Campo alentejano, fundos e o risco de desaparecerem os agricultores

O campo alentejano atravessa uma nova transformação estrutural, marcada pela entrada de fundos internacionais, pela concentração da terra e pelo afastamento progressivo dos agricultores, num processo de financeirização que pode alterar profundamente o equilíbrio social, económico e político das comunidades rurais.

Joaquim Varela do Nascimento, agricultor (opinião)

O típico perfil do campo alentejano tem vindo a sofrer profundas alterações, a uma velocidade que só tem paralelo no PREC. Dois dos mais recentes protagonistas dessa mudança foram o fundo de investimento da Igreja Mórmon e o fundo de pensões dos professores do Canadá.

Mas, apertados com critérios ESG (ambiental, social e de governança), também grandes merceeiros à procura de reabilitação social e de legitimação ambiental, operadores industriais em processo de greenwashing, disfarçado de integração vertical, e especuladores avulsos a canalizar excedentes de caixa vão aparecendo pelo campo alentejano, privilegiando a massificação em detrimento do terroir.

E isto na exata medida em que recua a antiga e íntima ligação que famílias de agricultores mantinham com a terra e, como consequência, a vão tendo de entregar, passando esta de vivida a explorada, num impessoal processo de financeirização que, depois de os descapitalizar, acaba por empurrar os agricultores para um salário, uma reforma ou uma renda.

Pelo conceito, pelo aporte de tecnologia, mas sobretudo pela afetação de meios financeiros numa escala nunca antes vista por estas paragens, voltámos a assistir a uma concentração da exploração e da posse da terra que não acontecia desde o tempo das Unidades Coletivas de Produção (UCP). Se essa concentração aconteceu então por via política, a atual dá-se por via financeira, mas carece do enquadramento político e da responsabilidade social a que a posse da terra sempre obrigou.

Historicamente, na pessoa do agricultor — e, no período da reforma agrária, até mesmo na do revolucionário que chefiava as UCP — sempre houve alguém que respondeu pela terra e a representou. Agora, com o advento destes novos investimentos, que insistem na ficção de a considerar uma mera mercadoria, essa antiga relação passou a fazer-se com marcas e com os difusos rostos dos seus funcionários. À semelhança do período da reforma agrária, com as ocupações selvagens de propriedades, estamos agora, pelo campo alentejano, a chegar outra vez ao mesmo resultado: agricultores a serem removidos da paisagem e comunidades rurais em acelerado processo de proletarização, sem que desta vez seja sequer ilegal.

Quem é que se deixa surpreender por continuar a arder o interior quando, mais uma vez no primeiro trimestre deste ano, o número de insolvências apresentadas é liderado por distritos como Portalegre, Castelo Branco, Beja, Évora e Vila Real? Criando condições para acentuar o despovoamento, tem sido persistente em Portugal o crescimento do número de insolvências no setor da caça, pescas e agricultura. Até final de julho de 2025, por comparação com igual período de 2024, esse aumento chegou a 65%. Segundo a Iberinform, no distrito de Portalegre, durante o primeiro trimestre deste ano, atingiu mesmo 200%.

Segundo conclusões apresentadas pelo INE, no seu mais recente Inquérito às Explorações Agrícolas, não há dúvidas quanto à aceleração do ritmo de abandono da atividade, ao mesmo tempo que aumenta a mão-de-obra assalariada.

Se a quase aniquilação dos agricultores alentejanos durante a reforma agrária comunista permitiu, durante décadas, o predomínio político de um já então anacrónico e esclerosado extremismo revolucionário de esquerda — como sempre acontece em processos de desestruturação social em que mingua o grande estabilizador que é uma robusta classe média — também agora a crescente substituição dos agricultores, para permitir a chegada de outro totalitarismo, desta vez financeiro, através da instalação de multinacionais e fundos, coincide com mais um desequilíbrio político e com a consolidação de um novo populismo, igualmente importado, mas de sinal contrário ao do PREC.

Provando que os extremos, para além de se tocarem, se podem mesmo confundir, muitos dos antigos revolucionários de esquerda, que foram protagonistas locais do radicalismo proletário, reconhecem agora a mesma receita de outrora nos apelos emocionais aos instintos mais básicos, que potenciam o sectarismo descabelado. Estão, por isso, com facilidade, a converter-se em fervorosos apoiantes e a fazer medrar a incivil e ultramontana extrema-direita que por cá vai assentando arraiais.

Claro que é bem mais cómodo adotar o comportamento da «manada» e deixar que o sopro de ar destes estranhos tempos nos faça de novo tombar para o extremo da moda.

Mas, em vez do desencanto e da simples contenção de danos, o que é decisivo — embora possa voltar a ser perigoso — é a coragem de exercer uma cidadania ativa em prol de um desenvolvimento equilibrado e conciliador das práticas económicas, ambientais, sociais e culturais.

Pela segunda vez em cinco décadas, volta por cá a caber aos resilientes não abdicar de ter opinião, derrotar a demagogia e defender um modo de vida.

2 Responses

  1. O que é escrito tem muitíssimo de queixumes socialistas, antigos por sinal, que remontam à primeira dinastia.
    As questões económicas, sociais e políticas são olhadas sob o olhar dos interesses, ou a perda das vantagem deles inerentes.
    A terra foi sempre tida como elemento de poder, quer por uns, quer por outros. Entre estes, pouca diferença existe, só no embrulho.
    Outros houve e há, que têm a agricultura ou as suas diversas manifestações específicas como o que é na verdade, uma actividade económica e como tal ou é produtiva ou não.
    Uma actividade económica que se mantém com a subsidiência servil, por mais “moral” que se lhe queira adjudicar , é sempre um pechisbeque, da qual se deve prescindir.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Partilhar artigo:

ASSINE AQUI A SUA REVISTA

Opinião

CARLOS LEITÃO
Crónicas

BRUNO HORTA SOARES
É p'ra hoje ou p'ra amanhã

Caro? O azeite?

PUBLICIDADE

© 2026 Alentejo Ilustrado. Todos os direitos reservados.

Desenvolvido por WebTech.

Assinar revista

Apoie o jornalismo independente. Assine a Alentejo Ilustrado durante um ano, por 30,00 euros (IVA e portes incluídos)

Pesquisar artigo

Procurar