Segundo a autarquia, o que está em causa é «a aplicação de regras de transparência e equidade aos apoios municipais à atividade cultural».
O Cendrev tinha alertado para o risco iminente de congelar a programação prevista até ao final do ano. A companhia disse também não conseguir avançar com a preparação da 18.ª Bienal Internacional de Marionetas (BIME), inscrita na programação de Évora 2027.
Em causa estão 100 mil euros em falta, relativos a duas tranches vencidas da contrapartida municipal no âmbito da Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses (RTCP), valor que sobe para 150 mil euros em outubro. A companhia apontou ainda a intenção da câmara de aplicar uma redução superior a 52% no apoio sustentado de 2026.
A direção do Cendrev afirmou que a situação a impede de assegurar os salários da equipa. Acusou também o município de não responder às sucessivas tentativas de contacto e de não cumprir as garantias verbais dadas no início do mandato.
Na resposta, a câmara indica que o regulamento de apoios atualmente em vigor data de 2011 e que «será revisto com a participação dos agentes culturais». O município assume ainda que «o montante global destinado à cultura não será reduzido face ao ano anterior».
Quanto à redução no apoio ao Cendrev, a autarquia afirma que «resulta da aplicação» do novo modelo de distribuição «e não de uma decisão dirigida à companhia».
«Importa, aliás, recordar que o apoio municipal ao Cendrev não se resume à transferência financeira direta», refere a câmara. De acordo com o município, em 2025, além de 87 mil euros de apoio pecuniário, a câmara suportou cerca de 530 mil euros em encargos relacionados com o Teatro Garcia de Resende e com a atividade da companhia. Esses encargos incluem instalações, palco, salão nobre, eletricidade, água, seguros, divulgação, recursos humanos e trabalho extraordinário.
A estes valores a autarquia soma 200 mil euros, que representam 50% da candidatura aprovada à RTCP. Com essa parcela, conclui a câmara, o apoio total dado ao Cendrev em 2025 foi superior a 800 mil euros.
O município aponta também para as receitas geradas pela própria atividade da companhia. Segundo os dados de 2025, a bilheteira do Cendrev representou «apenas cerca de 14 mil euros», dos quais 94% revertem para a companhia.
«Para uma estrutura que beneficia de um apoio público global daquela dimensão, o município entende que existe margem para aumentar significativamente a capacidade de atração de público e o retorno de bilheteira», afirma a autarquia. E ressalva: «Não como substituição do apoio municipal, mas como forma de reforçar a sustentabilidade da companhia e de maximizar o retorno do investimento público.»
A câmara diz reconhecer «o valor histórico e cultural» do Cendrev e reafirma «a sua disponibilidade para continuar a trabalhar com a companhia». Segundo a mesma fonte, está prevista para a próxima semana uma reunião «para analisar as dificuldades identificadas e procurar soluções». O município adianta ainda que será revista «a relação protocolar relativa ao Teatro Garcia de Resende, num processo que deverá envolver o Cendrev».
«Évora prepara-se para 2027, mas a política cultural municipal não termina nesse ano», lembra a autarquia. O objetivo, acrescenta, é «garantir uma cultura forte, diversificada e sustentável, apoiando o Cendrev e, simultaneamente, os restantes agentes culturais do concelho, incluindo aqueles que não dispõem de instalações municipais nem de apoio sustentado da Direção-Geral das Artes (DGArtes)».










