“Acabamos por estar aqui abertos e as pessoas todas que saem à rua vêm tomar o café, beber o seu copinho”, relata Fábio Veríssimo, proprietário do Café da Ana, que ganhou o nome da sua mãe, a ‘dona’ da cozinha, e o único estabelecimento de restauração da aldeia.
O café acaba por ser um ‘farol’ de convívio nesta altura em que o acesso rodoviário para a cidade de Alcácer do Sal está cortado, devido à subida do nível da água, que submergiu o pontão e a estrada que passa entre os campos de arrozais.
As pessoas “acabam por andar aqui sempre à conversa uns com os outros e [o café] acaba por ser um pouco o momento social destes dias”, reconhece Fábio, de 33 anos.
Por estas bandas, quando há mau tempo e descargas vindas da Barragem do Pego do Altar, é habitual o corte do acesso da aldeia à sede de concelho, no distrito de Setúbal, mas apenas por poucos dias, e há sempre a ligação mais longa, de aproximadamente 20 quilómetros, até Alcáçovas, no concelho de Viana do Alentejo.
Mas, desta vez, realçou Fábio, já há quase duas semanas que a água não os deixa ir diretamente para Alcácer do Sal, pois a estrada foi cortada ainda antes de a própria baixa da cidade começar a inundar, no passado dia 28 de janeiro.
Ainda que a estrada para Alcáçovas tenha sinais a indicar proibição de passagem e a volta seja maior, é a única hipótese para abastecer o café e restaurante. “É uma volta gigante, às vezes, nem toda a gente a consegue fazer e nem sempre é fácil, há dias ficou submersa [essa estrada] dada a muita chuva, ainda ficámos umas horinhas isolados, mas depois já conseguimos passar”, conta.
A sua mãe, Ana Veríssimo, atarefada com os cozinhados da hora do almoço, lá aceita dar duas palavrinhas e relata que vai “fazendo o possível” para o restaurante, mas também para ajudar outras pessoas da terra.
“Vamos fazendo o comerzinho da nossa maneira” e, por lhe ter sido pedido, está a cozinhar para quem antes recebia apoio domiciliário: “São só quatro pessoas e tentamos ajudar. A menina aí da junta vem e ajuda-nos a distribuir. Traz de manhã as sacolas e, depois, à hora do almoço, ajuda o Fábio a distribuir”, explica.
Como as reservas estavam a ficar esgotadas, já que os fornecedores não têm conseguido vir à aldeia, na quinta-feira aproveitaram “uma brechazinha no tempo, que estava bom”, e foram a Évora fazer “mais compras”, através de Alcáçovas.
“Comidinha não tem faltado. Não, graças a Deus, não. Podem estar mais isolados [os moradores], mas estão bem alimentados”, diz Ana, em tom de brincadeira, também habituada a ver a água a subir em anos anteriores, mas não tantos dias: “Normalmente são um ou dois dias e depois temos uma brecha para passar. Isto assim, nunca me lembro de ter visto”.
Em situação pior, admitiu, estão os moradores de Alcácer do Sal, porque as cheias na zona baixa “vão ser a ruína de muita gente”.
“Vai ser muito difícil as pessoas voltarem a erguer os seus negócios, se não houver uma grande ajuda. Causa muita ansiedade”, lamentou.
Na rua, junto ao canal de rega e ao limite da povoação, onde estão colocados dois gradeamentos com o sinal de proibido passar, embora a estrada ainda seja visível durante uns bons metros antes de ser ‘engolida’ pela água, Evangelina Dias, de 69 anos, assegura que só quer “que isto passe”.
“Estamos ansiosos. Nem sequer temos aqui um multibanco, nem uma farmácia. Se alguém adoece, como é que é? Uma ambulância, só se vier de Viana do Alentejo, o que ainda demora”, diz.
Para se ‘governarem’ só existe uma mercearia, onde é “tudo mais caro do que nos hipermercados”, lamentou Evangelina, frisando que os moradores se sentem “bastante isolados”.
Sentado à mesa do Café da Ana, à espera do almocinho, o trabalhador agrícola Felizardo António não tem outro remédio do que seguir na labuta como habitualmente, porque “os animais têm que comer”.
“O trabalho do campo, independentemente da chuva e do mau tempo, continua, tem que ser feito. Se há chuva, metemos um fato e calçamos umas botas de borracha o dia inteiro, se for preciso, mas tem que se dar palha aos animais, que têm de ser tratados”, disse.
Na herdade onde trabalha, a cerca de três quilómetros de Santa Catarina, há gado bovino e ovino, que anda no campo, onde “está tudo encharcado em água, já nem o trator lá pode andar. A água é tanta que já fica atascado”, relata.
Mas isso fá-lo parar? Felizardo responde de imediato: “Nada, só paro para almoçar e ao fim da tarde. E pronto, depois volta-se outra vez à mesma vida. Não se pode fazer mais nada senão esperar que pare de chover e a água escoe”.













Uma resposta
Vão também a vale de guizo uma terra esquecida onde está em isolamento e o único café foi engolido por o Sado ainda hoje fui levar pao e medicação de manhã num barco meu sou de Grândola mas morei muitos anos em vale de Guizo no Arez bem perto mas não isolado casas ficaram destruídas com a subida do sado…