
Há um fenómeno antropológico fascinante que só se revela quando alguém morre: a canonização automática. Basta o sujeito dar o último suspiro e, num passe de mágica emocional, transforma-se de criatura insuportável em património afetivo nacional.
É como se a morte viesse com um filtro de Instagram: suaviza rugas, apaga dívidas, corrige falhas de caráter e adiciona uma auréola discreta, mas eficaz.
No velório, então, o espetáculo é sublime. A sala enche-se de pessoas que passaram a vida inteira a evitar o defunto, mas que agora surgem com ar compungido, como se tivessem perdido o melhor amigo.
O indivíduo que em vida era um tirano doméstico, um colega tóxico ou um vizinho que chamava a polícia por causa do barulho do micro-ondas, de repente vira «uma pessoa de coração enorme». O mesmo coração que, até anteontem, só bombeava rancor.
E há sempre alguém que diz: «Tinha um sorriso tão bonito.» Claro que tinha, só que ninguém viu. Talvez estivesse guardado para ocasiões especiais, como o próprio funeral. Outros juram que o falecido era «um homem de princípios». Sim, princípios flexíveis, daqueles que se adaptam ao vento e ao interesse do momento. Mas no velório ninguém se lembra disso. A morte é um detergente moral, tira nódoas difíceis, remove manchas de egoísmo e deixa um perfume suave de nostalgia.
O mais divertido é observar os discursos improvisados. Pessoas que nunca trocaram mais de três palavras com o defunto agora falam como se fossem íntimas. «Era um ser humano extraordinário», dizem, enquanto tentam recordar o nome completo dele.
Há também os que exageram tanto que quase transformam o morto num herói nacional. Se o sujeito roubava canetas no trabalho, vira «um espírito livre que não se prendia às convenções». Se era preguiçoso, passa a ser «um pensador contemplativo». Se era maldoso, «tinha um humor peculiar».
No fundo, esta santificação pós-morte revela mais sobre os vivos do que sobre os mortos. É o nosso medo de admitir que a vida é curta, imperfeita e cheia de gente difícil. É a tentativa desesperada de transformar a despedida num momento bonito, mesmo que o protagonista nunca tenha colaborado para isso. É o reflexo humano de querer fechar histórias com laços, mesmo quando o enredo foi um desastre.
E assim seguimos, funeral após funeral, convertendo vilões em santos, rabugentos em poetas e chatos em lendas. Talvez seja uma forma de sobrevivência emocional. Ou talvez seja só mais uma das nossas manias encantadoras: a capacidade infinita de mentir com ternura.
Em memória de Quito, que em vida foi medo e agora é memória. E, como toda a memória humana, foi imediatamente melhorada, polida e romantizada, porque os mortos, esses sim, são sempre perfeitos.
Fotografia: © Silvia Stoedter/Pixabay/Direitos Reservados










