Beatriz Marques Dias, da associação cultural Meio do Mato e codiretora artística desta produção, explica que «Calor» é «um espetáculo fora de portas, que não acontece na sala de espetáculos, nem no cineteatro, e tem como palco o lugar da Mina de São Domingos», aldeia mineira pertencente ao município de Mértola, no distrito de Beja.
A presidente da associação cultural, Alice Duarte, que também é codiretora artística, recorda que a Meio do Mato foi criada em 2023, na serra de Monchique, tendo uma equipa composta por «pessoas de áreas muito variadas, como a dança, a música, a biologia, a arquitetura, o design gráfico, a economia», sendo a dança e a música as áreas performativas que abrem portas ao trabalho comunitário, realizado até aqui sobretudo com escolas.
A convite da companhia Cepa Torta, a Meio do Mato participou numa residência artística de duas semanas, e o seu projeto comunitário foi selecionado pelo Conselho Malacate, grupo que gere o projeto homónimo de intervenção artística multidisciplinar, criado especificamente para a localidade.
«Calor» foi o resultado desse trabalho. As sessões estão marcadas para os dias 11, 12 e 13 de junho, às 20h30, na Mina de São Domingos, tendo como ponto de encontro o Pago Velho, de onde o elenco partirá para diferentes locais da freguesia.
«O elenco é composto por 12 pessoas da comunidade, e contamos com o Alex [Moniz], que fez a composição musical do espetáculo e vai interpretá-la. Eu e a Alice estamos com o público e com o nosso elenco, mas é a comunidade que é o elenco deste espetáculo, os nossos bailarinos, os nossos intérpretes», refere Beatriz Marques Dias, precisando que no total participam no espetáculo cerca de 15 pessoas.
A codiretora artística revela que «o espetáculo começa durante o dia, passa pelo pôr do sol, até chegar ao calor da noite». «A nossa expectativa é proporcionar vários tipos de calor ao público: calores frios, calores das relações, calor à mesa, o calor da resistência, o calor que nomeia o trabalho das minas, que se fez durante décadas ali, o calor da terra e o calor do corpo», acrescenta.
Já Alex Moniz classifica o trabalho comunitário realizado com a população da Mina de São Domingos como «muito gratificante», salientando tratar-se de um «trabalho muito específico, no qual é preciso escutar a comunidade, perceber quais são as mais-valias e o que cada pessoa pode trazer».
«Ser intérprete de um espetáculo é uma experiência que pode ser transformadora. E, nesse sentido, ficamos muito felizes por ver as pessoas a fazer isto. No final do projeto, há sempre muita emoção, há muito choro e, portanto, sim, é muito gratificante nesse aspeto, na relação com as pessoas. No fundo, é isso que também se valoriza, que sobressai — essa relação interpessoal com estas pessoas», argumenta.
Beatriz Marques Dias realça a dinâmica do trabalho realizado durante a residência, com «duas semanas em esteroides», nas quais foi dado «um mergulho absolutamente maluco em termos de tempo, de energia, de intensidade». «E depois voltar a mergulhar no território já com mais tempo, com dois meses e meio pela frente, e reencontrar as pessoas. A realidade é que nós ficámos tão próximos das pessoas nessas duas primeiras semanas, que, quando chegámos, passado este tempo todo, parecia que não tinha passado tempo nenhum. Foi muito giro voltar a encontrá-las e começar a trabalhar», conclui.









