Buba Espinho: «A música é um grande mundo de partilha»

Nascido numa família de músicos e numa terra de músicos, era difícil fugir ao «destino». Hoje, a sua voz ultrapassou as fronteiras do Alentejo e é reconhecida em todo o país. Aqui fala da infância em Beja, da ligação ao Alentejo e do segredo de uma música que comove quem a ouve.

Catarina Fonseca (texto) e Cátia Figueiredo (fotografia)

Aos 30 anos, é um dos maiores embaixadores do Alentejo, do cante alentejano e da sensibilidade e intensidade da alma alentejana, mas ele vê-se como um cantor «sem caixas» que quer dar voz a todos os portugueses, de norte a sul. E os portugueses retribuem: não deve haver ninguém que não reconheça a sua voz em temas como “Casa” ou “Ao Teu Ouvido” (com os D.A.M.A e Bárbara Tinoco).

O seu talento nasceu em família: o pai é o compositor Luís Espinho, mais conhecido pela canção “As Meninas da Ribeira do Sado”, e Buba envolveu-se desde muito cedo com o cante alentejano. Mas não só. Em 2016 ganhou a Grande Noite do Fado, no Coliseu dos Recreios, em 2020 lançou o seu primeiro álbum, “Buba Espinho”, onde participaram artistas como António Zambujo ou Raquel Tavares, mas a sua «onda» nunca foi apenas cante ou apenas fado, mas um tipo de música que consegue juntar sonoridades diferentes e trazer dessa união uma força especial. Ser filho tornou-o mais atento aos outros, ser pai tornou-o mais atento a si próprio.

Buba vem de Bernardo. Quem lhe começou a chamar assim?

Na verdade não sei. O meu pai diz que no meu primeiro aniversário já se cantavam os parabéns ao Buba, portanto aí a alcunha já tinha pegado. Parece que foi uma das primeiras palavras que joguei cá para fora, à partida queria dizer comida, e como eu era gordinho e estava sempre a falar em comida, o termo Buba pegou e fiquei Buba até hoje. 

Nasceu em Beja. Como foi a sua infância?

Foi uma infância muito feliz mesmo. Beja, no final dos anos 90, significava poder crescer em liberdade, brincar na rua, ter a escola muito perto de casa, ir a pé para as aulas, tudo muito livre, obviamente dentro de regras básicas. Também tive uma educação feliz. A minha mãe e o meu pai sempre me deixaram ser aquilo que quisesse, e na altura em que tive de escolher, ainda adolescente e com pouca maturidade, com alguma loucura decidi escolher esta vida. Não sei se foi uma decisão muito acertada, mas para o meu pai, que também era músico, foi a oportunidade de concretizar o seu sonho através de mim e do meu irmão. 

Deve ser um pai muito orgulhoso…

É. O meu pai nunca se dedicou à música a 100%, sempre foi bancário, por isso a minha carreira e a do meu irmão enchem-lhe muito as medidas. Acho que é mesmo um pai muito orgulhoso, e todos os alicerces e bases que nos deixou foram e são essenciais para o nosso dia a dia. 

Como é que ser músico se traduzia no quotidiano da família? Cantava-se, tocava-se?

Sim, totalmente, isso foi sempre algo natural lá em casa. Mas acontecia uma coisa engraçada: como o meu pai e o meu irmão passavam a vida a ouvir música, eu quando era miúdo até fugia um bocado daquilo tudo. A música sempre esteve em cima da cómoda, mas chegou verdadeiramente à minha vida através dos colegas de escola, que também cantavam e tocavam e ouviam muita coisa, e claro que, nessa idade, o que vem de fora da família tem sempre mais credibilidade. Então juntámo-nos e criámos um grupo coral amador que adquiriu grandes proporções. A partir daí nunca mais parei.

Disse uma vez que no Alentejo as pessoas têm uma relação muito precoce com a música, e os miúdos são postos em cima da mesa a cantar para a família desde muito cedo. Também fez isso?

Claro que sim, sempre. Tínhamos encontros familiares muito engraçados, muito culturais, muito artísticos, fazíamos teatros, improvisávamos concertos, e a arte sempre esteve muito próxima. 

Conte lá a história de quando conheceu o Rui Veloso (risos)

Foi uma história muito engraçada. Quando eu era criança, o Rui Veloso já era um ícone para mim. Então um dia, deveria eu ter uns oito anos, houve um jantar com o meu pai e os Adiafa onde o Rui também estava. Eu, encantado da vida, fartei-me de falar com ele, mas a certa altura chegaram mais pessoas e o Rui meio que me enxotou … vá lá, puto, sai lá daqui que tenho outras pessoas com quem falar. Fiquei ofendidíssimo (risos). Lembro-me que a seguir fomos para a cave do restaurante comer cabidela e eu nunca mais consegui comer cabidela na vida. Aliás, até há pouco tempo não conhecia muitas músicas do Rui Veloso porque, a partir daí, decidi fazer-lhe um ‘block-out’. Bem, uns anos depois, num aniversário meu, o meu pai passa-me o telefone e diz: “Há uma pessoa que quer falar contigo”. Era o Rui Veloso: “Então puto, ainda estás chateado comigo? Deixa lá isso e desculpa-me”. Claro que desculpei. Eram coisas de criança. Ainda hoje sou admirador dele. 

