A peça foi recuperada no setor sul do edifício principal do sítio e conserva uma rica decoração figurativa: na parte frontal aparece representado um Aqueloo, divindade fluvial que poderá estar associada ao inframundo pela sua gestualidade; nos laterais figuram dois grifos, seres mitológicos com cabeça de águia e corpo de leão; e nos extremos, duas figuras humanas de braços erguidos sustentam a estrutura, que assenta sobre duas rodas igualmente decoradas.
«É um dos achados mais relevantes realizados até à data neste sítio tartéssico do século V a. C.», sublinha Esther Rodríguez, codirectora das escavações.
Quanto à sua origem, a equipa de investigação aponta para a civilização etrusca — que viveu o seu período de maior esplendor na Itália central entre os séculos VIII e V a. C. — como único paralelo conhecido para peças semelhantes. Este paralelismo reforça a hipótese de que o carro chegou ao sudoeste peninsular através das redes de intercâmbio que ligavam Tartesso a distintos territórios do Mediterrâneo.
A função da peça está ainda por determinar, mas Sebastián Celestino, codirector das escavações, avança que «poderia estar relacionada com atividades rituais vinculadas fundamentalmente com os banquetes. De facto, a descoberta teve lugar ao lado da chamada habitação do banquete, um testemunho do ágape final que a comunidade do Turuñuelo celebrou antes de encerrar o edifício».
Junto ao carro foi recuperado um conjunto significativo de materiais importados: cerâmica proveniente da região da Ática, na Grécia, um recipiente de alabastro egípcio e marfins decorados com representações de guerreiros e motivos animais e vegetais.
«Estes materiais estão a proporcionar-nos uma informação extraordinária para compreender as relações comerciais entre o Oriente e a península ibérica. Estamos a documentar importações e peças únicas que ajudam a reconstruir estas redes de intercâmbio», explica Esther Rodríguez.
A campanha, desenvolvida durante os meses de abril e maio, centrou-se nos sectores norte e sul do túmulo de 90 metros de diâmetro e seis de altura sob o qual foi selado intencionalmente o edifício principal, em finais do século V a. C.
«Os trabalhos permitiram documentar novas divisões e espaços de circulação que ampliam o conhecimento sobre a arquitetura do complexo tartéssico, cujo estado de conservação continua a ser excecional», refere Rodríguez. No setor norte foram ainda recuperados dois braseiros e um caldeirão de bronze.
Com a fase de campo concluída, o projeto entra agora numa etapa de restauro, documentação e análise das peças. «A segunda fase de toda a escavação arqueológica é indispensável. Agora começa um trabalho fundamental que nos permitirá compreender melhor a funcionalidade dos espaços, as relações comerciais e, em definitivo, a vida de quem habitou este lugar», sublinha a investigadora.
Os trabalhos de conservação e restauro decorrem no Serviço de Conservação, Restauro e Estudos Científicos do Património Arqueológico (SECYR) da Universidade Autónoma de Madrid.
Os achados foram apresentados na sede do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) em Madrid pelos diretores do projeto, pela presidente do CSIC, Eloísa del Pino, e pela conselheira de Indústria, Energia, Ciência e Território da Junta da Extremadura espanhola, Mercedes Morán.
A conselheira destacou que o sítio «se tornou, pelos seus próprios méritos, numa das grandes referências da arqueologia europeia», acrescentando que se trata de «um sítio que está a transformar o conhecimento científico sobre Tartesso e ao mesmo tempo está a colocar a Extremadura no centro de algumas das investigações mais relevantes sobre as culturas do Mediterrâneo antigo».
Del Pino salientou que «Casas del Turuñuelo é um exemplo de como a constância e o apoio sustentado à ciência a longo prazo dão frutos», e que o CSIC concebe «a arqueologia como uma disciplina científica de vanguarda que, além de poder reescrever a história, gera um retorno direto à sociedade sob a forma de identidade, cultura e conhecimento científico de máximo nível».
Ao longo de mais de uma década de escavações, o sítio tem entregue uma sucessão de achados notáveis: em 2017, os restos do maior sacrifício de animais no Mediterrâneo ocidental; em 2023, as primeiras representações humanas de Tartesso; em 2024, uma placa de xisto com cenas de guerreiros gravadas e um abecedário em escrita paleohispânica meridional; e em 2025, o altar de mármore grego mais antigo do Mediterrâneo ocidental.









