agricultor», e desta vez não perdi a oportunidade. 

Ele fez-me a vontade e conversámos à sombra do chaparro (sempre quis dizer isto) numa tarde de quase 40 graus em que eu não parei de o chatear porque gostava muito que ele comprasse uns burros e acho que ele podia muito bem fazer-me a vontade (mas parece que aqui uma pessoa para chegar aos burros tem de passar primeiro pelas ovelhas, é uma espécie de módulo 1 da formação de «detentor de monte»).

Costa Santos é tão descontraído que uma pessoa nem repara que está diante de um dos nomes mais importantes do jornalismo português. Começou em 1976 no Diário (onde apanhou o PREC em cheio), depois foi chefe de redação do saudoso Sete, redator, editor e colunista do Expresso. Também fez tradução e guiões para cinema e televisão, ocupou durante anos o horário matinal da Antena 2 e publicou variadíssimos livros, entre os quais «Antes do 25 de Abril: Era proibido» ou «10 Razões para Amar e Odiar Portugal» (Editora Guerra & Paz).

Além de tudo isto ainda tem um casamento de séculos, quatro filhos fantásticos e, na verdade, para ser feliz só lhe faltam os burros (isto digo eu, pode ser que ele se comova).

«Hoje estive o dia todo a cortar palha e estou derreado», atira logo à partida. Acredito. O Alentejo não é para qualquer um. Como um agricultor também merece descansar, sentamo-nos os dois para conversarmos com mais calma, já que a palha está tratada.

Comecei pelo mais óbvio: como é que um lisboeta nativo de Cascais (achava eu) aterra num monte alentejano? E também comecei logo por ficar a saber qualquer coisa nova: este homem que aqui veem é um alentejano de gema. Enfim, quase. «Eu tenho uma grande ligação ao Alentejo. Além de ter um sogro alentejano, os meus pais passaram a lua de mel em Serpa e eu fui feito em Serpa, portanto sempre me recordaram que sou alentejano», explica.

Claro que de ter sido feito no Alentejo a vir morar para o Alentejo, ainda decorreram uns anos valentes. Tão valentes que deu para construir toda uma carreira no jornalismo. Mas há 10 anos, um amigo comprou um monte perto de Porto Covo e, como gostasse de ter vizinhos, começou a «puxar a brasa à sua sardinha». Mas os montes ali eram caros e António começou a procurar outros mais longe da praia. Foi então que chegaram à Azaruja, ao pé de Évora. Quando aqui entraram, ele, a mulher e a filha Adriana já tinham corrido 10 montes, mas apaixonaram-se imediatamente.

É fácil perceber porquê. Entre oliveiras, chaparros (acho eu), figueiras gigantes e uma casa agora reconstruída de onde se avista o castelo de Évora-Monte, quem não se apaixona por um sítio destes? Claro que nessa altura a casa — ou casas, se contarmos com a recuperação de uma casinha de ferramentas — ainda não era como é agora, mas já cá estava o monte, as árvores, o ar, o calor, e evidentemente o castelo de Évora-Monte (embora nessa altura ainda não se visse).

Foi o fim da busca: aqui chegaram e aqui ficaram. A ideia não era mudarem-se imediatamente, até porque a «herdade» precisava de obras, mas um projeto de futuro, como acabou por ser: agora dividem a semana entre Cascais e o Alentejo.

«Quando vens da cidade para aqui,

 reconheces os estereótipos todos»

No seu livro «Adeus, Cariño» uma personagem diz a propósito de outra: «O sonho dela era cobrir o Alentejo de salsa». Ainda hoje isto me faz rir. E ele, qual é o seu sonho? «O meu sonho como jovem agricultor é conseguir ter horta», explica. «Mas não é fácil. A constituição eu sei fazer, o pior é a manutenção. Mas gostava muito de ter muitas azeitonas, amêndoas e nozes. Também gostava de ter ovelhas, que limpam o terreno».

Pergunta de advogada do Diabo: entre tantos estrangeiros a comprarem montes, sente-se um filho do Alentejo ou um chegado ao Alentejo? Não tem ilusões e aqui nem a, digamos assim, costela por afinidade, lhe valeu. «Sempre gostei muito do Alentejo, mas é evidente que sou um dos que chegaram», admite. «As pessoas aqui olham para mim como mais um comprador, mais um tipo que veio de Lisboa e agora julga que vem ser agricultor. Mas sempre gostei muito do Alentejo e dos alentejanos».