Também ainda era criança quando rebentou a loucura de “As Meninas da Ribeira do Sado,em 2001. Como é que uma criança via tudo isso?

Foi mesmo a loucura total. Foi o meu primeiro grande impacto com a indústria musical. O meu pai teve de ir para a estrada e fui pela primeira vez aos camarins, aos palcos, apercebi-me de como é que funcionava todo aquele mundo. Para mim, foi muito estranho, porque de repente toda a gente me chamava “o filho do Estrala a bomba, o filho do Estrala a bomba” e, portanto, desde essa altura também me habituei a esse fenómeno de uma pessoa se tornar conhecida através da música. Essa vida é muito aquela que eu tenho hoje, e sinto que essa experiência me preparou para o que viria depois. 

Tendo essa experiência ainda tão novo, nunca pensou “não me vou meter naquilo”?

Não. Houve uma altura na adolescência em que estive muito ligado ao desporto, jogava andebol e não queria fazer da música profissão. Continuava a cantar, mas não era dedicado a 100%. Mas quando começo a ter de tomar decisões e a fazer a gestão de uma carreira musical, pensei muitas vezes na vida do meu pai.

Ganhou a Grande Noite do Fado em 2016, com 21 anos. Foi nessa altura que decidiu fazer da música a sua vida?

Não, isso já tinha acontecido. Deixei a escola em 2013 e em 2014 mudei-me para Lisboa, onde já estava o meu irmão, e comecei a aparecer nas casas de fado e na onda fadista, até que me convidaram para participar na Grande Noite do Fado. Devo dizer que, apesar de ter ganhado, não gosto nada de recordar essa noite, tal como não gostei do Festival da Canção. Porque, para mim, a música nunca foi e nunca será competição, mas algo que se faz em conjunto. Competir deixa-me muito angustiado. Há sempre tanta gente boa, tanta gente a cantar bem, que é injusto haver um vencedor, e para mim a música não tem nada a ver com ganhar ou perder. Aliás, já toda a gente percebeu que eu gosto é de fazer duetos, a minha onda é essa, partilhar e não competir. 

Aliás, são famosas as suas parcerias com os D.A.M.A, com o António Zambujo, com a Bárbara Tinoco. É uma coisa que gosta de fazer, trabalhar com outras pessoas?

Muito! E para mim não são só importantes as pessoas com quem canto, mas as pessoas com quem toco, os técnicos, a minha equipa, as pessoas que vendem os meus discos, as pessoas que ouvem os meus discos. A música é um grande mundo de partilha, não é um caminho que se faz sozinho.

Nunca quis ser um fadista tradicional?

Vou dizer assim: eu nunca me quis colocar num caixote. Tal como nunca me assumi como um cantador de cante alentejano a 100%, também nunca me assumi como um fadista a 100%. Quando apareci em Lisboa cantei fado porque gostava da linguagem, gostava da Amália Rodrigues, do António Zambujo, do Ricardo Ribeiro, da Beatriz da Conceição, do Fernando Maurício… queria aprender mais, e dei por mim numa indústria musical, a trabalhar todos os dias e a ter de pagar as contas com a música. Aliás, esse período foi mais importante para mim enquanto construção do homem que enquanto construção do artista, apesar de ter aprendido muitíssimo enquanto artista. Ter de cantar todos os dias sem microfone foi um treino brutal. Mas nunca pensei dedicar-me a 100% ao fado porque estive sempre muito ligado ao Alentejo. 

Nunca se fechou no cante alentejano, aliás, faz com que ele conviva bastante bem com o fado ou com a pop. Isso também ajuda a ganhar mais pessoas para a tradição alentejana, não é?

Sem dúvida. Aquilo que temos estado a fazer ultimamente (e não sou só eu, somos vários artistas nessa missão) é quebrar aquele preconceito de que quem ouve pop não ouve fado e quem ouve cante não ouve pop. E isto serve para qualquer estilo musical. Tenta-se muitas vezes encaixotar os artistas quando, no fundo, nós servimos todos o mesmo propósito, a forma de nos expressarmos é que é diferente. 

Porque é que a sua música nos comove tanto?

É uma boa pergunta. Talvez porque vocês e eu somos iguais, o artista que canta e que sofre e que sente tem os mesmos sentimentos de quem o ouve. Acho que sou uma pessoa sensível e tento mostrar essa sensibilidade nas minhas canções, na minha forma de cantar, na minha maneira de comunicar, na estrada, nos concertos, junto das pessoas. Gosto de ser um agregador, gosto de ter essa bandeira de representante dos sentimentos das pessoas. 

