Breno Teixeira: «Inteligência emocional»

A cama, aliás, é o nosso templo. Ali repousa o herói que passou o dia inteiro a não fazer aquilo que teve vontade de fazer. Ali repousa o cidadão exemplar que, apesar de tudo, escolheu a paz — ou, pelo menos, escolheu não incendiar nada.

Breno Teixeira, cronista (texto)

A inteligência emocional é essa coisa misteriosa que nos impede de transformar o quotidiano numa temporada especial de «Crimes de Paixão». Passamos o dia a colecionar pequenas vitórias silenciosas: não amarrámos ninguém ao poste, não ateámos fogo a nada, não arrancámos a língua da alcoviteira que vive para comentar a vida alheia com a precisão de um meteorologista do caos. E, no entanto, continuamos aqui, firmes, civilizados, quase zen — ou, pelo menos, suficientemente funcionais para não aparecer no telejornal.

Há quem pense que inteligência emocional é respirar fundo, meditar, fazer ioga, beber chá de camomila. Não. Inteligência emocional é olhar para o colega que mastiga como um trator e decidir não lhe atirar o computador pela janela. É ouvir o vizinho a furar paredes às sete da manhã e não lhe desejar uma vida inteira de obras eternas. É sorrir para a pessoa que nos tira do sério e dizer «não faz mal», quando na verdade faz, e muito.

Durante o dia, somos gladiadores silenciosos. Lutamos contra impulsos primitivos com a elegância possível de quem dormiu pouco e tem contas para pagar. A verdade é que, se o mundo visse o que nos passa pela cabeça, já tínhamos sido promovidos a caso de estudo em psiquiatria forense. Mas não, seguramos tudo. Engolimos. Respiramos. Fazemos aquele sorriso social que diz «está tudo bem» enquanto o cérebro grita «não está nada bem, criatura».

E é por isso que a noite é uma celebração. Quando finalmente nos deitamos na nossa cama, sem pulseiras eletrónicas no tornozelo, sem visitas da polícia, sem internamentos compulsivos, devemos bater palmas à nossa própria sanidade. Uma noite tranquila é a medalha de ouro da inteligência emocional. É a prova de que sobrevivemos ao dia sem nos passarmos, sem cometer crimes, sem transformar a cidade num cenário de filme de vingança.

A cama, aliás, é o nosso templo. Ali repousa o herói que passou o dia inteiro a não fazer aquilo que teve vontade de fazer. Ali repousa o cidadão exemplar que, apesar de tudo, escolheu a paz — ou, pelo menos, escolheu não incendiar nada.

Por isso, parabéns. Parabéns pela tua inteligência emocional, essa força invisível que mantém o mundo a funcionar e impede que a humanidade se transforme num espetáculo pirotécnico de fúria. Se chegaste ao fim do dia sem algemas, sem sirenes e sem diagnóstico psiquiátrico, celebra. És um campeão da contenção, um atleta da serenidade, um mestre da diplomacia interna.

E amanhã, claro, começa tudo outra vez.

Fotografia: © José Cruz/Pexels

Uma resposta

  1. Politicamente quase suportável. Cotidianos de cada um… sendo eu , o que sou, junto aos momentos que , “estou ” , dou gratidão, aguentar os ” outros ” fica fácil .
    Não lembrar dos Políticos de nossa pátria, fingir que não existe! E o “Sistema” é si. Caso não….
    É surto na certa .

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