“Bestiário de Arraiolos”, os tapetes como mapa simbólico do território

Da eborense Teresa Carvalheira, "Bestiário de Arraiolos" vai além da interpretação dos símbolos que dão vida aos tapetes de Arraiolos, trazendo «a questão do pensamento global aplicado ao território». É também uma homenagem à vila alentejana, às bordadeiras e ao Alentejo no seu todo.

Júlia Serrão (texto)

O livro — que é um levantamento visual dos motivos dos tapetes de Arraiolos, da fauna e da flora, assim como de outras formas de vida ali figuradas e suas interpretações — é também ponto de partida para falar da herança cultural alentejana.

A autora comenta a propósito da sua obra: «Estava a trabalhar a questão das bestas, como também mais que humano — tenho animais, palmas, algumas flores, nuvens, portanto, é um levantamento do entorno do território». Inclui fauna e flora autóctone, mas não só, porque os tapetes de Arraiolos têm «dimensão de origem» oriental.

«Tentei trazer aqui a questão do pensamento global aplicado ao território. Então, não é sempre fauna e flora autóctone, e há animais que às vezes pertencem ao imaginário e outros domesticados. Logo, é uma coisa mais abrangente».

A escolha de colocar o levantamento como bestiário acabou por ser uma compilação não sistemática de símbolos da cultura local. «Como nasci aqui e já não vivo aqui, para mim foi importante manter ou explorar um pouco essa ligação: as origens, a matriz cultural».

Diz Teresa Carvalheira que aprendeu muito sobre figuras locais ou figuras que trabalham «a questão do Alentejo», a que chama «figuras bestiais». Às vezes são autores, outras figuras de eventos importantes da região, matérias e acontecimentos que «não aprendeu na escola».

Cada capítulo do livro «corresponde a um animal, uma flor ou elemento mais que humano da paisagem, mas também a múltiplas pessoas». Há referência a Amílcar Cabral, «que já trabalhava as questões da ecologia e fez a sua tese sobre a erosão do solo em Cuba», no Baixo Alentejo; e a Catarina Eufémia, assassinada em Baleizão nas greves de assalariados rurais na década de 50 do século passado.

Mas também a Soror Mariana, Manuel da Fonseca ou Fialho de Almeida. E «menções mais atuais», por exemplo a João Cutileiro ou ao «Beato Salú», uma figura popular das ruas de Évora. «Através do que são os motivos dos Arraiolos, que não são tão locais quanto possam parecer, esta questão do que é popular é muito central no livro».

As referências a figuras acontecem no contexto dos símbolos. Catarina Eufémia surge a propósito de «dois motivos florais específicos que são as Flores de Abril e as Flores de Maio». Explica que, falando com as «tapeteiras, não é muito percetível qual a diferença» entre as duas flores. Por isso, teve de «fabular um pouco» e atribuir as primeiras à Revolução de Abril e as segundas a Catarina Eufémia, pois o seu assassinato ocorreu precisamente no mês de maio. «Estes dois capítulos, no caso estas flores, serviram para falar das lutas de classe no Alentejo, que na verdade estão presentes um pouco mais pelo resto dos capítulos».

O tapete tem origem oriental, pelo que os símbolos também têm «uma significação oriental, que depois é adaptada ao território». O livro é um levantamento visual dos motivos, através dos quais a autora parte para uma elaboração sobre a cultura alentejana: «Começa em Arraiolos e alastra para todo o território».

É a primeira obra escrita de Teresa Carvalheira. Estava a terminar o mestrado em Design Social na Holanda, «voltando» aos têxteis, que foi a sua formação inicial, mas «um pouco desmotivada», quando surgiu a oportunidade de fazer uma residência artística de bordados de Arraiolos, com a organização da associação Córtex Frontal.

Apesar de «saber-fazer» pontos de Arraiolos, conhecimento que lhe foi transmitido pela mãe e por uma tia — no livro há uma dedicatória às duas e «às tapeteiras que garantem a continuidade» da prática —, veio «reaprender» a técnica, mas também perceber qual era o estado da arte dos tapetes de Arraiolos.

Refere que imediatamente compreendeu que «as condições laborais continuam extremamente informais e altamente precárias quanto à questão da remuneração». E diz que o problema da continuidade não é tanto o escoamento do produto, mas encontrar as pessoas que o possam fazer, «não porque não haja quem o saiba, mas porque não é viável».

Motivos para falar de justiça social

«Percebi imediatamente que era uma grande bestice o que as tapeteiras, maioritariamente mulheres, dentro do seu espaço doméstico, conseguem gerar em termos de retorno económico com a feitura destas peças. Estamos a falar de um terço do ordenado mínimo nacional para um trabalho a tempo inteiro». Cerca de 200 euros por mês, com base em 100 euros por metro quadrado.

Confessa que tinha vontade de «trabalhar esta dimensão», mas não sabia muito bem como, quando surgiu o convite para escrever, feito pela editora Vai Vem, que tem uma coleção de livros só ligada às artes e ao design, mas à qual faltava a abordagem ao têxtil.

«Já escrevia sobre têxteis em “blogs”, pequenos textos sobretudo a nível internacional, e algumas crónicas para o Gerador», pelo que tinha alguma experiência. «Achei que estava na altura de falar sobre isso. Penso que foi por causa dessa contradição da arte versus valor da arte que surgiu esta dimensão do bestiário e compilação dos motivos, que serviram para falar de justiça social», acrescenta.

Teresa Carvalheira nasceu em Évora, cidade onde viveu até aos 18 anos. Terminado o ensino secundário em Artes, mudou-se para Lisboa, onde ainda viveu após fazer o curso de Design de Moda na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa. Fez o Programa Erasmus em Milão, «com uma pequena componente de joalharia», esteve em Berlim a trabalhar com moda masculina e fez um curso de alfaiataria.

Na altura da pandemia, estava a trabalhar com cinema documental ligado às questões ecológicas e de justiça social. Viajou depois para a Turquia e para a Grécia, para «investigar questões de artesanato, a movimentação de pessoas e aquilo que elas trazem culturalmente». No fim, acabou por se fixar nos Países Baixos para fazer o mestrado em Design Social, a tentar «abarcar todas estas componentes de pesquisa que já fazia». É ali que vive há cerca de quatro anos, continuando ligada à moda: «Sou produtora de um festival de moda e de novos talentos».

O plano, por enquanto, é ficar em Maastricht. «Proporciona-me o acesso a fundos de investigação criativa, tenho mais possibilidades e consigo fazer melhor a ponte para investigar questões de Portugal», garante, explicando que o repertório artesanal português interessa muito a um país como aquele onde vive e que «perdeu o seu artesanato», as suas técnicas manuais. «As práticas ancestrais tendem a despertar interesse de investigação académica lá, e não só, e nós ainda conservamos isso, mal ou bem», desabafa.

Entretanto, tem projetos coletivos «em que a escrita é uma componente» que lhe interessa de forma particular. Quando conversamos, estava em residência artística em Évora com a Pó de Vir a Ser, uma associação cultural e artística focada na escultura em pedra. «Estou com o meu coletivo». Um grupo de investigação transdisciplinar focado no Alentejo, chamado Pousio, apostado em trabalhar as questões da ecologia ligada ao território: «Estamos a fazer um levantamento de covinhas, que são depressões ou extrações a várias escalas na pedra e não só».

“BESTIÁRIO DE ARRAIOLOS”

Teresa Carvalheira

Editora Vai Vem

100 página | 15,00 euros

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