No triângulo constituído por Borba, Estremoz e Vila Viçosa chamam-lhe «ouro branco». E é de ouro que se fala nestas três localidades quando se contabilizam os valores das exportações do mármore saído das pedreiras locais em 2025, com quase 97 milhões de euros somados. Uma indústria que a nível local se destaca das restantes, mas que, ainda assim, não vive os seus melhores dias.
A conjuntura internacional, marcada por guerras e inflação galopante, fez com que nos dois últimos anos a atividade tenha decaído e afetado grande parte da produção alentejana. Na Zona dos Mármores, como é conhecida a região, das mais de 200 pedreiras registadas, apenas 69 estão atualmente a extrair.
O menor fulgor produtivo da Zona dos Mármores não faz com que a indústria tenha deixado de ser o principal motor. Tiago Salgueiro, vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Viçosa, o concelho onde existem mais pedreiras, diz que esta atividade continua a ser dominante. «É o setor mais importante em termos de empregabilidade na região. Não só devido aos postos de trabalho diretos, mas também pelo que movimenta, seja em termos de transportes, na indústria transformadora, no comércio.»
A verdade é que as pedreiras de mármore não vivem agora o período áureo de há 30 ou 40 anos, quando diversos países do Médio Oriente ali se abasteciam de uma rocha com características únicas em termos de versatilidade. A Arábia Saudita, o Líbano ou o Kuwait eram, então, alguns dos mais relevantes importadores. Hoje, de acordo com a Assimagra, a associação que trata das estatísticas e que congrega outros elementos relacionados com o negócio, estes três países estão longe do fulgor de outras épocas, representando pouco mais de 13% das exportações e tendo valido, no ano passado, cerca de 13 milhões de euros.
No topo dos compradores do mármore alentejano encontram-se atualmente os importadores chineses, que em 2025 foram responsáveis por 18,4% das compras, perfazendo um total de quase 18 milhões de euros. A França surge na segunda posição, com 13 milhões de euros que correspondem a 13,4% das exportações. O terceiro lugar é ocupado pela Índia, que gastou 11 milhões correspondentes a 11,4% do mercado. A lista da Assimagra, para além dos países já referidos, inclui também os Estados Unidos da América, Itália, Reino Unido, Espanha, Suécia e Bélgica.
Tendo por base os dados estatísticos do INE, a Assimagra refere que a indústria de extração e transformação de mármore no Alentejo se resume agora a apenas 69 empresas. Estas contribuem, no entanto, para 0,14% do Produto Interno Bruto. Vila Viçosa é, como acontece desde a década de 1950, quando a indústria extrativa se iniciou na região, o concelho com mais pedreiras e empresas associadas à fabricação de artigos de mármore: são 39. Em Borba existem atualmente 17 empresas e em Estremoz laboram 12.
Para Nuno Cristo, diretor de internacionalização da Assimagra, existem seis razões fundamentais para o período de menor fulgor por que passam as pedreiras. Por um lado, explica, existe uma contração da construção civil europeia, cujos principais mercados passam por dificuldades ligadas ao aumento da inflação. Alemanha, França, Reino Unido e Bélgica têm registado diminuições acentuadas, sendo que «só a Alemanha registou uma quebra de 56,68% nas transações em janeiro de 2024».
Depois, ainda de acordo com o mesmo responsável, existem abrandamentos imobiliários em mercados-chave, como por exemplo o chinês. Também a Arábia Saudita registou quebras, relativamente às compras no Alentejo, de 21%. Nuno Cristo refere ainda que países como a Turquia, a Índia, a China e o Brasil «reforçaram as suas ofertas com preços mais competitivos, pressionando o mármore português nos segmentos de menor valor acrescentado».
«Em 2025» — prossegue — «as exportações para os EUA passaram a enfrentar uma taxa alfandegária de 15% (anteriormente era de zero), que somada à desvalorização do dólar face ao euro resultou num encarecimento para os compradores americanos estimado em 40%».
Há um acontecimento trágico, ocorrido em novembro de 2018, constantemente associado ao declínio dos mármores no triângulo alentejano. O aluimento de terras que provocou a morte de cinco pessoas na Estrada Municipal 255 acaba por colocar em evidência as condições de segurança das pedreiras.
Nuno Cristo recorda que essa derrocada «desencadeou um processo de reforço da fiscalização que conduziu a insegurança jurídica e a um número significativo de pedreiras sem licença atualizada, afetando negativamente o investimento e a capacidade produtiva».
Por fim, entende que atualmente existe uma «estrutura empresarial fragmentada» e também «escassez de mão de obra». «A predominância de pequenas e microempresas constitui uma vulnerabilidade estrutural que amplifica o impacto de qualquer abrandamento conjuntural. A escassez de mão de obra qualificada limita adicionalmente a capacidade produtiva», acrescenta.
Novos usos
As crateras deixadas na paisagem podem ganhar novos usos. A água acumulada nas pedreiras desativadas é vista como oportunidade para fins agrícolas e para a rega de jardins e limpeza de espaços públicos nas freguesias.
«Existem, de facto, alguns projetos que estão a ser estudados tendo em perspetiva o aproveitamento dos recursos hídricos», diz Tiago Salgueiro, vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Viçosa. Quanto ao «aproveitamento turístico», está no terreno a Rota do Mármore, apostada em «valorizar a visita por lugares únicos» da história e património da região, mostrando «a diversidade de monumentos e locais onde o mármore tem sido aplicado na melhor expressão artística». E o município quer fomentar as visitas ao Museu do Mármore Raquel de Castro, instalado na pedreira da Gradinha.
Fotografia: China é o principal importador de mármore alentejano. © Nuno Veiga/Lusa/Arquivo










