Sentei-me na última cadeira da sala, que já estava ocupada pelos habitués da Universidade Sénior na Biblioteca de Alvito. Pouco depois entrou Margarida Junça, contadora de histórias, recebida pelo caloroso aplauso — que percebi ser costumeiro — de todas as vezes em que ali vai viajar pelas palavras com gente que podia muito bem estar sentada consigo à soleira da porta ou à lareira. Elas são mais do que eles, mas todos ansiosos por ouvir as histórias que «a doutora» (dizem) lhes leva, de há algum tempo a esta parte, uma vez por mês.
«Gosto de conversar, é sempre por aí que começo; depois vêm os contos. Por norma, se forem três, o primeiro é sempre uma coisa para juntar, o mais longo e denso vem a seguir, e depois qualquer coisa para fechar; mas podem ser mais, depende. A verdade de tudo isto é que a melhor maneira de guardarmos uma história é na boca».
Margarida Junça tem 42 anos, é educadora de infância de formação, mas é nos contos e nas histórias que tem vindo a encontrar uma felicidade muito especial ao longo dos últimos 12 anos: «Estar à mesa era algo normal, contavam-se histórias. A minha mãe contava muitas histórias da tradição oral, daquelas que demoravam 50 minutos e que tinham a função de me pôr quieta e sossegada. A minha avó Inácia deu-me as histórias de vida, o humor e a questão da música e das rimas (facilmente dizia uma décima de cabeça), e a rima levou-me à poesia».
Daquilo que vi e ouvi em Alvito realço a partilha, a cumplicidade de gente que se conhece melhor ou pior; isso nunca interessou ao longo do tempo em que ali estive, rodeado de sábios e de um trombudo estagiário mais preocupado em jogar no smartphone do que em ouvir quem tanto sabe. Quase todos contribuem para as histórias que Margarida Junça vai puxando.
Há gestos, sons, onomatopeias, a plateia exulta como se fossem crianças sedentas de vida e divertimento em terra firme de pouco sonho: «Gosto de contar histórias aos mais velhos porque me permite ter uma escuta, ou seja, não sou só eu que dou; tenho sempre a possibilidade de ouvir um repertório coletivo que se está a perder. Estamos na última geração de pessoas que sabem estes contos, à beira de perder tudo isto de uma forma viva, de quem nos conte para nós voltarmos a contar».
Mas como se define, afinal, a diferença entre velhos e novos? «Com os miúdos é outra coisa, muitas vezes na perspetiva de formação leitora, não só no livro; começo as sessões pelas lengalengas, pelos trava-línguas, pelas canções, por esse conjunto de textos que não está fisicamente em livros. Tu vês uma coisa escrita, ‘tão balalão, cabeça de cão, orelhas de gato, não tem coração’; isto não quer dizer nada, só ganha expressão quando um pai agarra num miúdo e o balança no colo. E aí tens gesto, ritmo, afeto, movimento, canção. Portanto, aí ganhas um corpo todo».
A interação conhece então o peso na magia do imaginário, seja no que os mais velhos vão buscar lá atrás, seja através do mundo alado dos mais pequenos. Segundo Margarida, o importante é que, estimulados os sentidos, entrem na história, a saboreiem, viajem com ela: «Na minha geração poucos sabem contos tradicionais, e nas gerações a seguir à minha ainda menos. Antigamente, os avós estavam em casa e hoje ainda estão a trabalhar. Esse espaço de estar e de partilha desapareceu, e é por isso que a nossa profissão surgiu há 30 e tal anos. A coisa foi-se esboroando. Nos lares temos pessoas que têm isto dentro delas, mas já estão numa memória adormecida, e quem não conta esquece».



A meio da sessão de contos, a mais velha das senhoras faz garbo dos seus 93 anos e de uma memória invejável para interagir com a contadora. Em cada palavra, em cada gargalhada ou olhar avista-se sempre uma ponte com a vida real, e tudo se torna ainda mais belo. A sua experiência de um Alentejo antigo é transversal a todos os outros da sala, mas Margarida já veio com a democracia: «A maneira como a minha avó me contava não é a maneira de outra pessoa, e isso é um património íntimo, mas ao mesmo tempo coletivo porque toca várias versões de vários lugares, e isso dá-nos uma identidade. Para mim, a língua é a coisa mais valiosa que tenho e que me foi dada desde miúda. Tive a sorte de me ser dada a cantar em rimas, em lengalengas, em contos, de me ter sido educado o ouvido».
Percebe-se que tudo tem a ver com a vida e com as suas lições, e no final pedi à Margarida que nos contasse um exemplo disso mesmo: «No princípio do mundo, andavam três amigos: a vergonha, a água e o vento. Perguntaram: se nos perdermos, como é que fazemos para nos encontrarmos? A água disse: comigo basta serem persistentes, cavam, cavam bem e hão de me encontrar. O vento respondeu: comigo é terem paciência, há dias em que saio de casa, noutros não, mas, subindo a um alto, fiquem lá à espera porque hei de aparecer. E tu, vergonha? A mim, se me perderem, nunca mais me podem encontrar, porque a vergonha é para quem a tem».
Há um livro que se chama Era Uma Vez e Tantas Outras Serão, da editora Planeta Tangerina. Nele tenta-se colocar graficamente a noção temporal: o passado, o presente e o futuro. O passado é o que aconteceu, o presente é uma coisa muito rápida, e o futuro são as perguntas. A partir daqui, Margarida Junça conta-nos um episódio tocante: «Há uma pergunta que é “O que é que te vai marcar para sempre?”. Um dia um miúdo respondeu-me: “A segunda vez que conheci a minha mãe”». E a gente engole em seco [tinha sido retirado à família, onde depois regressou].
A sala já está vazia, as senhoras partiram cantando à alentejana, obrigaram-me a participar e a ver a exposição de candeeiros, e, num final de tarde chuvoso, o Alentejo prova, uma vez mais, que, havendo memória, o passado até pode ser uma questão de futuro: «Em Portugal há muita coisa transcrita e reescrita, e isso permite-nos fazer uma localização geográfica dos regionalismos, percebe-se se aquilo é contado no Alentejo ou se veio das Beiras ou do Minho. O Alentejo é um território fértil e é a minha zona de conforto; os regionalismos, as palavras, os ditos alentejanos (que são outra parte do património imaterial) oferecem alguma expressividade ainda viva. Ainda se conta, ainda se ouve, ainda há um bocadinho de tempo».
Não importa se são poucos os contadores de histórias. Desde que haja espaços e tempo, gente nova e gente velha, memória e palavras, esta é uma arte perfuradora de séculos que nasceu há tanto tempo como o ser humano, entre a oralidade e a escrita: «No berço de um bebé a canção de embalar faz tanta falta como o primeiro livro, e nenhum anula o outro. A oralidade e a literatura não competem, só é preciso tempo e memória». Vitória, vitória, e acabou-se a história!