Há um ser alentejano? «Há, há. E tu, quando vens da grande cidade para aqui, reconheces os estereótipos todos: o vagar, a sonsice, a matreirice. São todos verdade. Eu esperava que fossem uma piada, mas vou reconhecendo todos. Principalmente o humor. Há um humor alentejano que não tem nada a ver com as anedotas de alentejanos que o resto do país faz. O humor alentejano é muito especial. Um alentejano não chora, mas pode-se rir».

A propósito de chorar, quero saber como vê o jornalismo de hoje. Começou no jornalismo em 76, passou pelo Diário, pelo Sete, pelo Expresso, pela Antena 2, é natural que encontre mudanças… «Claro que sim. A principal é que deixou de haver escola e passou a haver universidade. Dantes aprendia-se com a tarimba, com os velhos jornalistas, e deixou de haver isso. As redações hoje não têm ninguém que ensine os estagiários. Por outro lado, há hoje a proletarização dos jornalistas. Nós nunca ganhámos muito, mas tínhamos uma carreira, e uma certa dignidade».

Ah sim, a dignidade perdeu-se. Aliás, basta ver-se qualquer série da Netflix. O jornalista é sempre o mau da fita, e é sempre um paparazzi sem escrúpulos… Estamos longe do Robert Redford e mesmo do Mark Ruffalo a fazerem de jornalistas impolutos e heróicos a batalharem pela verdade… «As redações agora são todas feitas por miúdos a recibos verdes, que ainda moram com os pais», nota Costa Santos. «Não têm a mínima hipótese de progredir, e se não fazem aquilo que os mandam fazer, há 200 à porta para ocuparem o lugar deles. Isto é o abandalhamento total da profissão. Acho que fui a última geração do jornalismo que saía da redação».

Para não chorarmos, peço-lhe que me conte uma história dos seus tempos de jovem jornalista. Sempre gostei de histórias de jornalistas, acho que são um filão por explorar. «A primeira que me vem à cabeça é muito ridícula», recorda a rir. «Eu era estagiário, tinha 19 anos, e houve um incêndio ali para o pé de Sintra. Eu cheguei lá com o bloco de notas, pedi para falar com o comandante dos bombeiros e perguntei: “Então diga-me lá como é que isto começou”. O homem responde: “Eu não sei, cheguei aqui e havia fogo aqui, fogo alhi, fogo aqui, fogo alhi”, e eu não me aguentei e desatei a rir à gargalhada na cara do homem que estava compreensivelmente transtornado. Portanto, a primeira história que me vem é esta insensibilidade de quem começa. O que eu me ri de uma coisa dramática só por causa do alhi… Ainda hoje às vezes murmuro para mim mesmo “fogo aqui, fogo alhi”» (risos).

Mais histórias: a do batismo de voo. «O meu batismo de voo foi feito em serviço, nuns exercícios militares que havia em Sagres», continua. «O [Ramalho] Eanes era presidente e os jornalistas foram acompanhar os exercícios num aviocar, um aviãozinho da Força Aérea. Isto foi em janeiro, o tempo estava péssimo, eu estava borrado de medo, mas ao meu lado estava uma miúda que foi o tempo todo a agarrar-me a mão e a perguntar “o que é este barulho?”, eu a dizer-lhe “Ah, isto é o motor a inverter”, tudo inventado, evidentemente, que eu nunca sequer tinha andado de avião. À minha frente ia um major, branco, lívido. De repente abriu-se a porta de trás e caiu todo o material da RTP, enfim, nunca mais tive medo de andar de avião».

Então e o Eanes, que lhe aconteceu? «Bem, o Eanes não ia nesse avião, ia noutro maior e mais sólido, mas ao entrar de um bote dos fuzileiros para a fragata, o mar estava tão agitado que o Eanes nunca mais conseguia agarrar a escada de corda, e às tantas ficou pendurado na escada, porque já tinha posto as mãos mas não tinha posto os pés. Resultado: ficou encharcado até às cuecas, e eu ri à gargalhada com um presidente sequinho da cintura para cima e molhado da cintura para baixo».

A vida nas redações — e principalmente fora delas — era bastante mais divertida… «Bem, nem sempre. Hoje não sei sequer se os jornais mandarão jornalistas para exercícios militares…».

Os tiques do Estado Novo que ainda não perdemos

Além de uma vida inteira «a apagar fogos», ainda escreveu variados livros, principalmente sobre as proibições durante o Estado Novo. Para quem nasceu depois do 25 de Abril ou já não se lembra, recordar que o quotidiano em Portugal nem sempre foi como é hoje torna-se especialmente importante.

