
Se Fritz Lang tivesse vivido até hoje, provavelmente teria desistido do cinema e aberto um canal de YouTube para comentar política. Não porque quisesse, mas porque perceberia que a realidade atual já é suficientemente distópica para dispensar cenários futuristas. “Metrópolis” era ficção; a política contemporânea é o remake involuntário, só que com menos subtileza e mais gente a gritar.
No filme, a elite vivia nas alturas, rodeada de luxo. Hoje, vive nas alturas também, só que agora com jacuzzi panorâmico, consultores de imagem e discursos escritos por alguém que acredita genuinamente que frases motivacionais podem substituir políticas públicas. A classe trabalhadora, por sua vez, continua nas profundezas, mas com a vantagem de ter ar condicionado e a desvantagem de ter reuniões intermináveis no Teams. A engrenagem continua a girar, indiferente, como se fosse movida a café e resignação.
E, claro, não podia faltar a banda sonora. Se “Metrópolis” tivesse sido filmado em 2026, Fritz Lang teria “Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou” para tocar sempre que um político subisse ao palco para repetir promessas que já ninguém leva a sério. A música tem aquele espírito perfeito: alguém avisa, repete, insiste… e o mundo continua alegremente a ignorar. É praticamente o hino oficial da política moderna.
A Maria robótica do filme, hoje, seria facilmente confundida com um avatar de campanha. Teria vídeos diários, filtros luminosos e um jingle tão irritante quanto viciante. E, claro, avisaria coisas com a mesma insistência melódica de Os Paralamas do Sucesso, só que com menos talento e mais hashtags. A multidão, hipnotizada, partilharia tudo sem pensar, porque em “Metropolis 2.0” o algoritmo é o verdadeiro governante.
No filme, faltava o «coração» para unir o «cérebro» e as «mãos». Hoje, o coração foi substituído por slogans testados em focus groups, o cérebro está ocupado a calcular sondagens e as mãos… bem, as mãos estão ocupadas a tentar pagar contas. A ponte entre uns e outros continua prometida, anunciada, inaugurada e reinaugurada, sempre com fita para cortar e fotógrafos a postos, mas nunca concluída. É a obra pública eterna, o equivalente político de um refrão que nunca chega ao fim.
E quando tudo corre mal, porque corre sempre, a multidão procura culpados com a mesma energia com que, no filme, perseguia a falsa Maria. Só que agora a perseguição é digital, com hashtags inflamadas e vídeos de 15 segundos. Fritz Lang não previu o TikTok, mas teria adorado o caos coreografado.
No fundo, vivemos numa distopia com luzes led, wi-fi instável e banda sonora rock. A política atual é “Metrópolis” com filtros de Instagram e um toque de Paralamas: alguém avisa, alguém repete, alguém promete… e a engrenagem continua a girar, indiferente. A diferença é que, no cinema, ainda havia esperança de redenção. Hoje, temos esperança, mas também temos memes, reels e indignação fresca entregue diariamente.
Se Lang estivesse vivo, faria uma sequela. E nós iríamos ver, enquanto comentamos em direto e fingimos que ouvimos os avisos.












