Azeite português em alta com aposta firme na sustentabilidade

Apesar de a atual campanha de azeite dever registar uma quebra de produção na ordem
dos 20%, penalizada pelas condições climáticas adversas, o sector nacional mantém uma trajetória de crescimento sustentado, assente na modernização do olival, na valorização da qualidade e numa aposta firme na sustentabilidade, que reforça a competitividade e o posicionamento internacional do azeite português. Aníbal Fernandes (texto)

A produção de azeite em Portugal deverá sofrer nesta campanha uma redução de cerca 20% em relação à anterior. Quem o afirma é a Ollivum – Associação de Olivicultores e Lagares de Portugal, a mais representativa do sector, que apresenta como causas as condições climáticas adversas em 2025, nomeadamente, a seca e o calor excessivo.

No entanto, perspetiva-se um aumento significativo da qualidade do azeite que deverá ser, na sua maioria, classificado como virgem extra e com um grau de acidez muito baixo. Em consequência deste cenário de redução da oferta, poderá acontecer um aumento do preço para os consumidores.

Um estudo recente realizado pela empresa Consulai para a Olivum, explica que o sector mudou nos últimos anos com o Alentejo a destacar-se por “liderar a olivicultura internacional”, muito devido ao efeito Alqueva, às “excelentes condições edafoclimáticas” e à utilização dos métodos de produção mais modernos disponíveis.

A produção mundial de azeite tem registado um aumento exponencial na última década e Portugal está entre os seis maiores produtores, mas é expectável que em breve possa estar entre os três primeiros. Na campanha de 2024/25 o ranking mundial continuou a ser liderado por Espanha (1.289 mil toneladas), seguindo-se a Turquia (450 mil), Tunísia (340 mil), Grécia (250 mil), Itália (224 mil) e Portugal (195 mil).

Mas existem diferenças na qualidade: enquanto em Portugal 95 por cento da produção é de azeite virgem e virgem extra, Espanha regista apenas 72 por cento. Este facto, salienta o estudo, resulta de em Portugal existir uma “elevada percentagem de olivais modernos e mecanizados, mas também uma grande evolução dos lagares de azeite” que, neste momento, são os mais modernos e com maior capacidade do mundo.

Nas últimas duas décadas, Portugal passou de 24.600 toneladas, em 2000/01, para 210 mil, para 195 mil na última campanha, um crescimento na ordem dos 800 por cento. Para isso contribui a elevada percentagem de olival moderno que, ao contrário do tradicional, não está dependente das condições climáticas e garante uma produção mais estável. Nos últimos anos, as altas temperaturas e fraca pluviosidade afetaram tanto a recuperação da oliveira como o seu crescimento e floração, o que teve um impacto muito maior nas zonas de produção tradicional.

Em Portugal, apesar do olival existir em todo o território, é o Alentejo que representa mais de 50 por cento da área deste tipo de exploração, seguido por Trás-os-Montes e Beira Interior, sendo que nos últimos anos se tem assistido a um aumento da área cultivada, principalmente na zona do Alqueva. Em 2021, a produção nacional ultrapassou as 200 mil toneladas de azeite, a maior produção de sempre, muito por causa de condições meteorológicas favoráveis ao longo da campanha, “principalmente durante a floração e vingamento dos frutos, do aumento da importância dos olivais modernos e o facto de ter sido um ano de safra”.

Em termos de produtividade média de azeitona assistiu-se a um aumento de 0,7 para 2,1 toneladas de azeitona por hectare, três vezes mais, o que resulta “da aplicação de tecnologia em agricultura com a instalação de olivais modernos, e eficientes, de regadio”.

Apesar da perceção de que, neste sector, Portugal tem uma forte vertente exportadora, “a verdade é que só nos últimos anos, e fruto da recente modernização sectorial, é que fomos capazes de inverter a enorme dependência de importações”, sublinha o estudo da Consulai.

Há 20 anos, em 2005, Portugal importava cerca 60 mil toneladas de azeite, produzia cerca de 30 mil toneladas e exportava 23 mil. Um cenário que se manteve até 2014, o primeiro ano em que as exportações, em quantidade, ultrapassaram o valor das importações. Entretanto, desde 2018, as exportações nacionais de azeite têm crescido de forma muito consistente, sendo que em 2022 atingiram um valor superior a 930 milhões de euros, colocando Portugal como o terceiro maior exportador mundial de azeite. Um aumento, em duas décadas, de 12 vezes em volume e 18 em valor.

Aposta na sustentabilidade

Em maio de 2022, a Olivum lançou o Programa de Sustentabilidade do Azeite do Alentejo (PSAA), uma iniciativa “única no mundo”, numa parceria com a Universidade de Évora, tendo como objetivo a promoção e reconhecimento de práticas sustentáveis ao longo de toda a cadeia de valor do azeite.

Este programa, que pretende ser um guia para o desenvolvimento sustentável e um instrumento de valorização do azeite nos mercados nacionais e internacionais viu agora ser concluído o sistema de certificação do Programa de Sustentabilidade do Azeite (PSA), “com o propósito de posicionar Portugal na vanguarda da produção sustentável de azeite a nível global”.

O projeto foi desenvolvido por uma equipa multidisciplinar de 18 especialistas da Universidade de Évora, liderada por Raquel Lucas, tendo determinado os “98 critérios, distribuídos por 26 capítulos, que permitirão aos produtores olivícolas obterem uma certificação de sustentabilidade”.

Segundo Gonçalo Moreira, gestor do programa, “inicialmente concebido como o Programa de Sustentabilidade do Azeite (PSA) do Alentejo, o projeto assume agora uma dimensão nacional, refletindo a ambição de criar um impacto transversal em todo o sector oleícola português”.

Fotografia: Nuno Veiga/Lusa/Arquivo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Partilhar artigo:

ASSINE AQUI A SUA REVISTA

Opinião

CARLOS LEITÃO
Crónicas

BRUNO HORTA SOARES
É p'ra hoje ou p'ra amanhã

Caro? O azeite?

PUBLICIDADE

© 2026 Alentejo Ilustrado. Todos os direitos reservados.

Desenvolvido por WebTech.

Assinar revista

Apoie o jornalismo independente. Assine a Alentejo Ilustrado durante um ano, por 30,00 euros (IVA e portes incluídos)

Pesquisar artigo

Procurar