Aos 50 anos, UMAR dispensa pessoal e pede fundos para não fechar projetos

A União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) dispensou pessoas dos seus projetos e lançou uma recolha de fundos para os manter em funcionamento, no ano em que assinala meio século de existência, revelou a fundadora e dirigente Maria Idalina Rodrigues.

«De facto tivemos de reduzir as pessoas que estavam a trabalhar nesses projetos devido a esse estrangulamento», afirma Maria Idalina Rodrigues, explicando que a recolha de fundos, associada às comemorações do aniversário, se deve prolongar até ao final do ano.

Apesar dos cortes nas equipas, nenhum projeto foi até agora abandonado. «Por enquanto, nós ainda estamos a mantê-los, com dificuldade, mas estamos a manter», revela, adiantando que a continuidade do trabalho dependerá das respostas a candidaturas ainda pendentes.

Os projetos abrangem áreas como a igualdade de género, o combate ao assédio sexual e a intervenção nas escolas, esta última a que mais preocupa a dirigente. «Os jovens são o futuro», afirma, classificando o trabalho já feito como «muito positivo» e admitindo que seria motivo de «muita mágoa» deixar de ter condições para o prosseguir.

Maria Idalina Rodrigues evita atribuir as dificuldades às políticas do Governo, precisamente porque aguarda essas decisões. «Não quero estar a fazer uma análise que pode ser abusiva (…). A seu tempo, nós o diremos», diz, salientando que a associação estabeleceu «algumas pontes e alguma abertura» com responsáveis governamentais.

Os constrangimentos não são inéditos: a década de 1980 foi igualmente difícil e a organização atravessou outro momento complicado quando perdeu a sede num incêndio. «Temos atravessado vários períodos de dificuldade», recorda, considerando que o atual é «mais um deles».

Meio século depois da fundação, a dirigente considera que os problemas que afetavam as mulheres persistem e que a igualdade de género continua a exigir luta, educação e mobilização. Tinha 22 anos quando aconteceu o 25 de Abril e recorda um país marcado pelo analfabetismo, pela desigualdade salarial, pela falta de habitação e pelo aborto clandestino.

Segundo a fundadora, 31% das mulheres eram analfabetas, não existia igualdade salarial e cerca de 25% da população não tinha casa ou vivia em bairros de barracas. Em 1974, estimavam-se em 100 mil os abortos clandestinos por ano, com mulheres a morrerem na sequência dessas intervenções.

Depois do 25 de Abril, as mulheres participaram nas lutas nas fábricas e nos bairros, reivindicando postos de trabalho, creches, salário igual para trabalho igual, habitação digna e alfabetização. Foi nesse contexto que surgiu a organização, para dar visibilidade aos seus problemas e ajudá-las a ganhar confiança para defender os direitos.

Muitas começaram então a falar pela primeira vez em plenários e reuniões, assumindo reivindicações que até aí tinham pouca expressão pública. «Iguais na lei, iguais na vida» tornou-se uma das palavras de ordem da UMAR, sintetizando uma luta que, para a fundadora, não terminava com o reconhecimento formal de direitos.

Uma das batalhas do percurso foi a interrupção voluntária da gravidez: mesmo depois de aprovada legislação que a permitia em certas circunstâncias, muitas continuaram sem conseguir aceder a ela nos hospitais e clínicas e algumas chegaram a ser julgadas.

Ao longo de cinco décadas, a intervenção alargou-se à violência doméstica, à educação para a igualdade e ao idadismo, e junto dos mais jovens passa por desconstruir estereótipos de género e abordar o discurso de ódio, o assédio e a violência no namoro.

«Na minha opinião, acho que o balanço que nós podemos hoje [fazer], ao fim de 50 anos, é orgulharmo-nos do trabalho que fizemos durante estes 50 anos», conclui, a propósito de uma luta «que não se esgota».

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