No Alentejo, não se precisa de ir ao registo para saber quem é quem, basta uma alcunha bem assente. Há quem nasça com ela, quem a herde de algum familiar e há quem a ganhe num dia de superação ou distração (e nunca mais se veja livre dela!). São selos de identidade, pequenos re- tratos em poucas palavras.
Chamam-lhe “O Seca Adegas” porque nunca deixa uma pinga por provar; ou “O Fura Orelhas” porque sabe sempre o que os outros dizem. São sempre exageros, mas há nelas uma verdade profunda: as alcunhas dizem aquilo que todos pensam, sem pedir licença.
Durante décadas, bastava uma taberna e meia dúzia de conversas para se saber quem era bom na arte do lagar, quem sabia quando o azeite estava no ponto, ou quem deixava queimar a primei- ra bica. O saber estava nos olhos e no cheiro, na memória que se guardava no corpo. Era um saber que não se ensinava mas que se reconhecia ao ponto de ganhar nome próprio.
Curiosamente, foi assim que nasceu também a computação: pela vontade de simplificar. Os matemáticos descobriram que qualquer pergunta cuja resposta fosse “sim” ou “não” poderia, teoricamente, ser resolvida por uma máquina. E assim nasceram os computadores, mas também ao mesmo tempo a inteligência artificial.
Enquanto a computação era precisa e determinística pela mão do humano que lhe dava as perguntas e antecipava as respostas, a inteligência artificial não precisava de pensar, bastava ser treinada e saber imitar. No velho “Jogo da Imitação, se uma máquina for capaz de nos enganar ao ponto de acharmos que estamos a falar com um humano, então talvez, só talvez, já tenha começado a ser inteligente à sua maneira.
Mas há um detalhe que não se pode esquecer, para imitar bem, é preciso conhecer bem. E para isso o ingrediente principal são dados. São eles que alimentam os algoritmos e lhes dão o jeito para prever, para decidir, para ajudar. Um dia, o Manel Azeitona sabia a olho quando a acidez do azeite es- tava perfeita. Hoje, essa sabedoria pode ser lida por sensores e traduzida por máquinas. O segredo, que antes vivia apenas dentro da alma, passou a morar também fora dela nos algoritmos e por isso a aldeia ficou maior.
Num mundo que se enche de decisões feitas por máquinas, talvez seja tempo de lhes darmos tam- bém alcunhas porque, afinal de contas, as máquinas também têm feitio. Há decisões que continuam a ser só humanas, como sempre foram, há outras que já são só das máquinas, frias, rápidas, sem hesitação, mas depois há os meios-termos, onde se partilha o fardo, como se partilha a apanha da azeitona: um puxa, o outro ajeita.
Chamemos-lhes assim, “Vou ali à da…”: “Cabeça de Ferro “, quando a decisão é só humana, com teimosia e saber; “Conta Bem”, quando é o humano que decide, mas com a ajuda da máquina que já aprendeu a ver mais do que o olho alcança; “Burra com Sela”, quando a máquina anda, mas há um humano a ver o caminho; “Chama o Manel”, quando tudo corre bem à máquina até correr mal, e então lá vem o humano salvar o dia; “Anda Só”, quando a máquina decide sozinha, sem pedir opinião.
Talvez a grande mudança não esteja em deixarmos as máquinas decidir por nós, mas em percebermos que há espaço para todo o tipo de saber. A inteligência, mesmo que artificial, não é uma amea- ça, será sempre uma ferramenta e, como qualquer ferramenta, tanto pode servir para abrir caminho como para bater com a porta.
No lagar da aldeia ou nos centros de dados nas nuvens, o que conta não é só “quem” decide, é “para quê” se decide. E se um dia nos virmos obrigados a escolher entre confiar no Zé do Lagar ou num algoritmo que leu todos os manuais de fazer azeite do mundo, talvez a resposta esteja onde sempre esteve: no sabor do azeite.












