Campo de Tiro em Alter do Chão abre frente política e ambiental

A instalação do futuro Campo de Tiro da Força Aérea em Alter do Chão está a gerar forte divisão política e promete contestação ambiental, com críticas da oposição, dúvidas sobre impactos económicos e sociais e um processo ainda envolto em questões por esclarecer.

José Bento Amaro (texto) e Tiago Petinga/Lusa (fotografia)

A instalação do Campo de Tiro da Força Aérea em Alter do Chão é uma ambição de um partido e uma obra sem sentido para outro. PSD e PS, as duas forças políticas mais representativas do concelho, têm posições extremadas sobre o assunto. Apesar de desejado pelo atual presidente do município, há que contar com a «guerra» anunciada pelas organizações ambientais e também com a divulgação de um conjunto de estudos que, para além dos ecológicos, incluem os de impacto económico e social.

O campo foi primeiro anunciado para o Vale do Guadiana, hipótese à qual se opuseram as câmaras de Mértola e de Serpa. Agora, a opção pelo concelho de Alter do Chão está igualmente longe de ser consensual. Em termos políticos, os autarcas socialistas do distrito de Portalegre não gostaram de saber, conforme foi avançado pelo presidente do município, Francisco Miranda (PSD/CDS), que as negociações com o Ministério da Defesa já decorriam há mais de um ano. Na verdade, só no dia 17 de março, em reunião de Câmara, é que a oposição tomou «algum» conhecimento da obra e das suas características.

Eleito socialista na Assembleia Municipal e ex-presidente da Câmara, Francisco Reis diz que «há uma série de questões por resolver». E acrescenta: «Apenas nos foram facultados dois papéis. Um com o plano de intenções da Força Aérea e outro com a eventual localização. É muito pouco e, além disso, as informações que entretanto obtivemos nem sequer são coincidentes com as avançadas pelo Ministério da Defesa e pelo presidente da Câmara Municipal».

Segundo Francisco Reis, existe uma primeira questão que deve ser esclarecida, porque implica com os custos do empreendimento e os eventuais benefícios para a população do concelho. «O ministro da Defesa disse que cerca de três mil hectares do possível futuro campo de tiro não terão qualquer custo, uma vez que são de domínio público. Pois bem, estive a averiguar, a inteirar-me, e cheguei à conclusão de que, do total do terreno previsto para a obra, não há sequer um centímetro quadrado que seja do domínio público. Tudo terá de ser pago, seja por expropriação, seja através de rendas. Mas isso, para já, ninguém sabe como se irá processar. Não foi explicado».

O autarca socialista diz, por outro lado, que a chegada de um contingente militar ao território também não é sinónimo de crescimento económico. «Já ouvi falar em 150 ou 200 famílias que podem vir a instalar-se no concelho. Isso não é verdade. Em Alcochete, onde funciona o atual campo de tiro, residem 21 famílias. Além disso, diz-nos a experiência, a presença de militares não é assim tão rentável para, por exemplo, a restauração local. Os militares, por norma, comem nas messes».

Lembrando que os deputados do PS entregaram ao Ministério da Defesa «um conjunto de questões» sobre o projeto, perguntando «que estudos técnicos, operacionais, ambientais ou de ordenamento do território sustentaram a escolha desta localização», Francisco Reis é taxativo: «Só depois de elucidados poderemos tomar outras decisões. Para já aguardamos explicações».

Com uma área de 7.200 hectares, correspondentes a cerca de um quarto do concelho, o projetado Campo de Tiro da Força Aérea irá confinar com os concelhos de Fronteira, Monforte e Crato. Para este último está aprovada a construção de uma barragem e respetivo perímetro agrícola, havendo naturais preocupações sobre o impacto que as atividades militares possam vir a causar.

«Posso garantir que o campo de tiro não vai interferir com o perímetro agrícola da Barragem do Pisão. Essa foi uma das minhas preocupações desde o início das negociações com o Ministério da Defesa», diz o presidente da Câmara de Alter do Chão. Francisco Miranda assinala que a localização final ainda não está definida, mas garante que não existirão especiais constrangimentos para as populações locais. «O que posso garantir é que uma estrutura como esta terá sempre de distar, pelo menos, seis quilómetros de qualquer povoação, de modo a salvaguardar eventuais erros. Isso foi-nos assegurado».

Considerando tratar-se de «uma obra estruturante para o Alto Alentejo, caso venha a ser construída», Francisco Miranda passa depois a enunciar alguns dados estatísticos que, a seu ver, podem contribuir para o desenvolvimento local. «Trata-se de uma obra do Estado, que obedece a um conjunto de estudos, nomeadamente de impacto ambiental e também aeronáuticos».

Segundo o autarca, «o efetivo do campo de tiro terá cerca de 150 militares», sendo que «alguns trarão as respetivas famílias», competindo ao Ministério da Defesa «construir as habitações onde estas pessoas irão residir». Ao todo serão cerca de 200 pessoas.

«É um número bastante significativo para um concelho que tem cerca de 3.200 habitantes e que, nos últimos 50 anos, perdeu metade da sua população. Atualmente, as estatísticas referem que o concelho tem 9,05 habitantes por quilómetro quadrado, o que é manifestamente pouco», acrescenta o presidente da Câmara, antevendo «um apreciável crescimento» demográfico com a chegada dos militares e das respetivas famílias. «Haverá mais crianças nas escolas, existirão significativas melhorias no comércio e restauração local e, havendo mais pessoas, será obrigatório que também existam melhoramentos noutros equipamentos, como, por exemplo, no centro de saúde».

Francisco Miranda diz esperar grande contestação das associações ambientalistas à concretização da obra. «Estão no seu direito. Também o fizeram, por exemplo, em relação à construção da Barragem do Pisão, metendo providências cautelares e fazendo suspender os trabalhos de uma obra que é fundamental para toda esta região. O mesmo irá suceder, certamente, em relação ao campo de tiro», afirma.

O autarca contesta, no entanto, a existência de eventuais perigos ambientais, a começar pela contaminação dos solos. «Cada vez há menos fogo real neste tipo de instalações militares. Hoje, com as novas tecnologias, utiliza-se muito o fogo virtual. É possível determinar com exatidão onde as bombas caem e a eficácia que atingem sem que as mesmas sejam reais. Os dados que me foram fornecidos indicam que, em 2025, apenas foi utilizada uma bomba real em Alcochete e que, em 2024, foram 10. A média, diz o Ministério da Defesa, é de três a quatro bombas reais por ano».

Ainda em termos ambientais, Francisco Miranda desvaloriza os impactos do Campo de Tiro: «Sim, existem abetardas, sisões e águias-caçadeiras, mas cada vez são menos. Esses animais não serão, certamente, afetados pelo Campo de Tiro, até porque não são habituais nos terrenos que estão previstos. Essas espécies são cada vez mais raras e isso deve-se, sobretudo, às mudanças que a agricultura sofreu nos últimos anos».

Quercus pede avaliação ambiental

A associação ambientalista Quercus alertou para possíveis impactos do futuro Campo de Tiro da Força Aérea em Alter do Chão, manifestando preocupação com a população local, o ruído e o turismo. Responsável da Quercus em Portalegre, José Janela aponta também riscos para os habitats de aves, lembrando que a zona está abrangida por diretivas comunitárias de proteção. Os ambientalistas aguardam esclarecimentos do Governo e defendem a realização de uma avaliação de impacte ambiental. «Estamos preocupados com várias questões», afirma.

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