Breno Teixeira: “Belém, brócolos e outras ficções”

2025 é o meu ano de glória. Finalmente inscrevi-me no ginásio para o qual comprei os ténis em 2020. Estão um pouco apertados, talvez porque a promessa de "comer menos" seja aquela que reservei para cumprir em 2030. Breno Teixeira, cronista (texto)

Diz a tradição que o dia 1 de janeiro é o maior depósito de resíduos tóxicos da vontade humana. É o lixão onde as promessas de “comer mais brócolos” e “ser menos sarcástico” vão morrer, asfixiadas pelo cheiro a rabanadas amanhecidas. Todos os anos, o cidadão português faz o seu orçamento de boas intenções com o otimismo de quem acabou de ganhar o Euromilhões, apenas para declarar falência logo a 15 de janeiro.

Mas 2025 foi diferente. Posso dizer, com o peito inchado de uma virtude tardia, que cumpri todas as minhas promessas de Ano Novo. Todas! As que fiz em 2020.

Não me julguem. Há uma certa elegância na lentidão, uma espécie de vida lenta forçada que a maioria dos mortais, obcecados com a gratificação instantânea, não consegue processar. Enquanto o país se desdobra em promessas eleitorais de “mudança já” e “futuro agora”, as habituais dietas políticas que prometem emagrecer o Estado, mas acabam sempre a encomendar uma pizza de subsídios à meia-noite, eu optei pelo amadurecimento das ideias. Como um bom queijo da Serra ou uma decisão judicial em Portugal, a minha vontade precisava de cinco anos de cura.

Em 2020, jurei que ia “passar mais tempo em casa”. Na altura, a pandemia deu-me um empurrãozinho, mas só agora, em 2025, é que aperfeiçoei a arte de não sair do sofá para nada que não envolva a sobrevivência básica. Cumpri. Jurei também que ia “evitar grandes ajuntamentos”. Olhando para as sondagens das presidenciais e para o vazio de ideias que paira nos debates, nunca foi tão fácil manter o distanciamento social da inteligência coletiva.

Dizia a minha lista de 2020 que eu iria “aprender a lidar com a incerteza” e, cinco anos depois, ver o panorama político nacional é como ver um episódio repetido de uma novela brasileira dos anos 90: já não me surpreendo com as reviravoltas, com os candidatos que aparecem como “salvadores da pátria”, equivalentes ao batido de proteína que prometemos tomar e que fica a ganhar bolor na despensa, ou com as alianças mais improváveis do que um ginásio aberto às cinco da manhã.

Cumpri a promessa de “poupar dinheiro”. Não porque tenha investido em fundos de alto rendimento, mas porque em 2025 o preço de tudo está tão obsceno que a minha única opção de poupança foi deixar de ter desejos. O meu minimalismo não é estético, é aritmético.

Enquanto os candidatos a Belém desfilam as suas promessas frescas de janeiro, jurando que vão ser o “árbitro imparcial”, a versão política do “vou beber dois litros de água por dia”, ou que vão “unir os portugueses” (o “vou aprender mandarim” dos otimistas), eu sorrio com a superioridade de quem já fechou o ciclo.

2025 é o meu ano de glória. Finalmente inscrevi-me no ginásio para o qual comprei os ténis em 2020. Estão um pouco apertados, talvez porque a promessa de “comer menos” seja aquela que reservei para cumprir em 2030. Afinal, a pressa é inimiga da perfeição, e a política portuguesa ensinou-me que nada que não se resolve hoje, não possa ser prometido novamente daqui a quatro anos. Que venha 2026, 2027, 2028…

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