Então e o que é que mais o choca, de todas as coisas que viveu e investigou? «Talvez a censura. Já não apanhei a censura, mas apanhei o PREC todo. Há coisas que, mais do que chorar, me espantam. Pequenas proibições como não poder sacudir o pano do pó, não poder beber coca-cola, não poder dar um beijo à namorada na rua… e a bufice. Eu, com 12 anos, andava de mãos dadas com a minha namorada na Feira do Livro para cima e para baixo, e alguém foi dizer à minha mãe que o António estava agarrado a uma mulher…», ri. «A vigilância era geral, todos se controlavam uns aos outros».

E, como nem toda a gente tem 18 anos, há «tiques» do Estado Novo que ainda não se perderam. «Os meus filhos já não têm isso, mas a minha geração ainda mantém esse tique da vigilância», nota Costa Santos. «Adoramos criticar e denunciar. Mas não é de admirar, foram 50 anos de apelo à bufice. Por exemplo, sabias que também era proibido ter isqueiro sem licença, e os denunciantes dos isqueiros tinham mesmo direito a uma parte da multa. Portanto, a bufice estava instituída ao nível mais miserável».

Ainda somos um povo com medo? «Sim, a ideia do respeitinho… Pelo doutor, pelo tipo com dinheiro, por quem tem um carro de gama alta que é tratado na oficina com muito mais deferência… Conto-te mais uma história a este respeito: uma vez precisei de mudar os pneus e na oficina foram muito simpáticos comigo. Mas a minha chave do carro tinha uma etiqueta que dizia “Doutora Cristina”, de uma altura em que alguém noutra oficina tinha ficado com a chave da minha mulher. E, a partir dessa altura, quando viram a chave, também eu fui tratado por Doutor António. Era doutor por afinidade… E a relação que tinham comigo deixou de ser uma relação normal com um tipo que lá vai comprar uns pneus para se tornar numa relação de subserviência».

Voltando aos livros: acredito que hoje, mais do que nunca, seja importante haver quem fale do 25 de Abril, porque há cada vez mais gente que não só não estava cá como a quem nada foi contado. Ele concorda. «Para os miúdos aquilo é outro mundo. Por volta do 25 de Abril vou sempre a escolas falar com os miúdos, e eles ou não acreditam ou ficam espantados. Os pais não falam com eles porque se calhar também ninguém falou com os pais, eles próprios já nascidos depois do 25 de Abril. Os avós é que passaram por estas coisas e não falaram suficientemente com os filhos. Há um generation gap aqui. E também ninguém fala da guerra colonial. São traumas muito poderosos».

Já agora, onde estava no 25 de Abril? «Ia fazer 17 anos, estava em Lisboa, no liceu Pedro Nunes. Era colega de turma do neto do Américo Thomás, e da fina flor do regime. Depois do 25 de Abril desapareceram, a maioria foi para o Brasil. Eu era a ralé do grupo». Nota que, nessa altura, aos 17 anos, era comum ser-se mais adulto e muito politizado. «Eu, uns dias antes do 25 de Abril, em março, andava a distribuir jornais do PAIGC. Quem me levou para essa vida? Amigos, provavelmente. Nessa altura os miúdos envolviam-se muito».

Então, mas conte-me lá o dia em si. «O meu pai foi acordar-me por volta das 5h00 da manhã, a dizer “houve um golpe, ainda não sabemos de quem”», recorda. Nessa altura ainda não se sabia se a revolta era «dos bons» ou «dos maus», e portanto o pai instruiu-o para ficar em casa e ouvir os comunicados da rádio. Instrução que o filho, como é óbvio, não seguiu: «A primeira coisa que eu fiz foi sair de casa a correr. O meu pai saiu e eu saí também».

Na rua estava um ambiente estranho. «Eu morava na avenida da Liberdade e fui para o Carmo. E pelas escadinhas do Duque acima estava uma série de GNRs de cócoras, agachados, com as G3 apontadas. Mas já se sentia a euforia da liberdade. As pessoas já nesse dia estavam a celebrar o golpe. Curiosamente, não tive medo, e acho que ninguém teve medo, enfim, tirando os PIDE e os fascistas, claro».

Sentia que estava a viver um momento histórico? «Não. Só depois é que se teve consciência da verdadeira dimensão daquele dia. Nesse momento só pensávamos que tudo aquilo ia cair, e sentiu-se logo a euforia da liberdade».

