No novo álbum, Bárbara Bandeira continua o projeto iniciado em março de 2025 com «Lusa: ato I», que serviu de introdução «para explicar o que vinha aí».
«Para explicarmos que isto vai ser uma fusão entre raízes portuguesas, raízes brasileiras, sendo que eu tenho um pouco dos dois mundos dentro de mim [a mãe é brasileira e o pai português], e vai passar pela lusofonia toda. É basicamente uma celebração da língua portuguesa e da música feita em português», diz a cantora.
O projeto terá quatro atos, cada um com «uma estética, um conceito completamente diferente e uma sonoridade diferente também». O ato II é o da «portugalidade», aquele em que Bárbara Bandeira se propôs a conhecer mais sobre si e a cultura portuguesa.
«Acho que cada vez mais é importante, principalmente para a minha geração, questionar-se e querer saber o que é isto de ser português, o que é que faz de nós culturalmente tão ricos como somos. É uma pergunta que acabei por me fazer no decorrer deste processo e deste projeto, e que me tem enriquecido muito culturalmente», sublinha.
Bárbara Bandeira, de 24 anos, filha de uma brasileira, de Fortaleza, e de um português, o cantor Rui Bandeira, fala no projeto «Lusa» como «uma descoberta pessoal também, não só artística». «Sinto que tenho aprendido muito sobre mim e sobre nós, portugueses num todo, à medida que vou fazendo este processo».
Para a ajudar, contou com as cantoras Carolina Deslandes e Ella Nor nas letras, e com os produtores Migz e Ariel, «que são uma constante ao longo deste projeto». «São eles que acabam por desenvolver cada ato comigo e foram buscar também alguns dos elementos tradicionais portugueses».
Num álbum dedicado à portugalidade, não poderia faltar o fado — neste caso um dueto, em «Rapariga», com aquela que é considerada a maior figura do género: Amália Rodrigues. O tema, da autoria da fadista e do guitarrista Carlos Gonçalves, foi gravado em 1989 mas nunca antes editado. Bárbara Bandeira chegou a ele depois de saber que existiam várias gravações de canções inéditas.
«Quando fui falar com o Francisco Vasconcelos [diretor-geral da Valentim de Carvalho, editora de Amália], ele confirmou-me que sim, que essas gravações existiam. Algumas delas foram lançadas ao longo destes últimos anos, outras talvez venham a ser lançadas no futuro, acredito eu», recorda.
Antes de dar autorização para que a cantora pudesse aceder às gravações, o diretor-geral da Valentim de Carvalho quis ouvir o álbum. «E depois de o ouvir e autorizar, acedi a algumas das gravações que Amália tinha, e esta foi a canção que me fez mais sentido. É uma canção que fazia tanto sentido quando foi gravada como faz sentido agora. Apaixonei-me totalmente pela canção, e acho que quando as pessoas a ouvirem vão gostar muito também».
«Esta» – acrescenta – «é uma canção que vai ser dada ao público pela primeira vez na voz da Amália. É a primeira vez que o público a vai ouvir, e daí, para mim, ser tão especial. Eu não quis ir buscar uma canção que as pessoas já conheciam ou que Amália já tinha lançado».
Bárbara Bandeira diz sentir-se «extremamente honrada» pela confiança depositada nela. «Estou muito feliz. É uma questão pessoal, é uma conquista pessoal para mim. Acho que é daquelas coisas que se me dissessem há uns anos que ia acontecer, não acreditava. E é muito bonito, porque quando ouvimos a canção sentimos que ela está mesmo cá. E isso é o que me deixa mais emocionada quando ouço a canção». Amália Rodrigues morreu em 1999, dois anos antes de Bárbara Bandeira nascer.
Entre os sete temas que compõem «Lusa: ato II» há um, «Manel», com a participação de um grupo de cante alentejano feminino, e outro, «Marcha», inspirado na Procissão ao Mar de Viana do Castelo, que se realiza anualmente em agosto durante a Romaria de Nossa Senhora d’Agonia. O primeiro concerto de apresentação do álbum está marcado para 6 de junho nas Festas de Oeiras.
O ano de 2026 será «o do ato do português de Portugal, raiz» do projeto Lusa. «Mais lá para o final do ano já começaremos a receber algumas pistas do que é que vem a seguir», revelou a cantora, que admite que as coisas «demoram tempo»: «Aprendi que tenho de me dedicar em cada um dos anos a cada um dos projetos, porque acabo sempre por me propor a fazer coisas muito grandes.»
Num projeto que aborda a lusofonia, a ideia é que cada ato esteja relacionado com os aspetos que lhe são «mais pessoais». «O que significa que muito provavelmente vamos ter um ato dedicado exclusivamente ao Brasil, porque é muito importante para mim fazer o mesmo processo que fiz aqui, em Portugal, no Brasil, para perceber quem é que eu sou no Brasil, onde me revejo, onde não me revejo, para eu me conhecer enquanto artista e enquanto pessoa», explicou.
Os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) «também são super importantes» no projeto, até porque a cantora tem sido «muito acarinhada e muito bem recebida pelo público» de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. «A minha maior música, ‘Como Tu’ [um dueto com Ivandro, do álbum ‘Finda’, de 2023] foi número um em vários países dos PALOP, foi incrível. Portanto também sinto uma ligação muito forte com esse público, e gostava muito de fazer algo», disse.
Bárbara Bandeira iniciou a carreira em novembro de 2015, aos 14 anos, com a edição do primeiro single, embora antes disso já tivesse gravado um tema com o pai, «Tu és parte de mim», no álbum «Chegou a hora», de Rui Bandeira. O primeiro álbum, «Finda», chegou em 2023, depois de vários singles e um EP.
Em 2022 e 2024 foi distinguida com o prémio Best Portuguese Act dos MTV Europe Music Awards. Em 2022 venceu também o prémio de Canção do Ano dos PLAY – Prémios da Música Portuguesa, com «Onde Vais», dueto com Carminho, voltando a ser distinguida nos PLAY em 2024 com o prémio de Melhor Artista Feminina. Em maio de 2023 fez a primeira parte dos quatro concertos dos Coldplay em Coimbra, a convite da banda. Em outubro do ano passado apresentou, num desfile na ModaLisboa, a sua marca de moda, 2B, descrita como «um território de liberdade, sem género, tempo ou tendências, 100% produzida em Portugal».












