
A história é sempre a mesma. A família tem três filhos. O mais velho, ambicioso, vai para Londres «só por uns meses», mas já lá está há 10 anos, com dois filhos bilingues e uma hipoteca que o prende mais do que qualquer saudade. O do meio, aventureiro, muda-se para Berlim, onde descobriu que a vida é melhor com cerveja barata e salários que não exigem viver com quatro roommates e um gato depressivo. E depois há o caçula. O doce, ingénuo, eternamente infantil caçula. Aquele que, quando os irmãos anunciaram que iam emigrar, respondeu: «Boa viagem! Eu fico aqui a tomar conta dos pais». E ninguém o avisou de que essa frase, dita com a leveza de quem comenta o tempo, era, na verdade, um contrato vitalício.
O caçula não sai de casa. Não porque não queira, embora às vezes também não queira, mas porque a família inteira conspira para que ele não vá a lado nenhum. Os pais, mestres da chantagem emocional, começam cedo: «Tu és o nosso apoio», «Sem ti não sabemos como vamos fazer», «O teu irmão mais velho sempre foi muito independente, tu és mais… sensível». Sensível, claro. Sensível ao peso da culpa, sensível ao olhar de cachorro abandonado da mãe, sensível ao facto de que, se ele sair, alguém vai ter de ensinar o pai a usar o multibanco.
E assim nasce o Filho Único Caçula: um jovem adulto que, apesar de ter irmãos, vive como se fosse filho único, mas sem as vantagens. Não tem o quarto só para si, porque continua a dormir no mesmo desde os 12 anos. Não tem a atenção exclusiva dos pais, porque essa atenção é usada para lhe lembrar que tem de ir buscar as análises ao centro de saúde. E não tem liberdade, porque liberdade implica poder dizer «não», e o caçula não diz «não» desde 2008.
Enquanto isso, os irmãos emigrados vivem a vida. Mandam mensagens no WhatsApp a dizer «qualquer coisa, liga!», como se fosse possível ligar para alguém que está a dois mil quilómetros de distância para pedir ajuda a montar um corrimão. Enviam fotos de brunches, viagens e jantares com amigos internacionais, enquanto o caçula envia fotos do novo andarilho da mãe. É uma troca cultural riquíssima.
O mais irónico é que, apesar de ser o único que fica, o caçula raramente é o mais competente. Muitas vezes é apenas o mais lento a perceber que podia ter fugido. Mas isso não impede que seja promovido a cuidador oficial, técnico de informática, motorista de consultas, gestor de medicamentos e, ocasionalmente, terapeuta familiar.
E Portugal agradece. Porque, se todos emigrassem, quem ficava para abrir a porta ao canalizador? Quem resolvia o problema da box da televisão? Quem acompanhava os pais às compras, às análises, às missas, às festas da aldeia e às urgências «só para ver se está tudo bem»? Os Filhos Únicos Caçulas são os verdadeiros pilares deste país. Não porque escolheram ser, mas porque alguém tinha de ficar. E eles foram os únicos que não correram a tempo. Afinal, alguém tem de ficar para apagar as luzes.
Fotografia: D.R.













3 Responses
Muito bom, acompanho Breno não só como amigo desde a adolescência bem como escritor desde antes da publicação de seu excelente livro “Conturbanos” o qual recomendo! Sempre de leitura inteligente com pitadas de sarcasmo! Parabéns meu amigo por nos dar o prazer da boa leitura!!!
Fantástica análise…simples e objetiva. Expõe bem uma das externalidades humanas do sistema.
EX-CE-LEN-TE.