A viver sozinha há seis anos, nesta casa da serra, a idosa evoca que trabalhou «uma vida inteira» no campo e que sempre gostou de ler. Mas, confessa, faltava-lhe «vagar». Este chegou com a idade e a criação da biblioteca itinerante do concelho, no ano passado, passou a alimentar o prazer pela leitura que diz nunca ter perdido.
«Sempre gostei de ler, mas não lia muito porque não tinha vagar [tempo]. Agora tenho e a biblioteca ajudou muito. Para quem passa semanas quase sem ver ninguém, é bom» receber a visita da biblioteca, assinala.
Na escola, o seu trajeto pelas leituras e estudos ficou-se pela então quarta classe, o que «não faz justiça» ao seu atual dia a dia. Gracinda Santos conta que devora livros quando não está ocupada nas lides domésticas ou na horta. «Se tiver vagar de dia, por exemplo pelas horas do calor, sento-me lá em casa a ler e, depois, é só à noite».
Entre um abraço e uma troca de impressões sobre obras literárias com a técnica da biblioteca itinerante, Gracinda revela que gosta de ler «uma boa história», mas dispensa livros sobre os temas da guerra e da morte, pois, para isso, na sua «modesta opinião», já basta a realidade do dia a dia.
No entanto, para esta mulher, que diz que desfruta diariamente da observação e do cantar das aves em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede, os livros são «uma grande companhia». Já o mesmo não considera da televisão, onde só gosta de ver «certos programas».
Após requisitar vários livros na biblioteca itinerante, como obras da escritora norte-americana Colleen Hoover ou do português José Rodrigues dos Santos, Gracinda afiança que os vai ler todos. E, se gostar de uma história em particular, volta logo a ler, para depois, no espaço de 15 dias, entregar as obras, quando a biblioteca, que também lhe entrega afetos, voltar a bater à sua porta.
Um quilómetro mais à frente, ainda no parque natural, Diogo Oliveira, de 38 anos, passa uns dias de férias na sua quinta. Também ele e a família não dispensam a requisição de livros na biblioteca itinerante. O saxofonista, que reside em Lisboa, conta que este projeto do município de Marvão «ajuda a criar hábitos de leitura», mas também, no seu caso, ajuda a conhecer novas obras e a passar o tempo no Alentejo com a família.
No centro desta história, o papel de destaque cabe à técnica Helena Almeida, um dos principais rostos da biblioteca itinerante que percorre todos os cantos do concelho, com uma população envelhecida e uma franja significativa a residir em zonas isoladas.
Além de «transportar cultura» a todo o território de Marvão, a biblioteca itinerante também serve de palco para ouvir «desabafos e relatos de problemas» dos leitores, relata Helena Almeida.
«Nós estamos aqui e acabamos por ouvir e saber de grande parte das situações da vida das pessoas, que acabam por falar connosco», realça, frisando: «Acabamos por ser um porto de abrigo, com quem podem desabafar».
Marvão não possui uma biblioteca municipal num espaço físico e, daí, a necessidade de ter sido desenvolvido este projeto, que arrancou no dia 27 de novembro do ano passado, diz a vereadora da cultura da câmara municipal, Teresa Simão.
«Esta biblioteca tem espalhado magia pelo concelho inteiro, temos angariado muitos leitores e, mais do que a promoção da leitura, é também um garante de determinados serviços, porque a biblioteca tem computadores, os utentes podem tirar uma fotocópia, tem acesso à internet e, inclusivamente, tem um terminal de pagamentos», retrata.
De acordo com a autarca, a biblioteca itinerante contava, no início deste mês, com «214 leitores», desde crianças a idosos. O serviço percorre o concelho de 15 em 15 dias e, na semana em que não efetua esse itinerário, desloca-se aos lares de idosos, ludotecas ou infantários.
Integrado na BiblioLed — serviço de empréstimo de livros em suporte digital —, o projeto surgiu fruto de candidatura do município ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), num investimento superior a 142 mil euros.
«Os livros é que já foram comprados pela câmara», assinala a autarca, afirmando esperar que, no seguimento deste mandato, a autarquia possa avançar para a construção de uma biblioteca num espaço físico. Mas mantendo, em paralelo, «a missão» no terreno da biblioteca itinerante.
As bibliotecas itinerantes são uma das mais reconhecidas marcas da Fundação Calouste Gulbenkian — que completa 70 anos em 2026 —, promovendo a leitura junto da população com menos acesso à educação por mais de quatro décadas.
Em 2002, o projeto foi descontinuado, mas deixou lastro até hoje, tendo sido mantido de forma adaptada por dezenas de bibliotecas municipais, com um serviço itinerante que percorre desde zonas balneares a locais do interior do país.










