Artigo do arqueólogo José Rui Santos: “As termas de Ebora Liberalitas Iulia”

As termas romanas de Évora, localizadas sob os atuais Paços do Concelho, constituem um dos mais relevantes testemunhos da romanização da cidade, revelando não apenas a adoção de um modelo urbano e social “à moda romana”, mas também uma longa utilização diacrónica do espaço, desde a época imperial até aos períodos islâmico, medieval e contemporâneo.

José Rui Santos (texto) e Nuno Veiga/Lusa (fotografia)


Durante o século I a.C., e após o domínio sobre povos locais, que habitariam no castro localizado no Alto de S. Bento, os romanos iniciaram um processo de edificação urbana, baseada no modelo vitroviano de Roma. Deslocaram as populações indígenas para este outro local, onde se ergueram os edifícios fundamentais para possibilitar um estilo de vida “à moda romana”(1).

Em Évora são diversos os monumentos/espaços de génese romana que chegaram até aos nossos dias, nomeadamente o templo/ fórum, o aqueduto, e as essenciais termas públicas.

Por baixo do edifício dos Paços do Concelho de Évora existem vestígios arqueológicos e arquitetónicos do espaço que outrora funcionara como banhos públicos da cidade de Ebora Liberalitas Iulia(2) – foram descobertas em 1987, por acaso, aquando das obras de remodelação da sala aí então existente (Correia, 1988, pp. 312-317), tendo sido intervencionadas em diversas campanhas por Virgílio Correia e por Panagiotis Sarantopoulos, por este ultimo durante vários anos (Correia, 1990; Sarantopoulos, 1986/87,1994,1995).

Durante a época romana, as termas públicas eram conhecidas pela sua importância social e cultural, eram compostas por várias estâncias, desenhando um percurso ideal, promovendo o entretenimento e a sociabilização, a higiene e o bem-estar.

Das termas romanas de Évora são conhecidos diversos espaços, tais como o laconicum (zona de relaxamento com banhos de vapor), o praefurnium (a fornalha), natatio (piscina ao ar livre) e o recentemente descoberto frigidarium (sala de banhos frios). Calcula-se que uma grande parte deste monumento ainda se mantenha debaixo do subsolo, ocupando a quase totalidade da área correspondente ao atual edifício municipal.

Trata-se de um espaço com uma utilização diacrónica, de onde foram exumados vestígios materiais com cronologias didiversas. Com o términos da sua função termal, as estruturas foram reaproveitadas para outras funcionalidades durante os períodos de ocupação Islâmico e Medieval (Correia, 1990, pp. 27-36). No interior do laconicum é possível observar um silo, cuja cronologia é islâmica e que remete para o armazenamento de alimentos em ambiente doméstico.

A natatio serviu como vazadouro de lixos domésticos durante diversos séculos (VIII – XII d.C.), tendo sido encontradas peças enquadráveis na cultura islâmica neste local (Lopes, 2012). 

Durante a época medieval cristã, o espaço era conhecido por “Castelo Velho”, e até 1450 ocupava o espaço a atual de Praça de Sertório. Entre 1481 e 1534 pertenceu a D. Luís da Silveira, 1.º Conde de Sortelha e guarda-mor de D. João III (Pereira, 2001, p. 438).(3)

Em finais de 1800 foi parcialmente derrubado para acolher as instalações dos atuais Paços do Concelho (Patrocínio, 2007, p. 138), após ser adquirido, em 1881, pela vereação presidida pelo conselheiro José Carlos Gouveia. Entre 1910/1911, o edifício sofreu profundas alterações na sua arquitetura, que contemplaram a construção duma escadaria de honra, varandim e cobertura, que ainda hoje se mantêm (Pereira, 2001, p. 438), sofrendo nova supressão nos anos 40 para dar lugar à atual Rua de Olivença (Pereira, 2001, p. 439).(4)

Em 2017 o Município de Évora retomou os trabalhos no monumento, sobretudo ao nível do levantamento gráfico e da realização da “situação de referência”(5), tendo sido em 2019/2020 levada a cabo uma campanha arqueológica para concluir os trabalhos iniciados nos anos 80, com o objetivo principal de atingir os níveis de circulação e recolher a maior quantidade possível de informação sobre o monumento, preparando-o assim para um projeto de musealização.

A grande descoberta desta escavação foi uma estrutura de forma circular, que se encontra à mesma cota topográfica que a parede exterior do laconicum, podendo fazer parte de uma outra sala com exatamente o mesmo diâmetro que este. O fundo encontrava-se coberto por uma camada de opus signinum [material de construção utilizado na Roma antiga], sendo que no rodapé foram encontrados vestígios de argamassa de uma canelura, característica de espaços que serviam para ter água no seu interior. Tendo em conta o facto de estar próximo da natatio, bem como a inexistência de quaisquer fornalhas associadas, trata-se, provavelmente do frigidarium das termas(6).

Foi também exumado um conjunto significativo de material arqueológico, bem como faunas e níveis de estratos relacionados com a queima de material biológico. Do acerco destacam-se elementos arquitetónicos em mármore, revestimento de paredes, e um conjunto de cerâmica de importação riquíssimo, os quais ajudaram a datar cronologicamente o momento da fundação do monumento no século II d.C. 

NOTAS:

(1) Localização atual da cidade de Évora, devido provavelmente às condições ideais para a criação de uma cidade com uma escala maior, nomeadamente o fornecimento de água através de um aqueduto, o qual já se comprovou a sua existência – vide SANTOS, José Rui, “Intervenção Arqueológica no Aqueduto da Água da Prata, O Aqueduto da Água da Prata e o Património Hidráulico de Évora”, Catálogo da Exposição, Câmara Municipal de Évora, 2018.

(2) (…) os ópidos de direito latino antigo (‘oppidum Latii antiqui/ueteris’) são Ebora, também chamada Liberalitas lulia, Mirtilis e Salacia. Plinio, IV 117.

(3) SARMENTO, Ricardo, SANTOS, José Rui, BASÍLIO, Eva, LEAL, Rosária – “As termas romanas de Ebora Liberalitas Ivlia – campanha arqueológica de 2019/2020”, Atas XI Encontro de Arqueologia do Sudoeste Peninsular, 2025, Loulé, Pp. 397.

(4) Idem, Pp. 398.

(5) BASÍLIO, Eva – “As Termas Romanas da Praça de Sertório, Évora – 3 Décadas de avanços e recuos”, III Série, Nr 4, Boletim da Cidade de Évora, 2023, Câmara Municipal de Évora.

(6) Ibidem, Pp. 401.

O autor do texto é arqueólogo

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