Quando canta o Alentejo, está a cantar o país todo?

Sim. De norte a sul, somos muito diferentes, mas também há muita coisa em que somos iguais. As pessoas em Portugal são muito ligadas à sua terra, seja ela qual for. Isso não é uma característica só dos alentejanos. O que acontece é que por razões económicas o alentejano saiu sempre muito da sua terra, saía cedo, regressava com outra experiência, mas quando saía levava sempre a música consigo e continuava a cantar a sua terra. O algarvio, por exemplo, que vem de uma terra onde não se canta tanto, não sente menos o Algarve por causa disso, simplesmente essa sensibilidade é expressa de outras maneiras. No Alentejo toda a gente canta, cantamos a nossa tristeza e a nossa alegria, e levamos esse cantar para onde quer que vamos. Por isso é natural que as pessoas se identifiquem com esses sentimentos que são os delas também.

Tem saudades da sua terra quando está longe?

Tenho. Tenho sempre imensas saudades quando saio, e tenho sobretudo saudades da minha infância.

A sua filha tem dois anos, o seu filho é um bebé. Acha que vão ter o mesmo tipo de infância?

Não, já vai ser muito diferente. Mas a minha infância também já foi diferente da do meu pai, por exemplo. Eu nasci no mesmo sítio dos meus pais e eles estão sempre a dizer que a minha infância foi muito mais limitada, embora eu a sinta como livre… A minha filha tem 30 anos a menos que eu, e há muita coisa que vai ser diferente apesar de o sítio ser o mesmo. Já não se brinca na rua, já não se brinca às mesmas coisas, o mundo mudou muito. 

O que é que mudou em si após ser pai?

Passei a olhar mais para mim e para os outros. Por exemplo, ontem estava a pensar numa frase que disse à minha filha: “Não comas mais enquanto ainda tens comida na boca”. E de repente pensei … então, mas eu também faço isso. Portanto, o exemplo é importante. E, para mim, ser pai tem sido isso. Para eu pedir qualquer coisa a um filho, tenho de dar o exemplo primeiro. Tenho de olhar para mim e perceber o que está certo e errado. Ser pai tem sido acima de tudo um desafio de autoconhecimento e de perceber o que está correto. Isso implica muitas perguntas e respostas sobre o que é para mim o certo e o errado.

Pôs muita coisa em causa?

Não pus muita coisa em causa, mas pensei muito sobre muita coisa. E fiquei surpreendido com muitas coisas que fazia e que nem sequer faziam sentido para mim. Isso foi muito interessante, muito enriquecedor. Acho que quem é pai ou mãe me irá entender. 

Canta para os seus filhos?

Canto. Canto mais para o bebé, porque a mais velha, ela própria, já canta muito. E eu não gosto de interromper quem canta. Foi uma das coisas que o meu pai me ensinou. Nunca me atropelava, nunca me dizia para fazer assim ou assado. Deixava-me estar, fazer as coisas à minha maneira. Quando eu estava a cantar no quarto, a minha mãe tinha sempre curiosidade em ir ouvir, o meu pai deixava-me em paz. E é essa abordagem que eu tenho com a minha filha. Se quiser cantar canta, se não quiser não canta. 

Imagine que eu lhe dizia que queria ser cantora. O que é que me respondia?

Apesar de ser cantor, acho que não tenho grande moral para ensinar nada a ninguém. A música é algo muito pessoal e cada pessoa trabalha de forma diferente. O único conselho que posso dar é para a pessoa olhar para aquilo que é, para a sua história, e se acha que isso pode tocar alguém … bom, que trabalhe e conte-a da melhor forma. Acho que é o meu único conselho: olha mais para ti. 

Quando ouve música, que música ouve?

Por acaso ouço pouca música. Ouço principalmente aquilo que gravo, quer os trabalhos que faço para mim, quer os que faço com outros artistas. Gosto de produzir outros álbuns, aliás vou continuar a trabalhar muito essa área, e ouço principalmente de forma didática: se vou trabalhar com algum artista gosto de ouvir as suas referências, perceber que língua é que fala, de que cor é o amarelo que ele vê.

E quando não ouve música o que é que faz?

Penso. Acho mesmo que é o que mais faço durante o dia. Sou capaz de estar a olhar para uma parede e a pensar em mil coisas: de que forma me vou reinventar, enquanto cantor e enquanto ser humano.

Neste momento, quem são as suas referências?

Há pessoas fora da música que me inspiram mais do que muitos cantores. Por exemplo, o nosso técnico de som. É um excelente profissional, tem três filhos, consegue fazer tudo e mais alguma coisa. Sempre que me sinto cansado, lembro-me dele. 

Qual é a sua palavra preferida?

Partir. 

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