Pergunta de velha do Restelo: então e o que falta cumprir? À minha frente está uma alma otimista: «Ao contrário do que tu possas esperar, eu acho que se cumpriu quase tudo. Porque as pessoas hoje já não se lembram de como aquilo era mau. Claro que há coisas que se calhar eu gostava que já estivessem mais avançadas, mas lembro-me sempre de como a vida era dantes…».

«Surpreende-me imenso 

a capacidade de perdão»

Também gosto muito do livro «10 Razões para Amar e Odiar Portugal», por isso quero saber: uma coisa boa e uma coisa má de Portugal. «Coisa má é essa subserviência, esse respeitinho, a ideia de que o respeitinho é muito bonito, a lambe-botice», defende. Coisas boas há muitas. «Eu escolheria talvez a relação que os portugueses têm com as crianças. Eu, como vivi na Checoslováquia, dou muito valor à ideia de que os filhos são da comunidade. Não vou tão longe, mas acho que nós gostamos genuinamente de crianças e, quando vês algum miúdo na rua a fazer uma asneira, mesmo que não seja teu, vais lá tratar da situação. Acho que temos a noção de que as crianças são uma responsabilidade coletiva. Então, comparado com os povos do norte, cuidamos bem das crianças, as nossas e as dos outros. Por exemplo, em criança gostava de andar à chuva e lembro-me de desconhecidos que me ralhavam no meio da rua: “Ó menino, vai para casa que te constipas”» (risos).

Ele próprio é um orgulhoso pai de quatro filhos, mas afirma que não gosta daquela ideia superior de estar a «formar» alguém. «Para mim ser pai é crescer com outras pessoas, mais do que aquela ideia de educar alguém. Agora tem de ser tudo ‘by the book’, os miúdos têm de cumprir todas as mesmas etapas quando eles são todos diferentes… Há que ir observando e adaptando, e estar preparado para surpresas. Ser pai é navegar à vista».

Como comecei por vos contar, este homem é, tal como eu, um Facebooker assíduo. Temos essa falha em comum. Mas o que é que lhe dá e o que é que lhe tira? «Tira-me tempo. Mas divirto-me muito. Dá-me um prazer enorme. Uso sobretudo para defender grandes causas ou para me divertir. Mas o que eu mais gosto é que, quando ponho uma piada, os comentários ainda têm mais piada do que a piada que lá pus. Mas claro que há imensa gente que não tem nenhum sentido de humor e não percebe a ironia, o que me transtorna. Porque na escrita é muito difícil fazer ironia. É parvo fazer-se uma piada e depois explicar a piada. Portanto, como a ironia não é uma coisa óbvia e a malta agora só percebe o que é óbvio, aquilo é mal entendido por imensa gente».

É raro «passar-se», como acontece tantas vezes com outros «navegantes», até porque não é homem de grandes ofensas. Mas é um homem de causas. «Já desamiguei imensa gente, principalmente por ocasião da guerra da Ucrânia e agora com Israel e Gaza. E bloqueei pessoas que conheço pessoalmente. Mas quanto às minhas piadolas, nunca me passei. Não me levo tão a sério».

Então e um desafio de jornalista, para acabar: se pudesse entrevistar alguém vivo ou morto, quem seria? E qual seria a primeira pergunta que lhe faria? «Ai, vivo ou morto é muita gente! Mas se calhar escolheria o Hitler. E a primeira pergunta que lhe fazia era: “Importa-se de tomar esta cápsula de cianeto?”», desatamos a rir. Esta seria de facto uma entrevista que mudaria o rumo da Humanidade… «A sério, gostava de entrevistar o Nelson Mandela, por exemplo. E a primeira pergunta que lhe faria era: “Como é que conseguiu ser tão paciente e não se ter tornado uma pessoa fria?” Faz-me imensa impressão como é que ele conseguiu dar a mão aos seus carrascos e inimigos durante tanto tempo. A mim surpreende-me imenso a capacidade de perdão, porque eu não perdoo».

Se calhar o perdão está sobrevalorizado. Porque havemos de perdoar sacanas? «Exatamente. Coisas verdadeiramente importantes não perdoo e acho que não devo perdoar. Coisas menores, nem lhes ligo. Não sou muito de me ofender».

Há alguma palavra que tenha embirrado consigo logo desde o princípio? «Embirrado não sei, mas um amor à primeira vista foi, por exemplo, alguidar. Acho uma palavra tão bonita. Um tipo alemão viveu cá em Portugal uns anos e depois chamou Alguidar ao filho», ri.

Ok, fiquemo-nos então com alguidar. É uma boa palavra para acabar esta entrevista.

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