Breno Teixeira: «As mães do costume»

As mães dos políticos vivem num universo paralelo. O filho é, ao mesmo tempo, génio e vilão, incompetente e salvador, corrupto e santo, culpado da subida das couves e da queda da moral pública.

Breno Teixeira, cronista (texto)

O Dia das Mães é uma celebração universal de ternura: flores, abraços, mensagens com corações no WhatsApp e aquele almoço em família onde todos fingem que não discutem política. Mas há mães que mereciam mais do que um ramo; mereciam um subsídio de risco.

Falo das mães dos árbitros e das mães dos políticos, que passam o ano inteiro a ser homenageadas por desconhecidos com uma criatividade linguística digna de um prémio literário… de insultos.

As mães dos árbitros são as únicas pessoas cujo nome é gritado em coro por 50 mil pessoas — e nunca por bons motivos. Elas só queriam que o filho tivesse um emprego tranquilo, talvez num escritório, com pausas para café. Mas não: ele decidiu vestir preto e tornar-se o alvo oficial da nação. Resultado? A mãe passa a ser mencionada semanalmente em teorias genealógicas que desafiam as leis da biologia e da decência.

Já as mães dos políticos vivem num universo paralelo. O filho é, ao mesmo tempo, génio e vilão, incompetente e salvador, corrupto e santo, culpado da subida das couves e da queda da moral pública. Elas já ouviram de tudo: «a sua mãe deve estar orgulhosa». Ou: «a sua mãe deve estar envergonhada». E elas, coitadas, só queriam ver a novela sem serem responsabilizadas pelo estado da democracia.

No Dia das Mães, porém, todos estes filhos aparecem com um ar arrependido, flores na mão e um discurso ensaiado, como se estivessem a pedir desculpa ao país inteiro através da progenitora. «Mãe, és a melhor do mundo». E ela pensa: «Pois sou. E ainda bem, porque, se não fosse, tu já tinhas levado um puxão de orelhas público».

Estas mães são heroínas involuntárias. Não pediram fama, nem protagonismo, e muito menos pediram para serem citadas em insultos criativos durante 365 dias. Mas aguentam. Com classe, paciência e aquele olhar que diz: «se eu sobrevivi a criar este filho, sobrevivo a tudo». São mulheres que aprenderam a respirar fundo enquanto o país inteiro discute o fora de jogo ou o Orçamento do Estado.

E há algo de profundamente injusto nisto: enquanto outras mães recebem elogios e flores, estas recebem indiretas e ‘memes’. Enquanto umas são lembradas pelo melhor bolo de chocolate, outras são lembradas por causa de um penálti mal marcado ou de uma promessa eleitoral mal cumprida. Ainda assim, continuam firmes, porque sabem que o amor de mãe é mais resistente do que qualquer bancada de estádio ou debate parlamentar.

Por isso, neste Dia das Mães, deixo uma sugestão: árbitros e políticos, caprichem no presente. Nada de flores murchas ou chocolates de promoção. As vossas mães já ouviram demasiado. Ofereçam-lhes um spa, um jantar tranquilo e, se possível, um pedido de desculpas que não venha embrulhado em campanha eleitoral ou cartão amarelo.

E nós, simples mortais, quando virmos alguém a insultar «a mãe do árbitro» ou «a mãe do ministro», façamos um favor à humanidade: respiremos fundo e lembremo-nos de que há uma senhora em casa, provavelmente a fazer o jantar, que não tem culpa de nada e que, mesmo assim, vai sorrir quando o filho lhe disser: «Mãe, és a melhor do mundo». Porque é. E porque, no fundo, sabe que ser mãe é isso mesmo: levar por tabela, mas continuar de pé.

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